Como vai ser 2017

O que vai acontecer em 2017? Não faço ideia. Mas sei o que é que os participantes no concurso Previsões Económicas 2017 pensam que vai acontecer. O concurso fechou oficialmente na semana passada e, citando um título cada vez mais frequente, aquilo que as pessoas disseram vai deixá-lo de queixo caído.

Ou talvez não. Na verdade, eu não fiquei extraordinariamente espantado com os resultados.

Quando foi preciso prever o comportamento da economia em 2017, por exemplo, mais de dois terços deu a resposta óbvia: «Olha, sei lá, o mesmo que em 2016». Dois anos depois, já quase ninguém leva a sério as contas do plano Centeno – embora, registe-se também, não haja uma única pessoa a apostar no colapso económico.

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Em relação à popularidade das principais figuras políticas, os participantes revelaram o mesmo conservadorismo. A figura mais popular em 2017 será… António Costa.

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Estes resultados – bom, não estes dois resultados em si, mas de forma mais geral a prudência que (quase) todos os participantes revelaram – são mais ou menos aquilo que eu esperava. De facto, uma das motivações principais que me levou a abrir o concurso era perceber se a polarização evidente na troca de galhardetes entre as várias ‘facções’ políticas se manteria num ambiente um pouco mais ‘controlado’ do que as caixas de comentários dos jornais e dos blogues.

Aparentemente, não. Há muito pouca gente a acreditar que o PS vai fazer melhor do que o PSD em termos de emprego e crescimento económico. Tal como há poucas pessoas a esperar que Portugal precise de um segundo resgate ou volte a ter défices altíssimos na balança de transacções correntes. Questionados em relação ao futuro, os participantes parecerem ter usado, na sua maioria, uma heurística simples: olhar para o passado recente e projectá-lo para o futuro.

Dito isto, houve alguns resultados específicos com que não contava. Este é um bom exemplo:

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Este não é um tema secundário. A questão da “equidade na austeridade” ou da regressividade das medidas de consolidação orçamental conduziu a debates fervorosos nos últimos anos, e eu esperaria que a mudança de Governo em Outubro de 2016 2015 levasse o cidadão comum a esperar uma diminuição da desigualdade. Não é o meu caso, claro. Mas confesso que não contava ver tanta gente a pensar da mesma forma.

(E, mais estranho ainda, a crença não parece ser condicional à filiação política de quem responde. Os participantes de Esquerda também acham que a desigualdade terá aumentado em 2016. Creepy, de facto).

Já agora, quem são estes corajosos participantes, que aceitaram pôr a reputação em risco em troca de quase nada? Antes de mais, são poucos: 144 almas (apenas mais quatro do que o meu número de seguidores no Twitter). Por outro lado, quase metade está ligado à economia, o que dá um tom mais profissional à coisa. E em termos políticos estão bastante bem distribuídos, com 40% a afirmar-se de Direita e os restantes 60% mais ou menos divididos entre Esquerda e Centro.

Para além disto, de certeza que são todos previsores competentes e analistas sensatos. Mas para tirar isto a pratos limpos ainda vamos ter de esperar um ano. Até lá, deixo-vos com algumas das ‘previsões abertas’ mais curiosas (e arrojadas) que recebi:

  • Os resultados positivos iniciais da economia norte-americana vão espantar alguns mas no início de 2018 assistiremos ao desencadear de um processo de impechment a Trump. As medidas protecionistas iniciais vão sofrer um recuo. Até lá o Reino Unido vai seguir pelo mesmo diapasão.

  • O Orçamento de Estado para 2018 será aprovado, mas sem os votos de todos os deputados da Geringonça. A popularidade de Marcelo irá diminuir. Algures durante o ano, uma sondagem indicará que o PS consegue ter maioria absoluta sozinho. Daqui a um ano, será consensual que haverá eleições em 2018.

  • Trump não será o Presidente dos EUA no final de 2017

  • Até ao final de 2017 pelo menos duas das três grandes agências de rating vão voltar a colocar Portugal no nível de investimento.

 

 

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7 comments on “Como vai ser 2017

  1. jvgama diz:

    «Os participantes de Esquerda também acham que a desigualdade terá aumentado em 2016. Creepy, de facto»

    Os participantes de esquerda não são escolhidos ao acaso, mas terão maior probabilidade de serem leitores do teu blogue (do que indivíduos de esquerda escolhidos ao acaso). Acontece que escreveste uns posts bastante convincentes a este respeito…

    O que não quer dizer que se considere que no médio/longo prazo as políticas/medidas desta “solução governativa” não levem a uma sociedade menos desigual do que o ponto para onde estava encaminhada.

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    • Também considerei essa hipótese, mas algumas das pessoas que aparentemente votaram pela opção inesperada são algumas das pessoas que discordaram de mim na altura (não te esqueças que tenho alguma inside information nesta questão 😉 ). E, não tendo a presunção de pensar que sou capaz de influenciar de um lag de 12 meses, a minha surpresa permanece.

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      • jvgama diz:

        Tenho visto como razoavelmente comum o seguinte cenário: o indivíduo A e B discutem sobre um assunto, e um dos indivíduos (por exemplo o A) mostra argumentos factuais muito persuasivos, mas ninguém se mostra convencido. Passado algum tempo, já depois da discussão há muito terminada, o indivíduo B mostra-se sensível aos argumentos de A em futuras ocasiões.
        Até me parece que se B se tivesse deixado convencer logo na própria discussão seria uma pessoa com uma mente “anormalmente” aberta (e particularmente agradável de com quem se discutir), enquanto que se mantivesse irredutível face aos bons argumentos de A para sempre seria uma pessoa com uma mente “anormalmente” fechada (pelo menos se esse tipo de comportamento for usual).

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  2. Antoine diz:

    “a mudança de Governo em Outubro de 2016”

    Não quereria escrever 2015?

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  3. Leo diz:

    Eu sou do Centro-esquerda, e votei no aumento da desigualdade – mas isto tem pouco a ver com as politicas deste ou de outro governo, creio que sera algo mais estrutural na economia.

    Chamemos-lhe o efeito “Uber”

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    • Leo diz:

      Efeito “uber” – enquanto os “trabalhadores” nao qualificados ficam com trabalhos mais incertos e mais competitivos, esmagando os seus rendimentos, trabalhadores mais qualificados e donos de capital ficaram mais ricos, e com ganhos de monopolio/quase monopolio que a sua escala mundial lhes da.

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