O que está mal com a macroeconomia?

Há mais ou menos uma década, Olivier Blanchard escreveu um paper acerca das longas  e violentas discussões entre macroeconomistas nos anos 70 e 80. Blanchard começava por lembrar algumas das controvérsias desse tempo – desde a contenda entre keynesianos e monetaristas, até à discussão em torno das expectativas racionais e microfundações -, para concluir que, pela altura em que escrevia, as grandes batalhas tinham acabado numa trégua perpétua. Havia então um largo consenso em torno da metodologia a aplicar (as “regras do jogo”) e dos factos a que qualquer teoria tinha de se conformar, que justificavam a conclusão do autor: «The state of macro is good».

As palavras de Blanchard podem ter sido precipitadas, porque pouco depois as discussões voltaram à baila. No New York Times, Paul Krugman escreveu o famoso How did economists get it so wrong?, seguido de uma célebre série de posts acerca da dark age of macroeconomics. John Conchrane respondeu em How did Krugman get it so wrong?, houve alguma “troca de correspondência” e a coisa acabou por azedar.

O curioso disto tudo é que aquilo que começou por ser uma discussão técnica sobre uma questão muito específica da macroeconomia – a eficácia da política orçamental para controlar o ciclo económico – rapidamente se transformou num debate mais vasto sobre a natureza do conhecimento macroeconómico. Ou, como costuma dizer um amigo meu…

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Hoje há um debate vigoroso em torno da capacidade da macro de fazer previsões fiáveis (e da própria relevância dessa capacidade como critério de sucesso), da importância das microfundações para a aceitabilidade das hipóteses de partida, da utilidade prática dos modelos de equilíbrio geral, da articulação entre factos e teorias,  da pedagogia em economia e de muitas outras coisas aborrecidas para o comum dos mortais. Por estranho que possa parecer, estamos a ver a macro a ser parcialmente reconstruída, ao vivo e a cores, pelos seus mais distintos praticantes – alguns mais revolucionários, como Paul Romer, e outros mais modestos nas suas ambições, como o próprio Blanchard.

(Ah, e no meio disto tudo há quem discuta questões quase meta-científicas, que abrangem toda a economia mas que provavelmente são mais relevantes para a macro do que para qualquer outro campo. O Noah Smith tem uma série de textos extraordinários sobre isso – assim pelo google encontrei este, este e este; que estão longe de ser os melhores, mas sigam os links que ele deixa e encontram muita coisa boa).

Claro que eu não precisava de fazer esta longa introdução para recomendar o novo ensaio de Ricardo Reis, Is something really wrong with macroeconomics?. Podia apenas ter dito que é do melhor que já li neste debate. Mas acho que a recomendação ganha força se o leitor souber que o artigo se destaca num meio tão populado por participantes distinguidos.

 

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2 comments on “O que está mal com a macroeconomia?

  1. jvgama diz:

    Em comentário a esse texto, o Noah Smith parece achar que o problema da Macro é teoria a mais https://noahpinionblog.blogspot.pt/2017/04/ricardo-reis-defends-macro_13.html

    Por razões pessoais desejo que ele não tenha razão, mas temo que possa ter alguma…

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