O gang histérico-keynesiano

Portanto, parece que há mais membro no clube. Depois do Council of Economic Advisers americano, do FMI, do BCE e da Comissão Europeia, agora é a vez da OCDE. Boa: o clube não pára de crescer.

The declines in expected GDP growth have typically been more pronounced in those economies in which actual GDP growth has fallen short of expectations in recent years, consistent with what might be expected in a self-fulfilling low-growth trap. In the absence of policy measures to strengthen demand and longer-term growth prospects, this trap is likely to deepen, with negative longer-run consequences (…)

(…) On the other hand, effective fiscal policy, implemented now during the window of low interest rates and in conjunction with country-appropriate structural and trade policies, could change expectations, thus generating a positive feedback loop between expectations and actual GDP growth (…)

(…) In about a third of the countries covered in the Economic Outlook, the OECD recommends more expansionary fiscal policy than currently planned (…) A number of large economies, including Germany, should borrow more than currently envisaged to raise public investment (…) Persistent demand weakness, which gradually undermines the productive capacity of the economy (“hysteresis”), reinforces the case for a fiscal initiative in Italy and France and in a number of smaller Southern European economies with wide negative output gaps.

Há aqui duas ideias misturadas, que podemos destilar para perceber melhor o que está em causa. A primeira é a aparente conversão consumada da OCDE à hipótese da histerese: a ideia de que contracções económicas prolongadas podem deixas chagas permanentes no tecido económico, afectando o próprio potencial produtivo da economia.

A OCDE ilustra este princípio com um gráfico que correlaciona a revisão em baixa do crescimento potencial de cada país com a dimensão da contracção efectiva do PIB. Correlação não é causalidade, mas felizmente há mais do que esta imagem por detrás do alerta da OCDE. Se isto for verdade, o bouncing back do PIB para a sua tendência de longo prazo pode ficar irremediavelmente comprometido. A não ser que se faça alguma coisa urgente.

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A segunda ideia é a admissão de que a política monetária atingiu os seus limites. É preciso fazer alguma coisa com urgência, mas não são os bancos centrais que têm de se chegar à frente. Por muito que se diga que estes ainda têm cartas na manga, é cada vez mais óbvio (desde logo para os próprios!) que a eficácia marginal da compra de activos é cada vez menor, e que a incerteza em torno dos seus efeitos colaterais é crescente. A solução é um estímulo orçamental coordenado entre as economias desenvolvidas, mais agressivo onde a capacidade é maior, e mais moderado onde a dívida impõe mais restrições.

Eu diria que este último ponto não é necessariamente keynesiano – pelo menos, se por ‘keynesianismo’ entendermos a afirmação trivial de que ‘a procura conta’, o que tanto serve para justificar a política orçamental como a política monetária. E também diria que histérico é uma péssima transformação da palavra histerese. Mas achei tanta piada ao nome que preferi deixar o título assim.

Em todo o caso, é uma boa oportunidade para voltar a um post antigo, onde argumentei que não era surpreendente que o crescimento do PIB desde que o novo Governo entrou em funções não tenha descolado de 1-1,5%. A explicação mais comum é que ‘o modelo estava errado’, e que “não se cresce gastando dinheiro”; mas a explicação mais provável, que avancei no post, é que o modelo não chegou a ser implementado – o saldo estrutural, a medida mais comum para avaliar o contributo do orçamento para a macroeconomia, deve melhorar este ano (ao invés de se deteriorar).

E é importante notar esta diferença, porque se não conseguirmos reconhecer que o orçamento tem mesmo efeito na economia, e que a política orçamental é um bocadinho mais complicada do que o label depreciativo ‘fazer dívida para crescer’, vamos olhar todos para as recomendações da OCDE e achar que está a dar-nos um conselho para regressarmos à idade da pedra da macroeconomia. Quando na verdade o que nos está a dar é algo muito diferente: a armas de arremesso para se pressionar os países com margem orçamental a fazer aquilo que nós já não podemos fazer.

P.S.– A OCDE também já está a adoptar a ‘visão nuanceada’ das reformas estruturais que tem vindo a ganhar apoiantes nos últimos tempos: «It is particularly important to ensure that reform efforts are coherent; otherwise they will not yield improved outcomes. For example, relaxing labour regulations in an environment of rigid product markets may only reduce employment and wages. In contrast, deregulating the business environment at the same time enhances the likelihood that businesses will compete for workers». Aplausos, aplausos.

