Mistérios da produtividade

No âmbito de um pequeno projecto em que estou inserido tenho estado a compilar dados sobre a produtividade portuguesa nas últimas décadas. A coisa habitual: pegar no PIB de cada país, ajustá-lo pelas paridades de poder de compra e comparar as séries ao longo do tempo. Com um pequeno ingrediente secreto, que está disponível na OCDE, mas a que nem toda a gente deita a mão: em vez de dividir o PIB pelo número de trabalhadores, divido-o pelas horas trabalhadas.

Uma das coisas que saltam à vista na análise comparada é a enorme estabilidade da produtividade nacional ao longo das últimas três décadas. De 1980 para cá já houve três resgates, um choque petrolífero, uma mudança de moeda, Governos do PSD, Governos do PS e Governos do PSD com o CDS. Mas a produtividade relativa pouco muda. Andamos sempre ali entre os 50 e os 55% das economias mais produtivas.

Bom, na verdade é possível encontrar termos de comparação relativamente aos quais a imagem não sugere um random walk em torno de um valor mais ou menos estável. Por exemplo, Portugal tem conseguido fechar o gap que o separa de Itália e Espanha.

Produtividade.png

Mas, e aqui chegamos à parte engraçada, Portugal começa a convergência com estas duas economias a partir de 1998. Isto é, exactamente a partir do período que a maioria dos economistas associa ao início da Grande Estagnação da economia portuguesa. O capítulo mais tenebroso da nossa história económica dos últimos 45 anos é também a altura em que mais nos aproximamos de alguns líderes europeus. Sou só eu que acho isto estranho?

Ok, talvez isto não seja um puzzle tão estranho quanto isso. A Itália, por exemplo, está longe de ser um caso de sucesso, e é fácil construir um argumento a envolver dois caracóis em competição directa: o facto de um ultrapassar o outro não significa que seja rápido. Por outro lado, o período 1995-2007 da economia espanhola não costuma trazer más memórias. Será que a produtividade estava a ter um comportamento péssimo, mascarado por uma performance notável do volume de emprego?

Ainda não percebi muito bem o que se está a passar. Mas já percebi que olhar para os últimos 15 anos através da produtividade horária acrescenta algumas nuances sobre a nossa década perdida e obriga-nos a pensar um pouquinho mais sobre o que temos em mente quando falamos deste período – e sobre a natureza do fenómeno que estamos a tentar explicar.

Por exemplo: apesar de a economia ter estagnado de 2001 em diante, a travagem da produtividade é muito anterior. Ela começa a notar-se nos dados logo em 1993, praticamente dez anos antes da década perdida (!).

Isto não é claro nos dados agregados porque há um choque positivo no emprego, que oculta o abrandamento da produtividade sob a aceleração do ritmo de criação de postos de trabalho. Mas debaixo de um número ‘bruto’ que conta uma história simples – a história de uma economia que entra no euro e deixa subitamente de crescer – parecem estar a acontecer várias histórias paralelas, cada uma com o seu argumento. Seria bom que as pessoas que estudam o “nosso” problema económico passassem a usar estes dados mais desagregados para testar teorias e rejeitar hipóteses.

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4 comments on “Mistérios da produtividade

  1. Carlos Duarte diz:

    Muito bom, Pedro. Uma pergunta: como chegaram ao número de horas trabalhadas e existe alguma correcção para trabalho “clandestino” (por exemplo, horas extraordinárias não contabilizadas)?

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  2. Ricardo Santos diz:

    Ola Pedro,

    2 comentarios/ sugestoes:

    E que tal fazer o mesmo exercicio com o pib real, sem ser em PPC? a partida a conversao para PPC deve explicar esse comportamento em torno dessa banda de 50-55%. Alias, em bom rigor ja que estamos a comparar productividade fara mais sentido comparar PIB real, porque para todos os efeitos a “competicao” entre as empresas portuguesas e dos outros paises e feita sem ajustes de PPC.

    e que tal fazer o mesmo para os sectores transaccionaveis/nao transacionaveis? julgo que ha dados anuais da OCDE por sector ou pelo menos do BCE desde 99/2000

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  3. Ricardo,

    Isso é o que é feito no gráfico. O gráfico não compara o PIB ppc relativo ao longo dos vários anos. Pega num PIB ppc relativo do passado (1970, no caso) e aplica-lhe as taxas de crescimento do PIB real que se verificaram a partir daí. Portanto a performance relativa (ou melhor dizendo, a estabilização do PIB português/horário face à França e Alemanha) é exactamente aquela que seria obtida se se usasse a comparação simples de taxas de crescimento de PIB’s reais.

    Carlos,

    Os dados das horas trabalhadas são self-reported. É o que há, e tem os problemas que pode imaginar. Mas é melhor do que assumir horas estáveis, que é o que acontece quase sempre (e quase sempre é enganador).

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  4. Ricardo Santos diz:

    OK! Nao tinha percebido, de facto não estava a espera tambem…

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