Juros a descer. E não sei se já repararam, mas…

Há alguma coisa a passar-se com as taxas de juro portuguesas. Não sei se todos repararam, mas no último mês aconteceu isto com as yields das obrigações a 10 anos (fonte: Bloomberg).

Sem Título

Isto foi no último mês. A tendência de descida, porém, vai um pouco para lá de 19 de Abril. As condições financeiras parecem estar a melhorar mais ou menos desde o início de Fevereiro, quando os juros atingiram os 4,244%. A partir daí foi sempre a descer, e se excluirmos a subida ‘técnica’ de meados de Março (causada pela mudança de benchmark nos terminais da Bloomberg e da Reuters), então a redução acumulada da yield já vai nos 1,3 pontos percentuais.

Isto, por si mesmo, não teria um interesse extraordinário. Não fosse dar-se o caso de ocorrer exactamente no período em que o Banco Central Europeu reduz o montante de compras de dívida pública a mínimos. Parece haver um estranho disconnect entre a pressão que o BCE exerce nos mercados e aquilo que o Estado português consegue extrair desses mesmos mercados.

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Eu não vejo necessariamente uma contradição entre a redução de compras do BCE e a descida dos juros. Apesar da dimensão do programa, há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo, e é perfeitamente possível que haja outros factores de sentido contrário a compensar o impacto negativo do ‘factor BCE’ (falei sobre alguns na coluna do Económico da semana passada). O mundo não é ceteris paribus, e não há razões para supor uma relação linear entre as aquisições do BCE e as yields das obrigações.

Aliás, há algum tempo que escrevo que a importância relativa do PSSP para a determinação das taxas de juro cobradas aos países periféricos é provavelmente muito exagerada (aqui, aqui, aqui). Há forças estruturais extremamente poderosas que explicam a compressão da rentabilidade dos activos (aqui, aqui, aqui) e que conseguem, por si só, justificar na perfeição os juros “artificialmente baixos” que observamos hoje em dia.

Ah, e depois há aquela coisa de que aparentemente ninguém se lembra: os juros estavam mais baixos antes do do PSPP do que imediatamente após o seu anúncio…

Mas deixa-me um bocado, enfim, a coçar o queixo, a forma como este género de fenómeno não suscita alguma reflexão entre muitos opinion-makers do comentário económica. Afinal de contas, uma das coisas mais consensuais na opinião publicada ao longo dos últimos anos é a importância crucial do QE do BCE para assegurar as taxas de juro historicamente baixas que vigoram hoje em dia. Ok, dois meses de descidas agudas não são uma prova retumbante de que o PSPP é pouco importante, mas eu diria que é pelo menos um indício forte de que quem via a redução do ritmo de compras como o prenúncio de uma desgraça iminente fez pelo menos um diagnóstico pouco robusto do impacto do QE. E eu esperaria que, não se materializando as profecias mais sombrias, houvesse algum repensar de posições por parte de quem anunciava a catástrofe.

Até agora nada disso aconteceu – é aliás notável como quase ninguém fez referência à coincidência temporal entre descida dos juros e redução do ritmo de compras. Provavelmente acontecerá o mesmo que sucedeu com uma série de outras questões no passado recente: as opiniões saltam de um pólo para o outro (de “isto é tudo o BCE” para “o BCE não interessa nada”) sem percorrerem o percurso intermédio e muitas vezes sem se aperceberem da contradição gritante entre o antes e o depois*. Suponho que seja inevitável. Mas não deixa de ser um bocadinho frustrante.

* Três dos meus exemplos favoritos: i) aqui há uns anos havia uma cacofonia de comentadores a falar sobre os salários que subiam acima da produtividade, e a dar receitas para os alinhar; hoje em dia, as mesmas pessoas escrevem sobre os relatórios do FMI onde o Fundo investiga as razões pelas quais… os salários nas últimas décadas têm crescido abaixo da produtividade; ii) na ressaca do período da Troika vulgarizou-se o termo “economia do betão”, supostamente para designar a bolha imobiliária que alimentou o crescimento português durante o século XXI; mas agora falamos a degradação da construção, que está há mais de 25 anos a definhar; iii) quando os bancos centrais baixaram as taxas de juro para 0% e implementaram medidas não-convencionais houve um coro de críticas às “ajudas à banca” que estavam implícitas nestes programas; o consenso actual é que o efeito é exactamente o oposto, por comprimirem a margem de intermediação do sistema financeiro; iv) antes do BES, ‘deixar cair um banco’ era uma política responsável para imputar ao sistema financeiro os custos dos problemas que ele próprio criou; a partir daí passou a representar a expropriação de pequenas poupanças de aforradores individuais;
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2 comments on “Juros a descer. E não sei se já repararam, mas…

  1. Miguel Araújo diz:

    A explicação mais simples não é considerar que a redução das compras do BCE está a ocorrer POR CAUSA da diminuição dos juros? Não existindo esta movimentação no mercado, não seria o programa prolongado? Parece-me esticado assumir que as duas variáveis são independentes.

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    • Seguindo o programa regras relativamente rígidas para os montantes de dívida adquiridos (% da chave de capital), acho que podemos tomar desvios face a esse caminho como exógenos, e ditados pelas regras auto impostas do BCE. Não digo que esse gestão estratégica não possa ser feita circunstancialmente, mas havendo tantas restrições activas a funcionar ao mesmo tempo, parece-me que a margem de manobra do BCE não é grande ao ponto de permitir a estratégia implícita ao seu comentário.

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