 

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11 comments on “O gang histérico-keynesiano

  1. Leo diz:

    Talvez uma pergunta idiota mas…
    Nao era suposto termos aprendido isto tudo na grande depressao dos anos 30? E nao era suposto termos aplicado a maior parte desses conhecimentos pelo menos desde 2008?

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    • Acho que não é assim tão simples. Há outras questões a ponderar, como o limite de dívida tolerável, a eficácia relativa da política monetária e orçamental, o best guess para o período de tempo em que a economia se mantém numa armadilha de liquidez e, last but not least, problemas de economia política.

      Dito isto, 90% destas inquietações faziam sentido em 2011, mas já deviam ter sido mais que ultrapassadas em 2016.

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      • jvgama diz:

        Esqueces-te é da “histerese” também no campo das decisões políticas: em 2011 as coisas não eram muito claras, mas quem defendeu certas posições que agora tem consciência de terem sido erradas tem tudo a perder em assumir publicamente o erro e mudar radicalmente de discurso.

        Assim, se há alguns anos atrás existia um debate académico de um lado que era espelhado (com algumas distorções) no debate político; a evolução no debate académico (em direcção a um maior consenso nesta matéria) passou completamente à margem do debate político.

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  2. João, concordo parcialmente. Do ponto de vista do debate académico, claro que a opinião reinante foi-se desviando progressivamente de um lado para outro. Mas não acho que a classe política tenha passado completamente à margem desta mudança de ambiente intelectual. No Reino Unido o Governo Cameron suavizou bastante o plano de consolidação orçamental a partir de 2012, na Europa as metas orçamentais dos países sob programas financeiro também foram revistas em baixa, no Japão está em curso um plano de reflação (Abenomics) e nos EUA também devemos ver algo a mexer nos próximos meses (mesmo se a pessoa que está ao leme não é a mais competente). Com a excepção do caso da Alemanha (tão excepcional que até gera curiosidade antropológica*), parece-me que tem havido geralmente pessoas na classe política dispostas a ouvir o que vai saindo de think-tanks, bancos centrais e universidades.

    Agora, admito que a adopção das prescrições tenha sido lenta (o lagging é demasiado grande). Mas mesmo aqui é importante reconhecer que o próprio pensamento na academia tem vindo consistentemente a evoluir na mesma direcção, o que cria uma ilusão de ‘lagging’ maior do que na realidade. Para ti é fácil dizer que devíamos estar hoje a discutir um plano de expansão orçamental, mais do que um plano de consolidação orçamental menos agressivo do que se defendia em 2010. Mas a ideia do plano de expansão de facto é recente – vem talvez de 2015, e só em 2016 se tornou moda. Aquilo que se discutia em 2011 e 2012 era um plano de consolidação mais leve, e não um plano de expansão.E isso foi posto em prática em 2013.

    Ou seja, há aqui uma série de subtilezas que obrigam a qualificar a ideia de que a classe política está 5 ou 6 anos atrasada na adopção das ideias que saem da academia. O atraso será bem menor do que isso.

    Finalmente, não me esqueço da histerese no campo das ideias. Pelo contrário, escrevi uma série de vezes acerca da necessidade de não chamar demasiado a atenção para a inversão do sentido da política orçamental na periferia, precisamente para facilitar aos políticos europeus salvarem a face e não se porem com merdas de que “isto é a coisa a certa a fazer, mas politicamente…” 😉

    * vê aqui, por exemplo: http://voxeu.org/article/german-macroeconomics-long-shadow-walter-eucken

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  3. jvgama diz:

    « Mas não acho que a classe política tenha passado completamente à margem desta mudança de ambiente intelectual.»

    Tens razão, não passou completamente à margem dessa mudança.
    As acções mudaram mais que o discurso, mas foram muito limitadas pela “rigidez” do discurso.

    Isto na verdade mostra que muitos destes actores políticos não estão a agir de forma “insuficiente” por ignorância, falta de sofisticação ou completa ignorância daquilo que é o debate académico. Estão a agir de forma insuficiente porque estão a colocar certos interesses eleitorais acima de encontrar a forma mais rápida e eficaz de responder à crise. Ou seja, até podem querer encorajar políticas diferentes, mas apenas na medida em que sejam discretas o suficiente para se compatibilizarem com um discurso muito semelhante ao que aplaudia (e ainda vai aplaudindo, talvez com ligeiramente menos vigor) o virtuosismo das políticas opostas.

    Nós já discutimos a este respeito em relação aos políticos portugueses, e embora eu esteja razoavelmente convencido que isto às tantas foi parte da “equação” para o governo anterior, será mais difícil persuadir-te que poderiam ter agido de forma diferente e melhor. Mas agora até estava mais a pensar à escala europeia e não tanto à escala nacional (até porque neste ponto as escolhas mais importantes à escala nacional são muito quais as posições assumidas nas negociações à escala europeia). O gap entre aquilo que as intuições europeias podiam e deviam fazer para lidar com este problema e aquilo que têm feito é gritante e não o consegues explicar sem uma grande dose de eleitoralismo.

    E voltando ao PSD, é bastante claro que as “elites” estão conscientes do que está em causa. Não sei se o artigo do Vítor Bento no Observador (que referiste neste blogue) é coincidente com o “momento de viragem” de grande parte, mas pelo menos foi nessa altura que me comecei a aperceber que tinha acontecido.
    Mas se pensares nas “bases”, a visão é completamente diferente, e parada no tempo. A austeridade é óptima, necessária, inevitável, e qualquer tipo de estímulo fiscal à escala europeia seria um erro. Alguns, com “mais” conhecimento, podem defender a “austeridade expansionista”, etc.
    As elites foram tão discretas na mudança de discurso que não tiveram uma atitude pedagógica e frontal perante as bases, e pelo contrário sentem que até podem perder o apoio destas se assumirem os erros com clareza.
    Agora eu acho que o mesmo acontece em quase todos os países por essa Europa fora, e só por isso é que não existe “ambiente político” para fazer aquilo que os decisores em geral sabem que deve ser feito.

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    • Completamente de acordo. Isto tem sido um bocadinho como mudar a rota do Titanic: um esforço hercúleo ao leme – voltas, voltas e mais voltas – para que o navio comece a alterar lentamente a trajectória. E parte desta dificuldade resulta do facto de o capitão não querer agir de forma brusca, para não dar a entender lá atrás que está a reorientar o barco.

      Agora, não sei até que ponto isto é novo ou particular ao actual contexto. Consigo pensar em vários casos em que as acções do passado pré-determinaram de forma muito mais rígida as opções subsequentes. Isto não desculpa nada, claro.

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    • jvgama diz:

      pequena gralha: «estímulo fiscal», se pudesse editar o meu comentário substituiria «orçamental» por «fiscal».

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  4. Parece-me que se está aqui a confundir situações bastante díspares e que a situação portuguesa não é comparável nem com a Alemã. nem com a francesa, inglesa, espanhola ou sequer a italiana ou belga, onde a dívida é grande. Se é verdade que devia haver um expansionismo fiscal na Europa, também é verdade que esse expansionismo não é possível em Portugal, pelo menos numa escala significativa (agora há margem fazer algum, mas pouco, expansionismo, e deveria ser muito bem pensado).
    Simplesmente porque não podemos e porque não sabemos em que seria gasto o dinheiro nem o que aconteceria a seguir (vide 2009-2011).
    Na alternativa “não pagamos a dívida” podemos fazer o expansionismo que quisermos e mais tarde pagaremos por isso. Ou então a alternativa federalista “os alemães pagam a nossa dívida”, é a democracia que deixa de ser relevante, e nós seguimos a nossa vidinha voltando a fazer crescer a despesa importada e o endividamento á custa dos amigos europeus, isto enquanto durar a amizade. Não me parecem que sejam alternativas viáveis e muito menos responsáveis.

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    • jvgama diz:

      «Parece-me que se está aqui a confundir situações bastante díspares e que a situação portuguesa não é comparável nem com a Alemã. nem com a francesa, inglesa, espanhola ou sequer a italiana ou belga, onde a dívida é grande. Se é verdade que devia haver um expansionismo fiscal na Europa, também é verdade que [soluções de ruptura à parte] esse expansionismo não é possível em Portugal, pelo menos numa escala significativa »

      Ricardo, esse é um pressuposto dos meus comentários. Por exemplo quando escrevi “(até porque neste ponto as escolhas mais importantes à escala nacional são muito quais as posições assumidas nas negociações à escala europeia)” era precisamente isso que tinha em mente.

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  5. Confesso que não é evidente para mim. Mas se é isso, ótimo.

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