Confusões sobre a Estagnação Secular

Nos últimos tempos tem-se falado cada vez mais da Estagnação Secular, um conceito cunhado há quase 80 anos e ressuscitado em 2013 por Larry Summers. Nas suas linhas gerais, a ideia anuncia um futuro distópico para as economias desenvolvidas: pouco (ou nenhum) crescimento, níveis de vida estagnados e crises económicas recorrentes.

Summers argumenta que este é, ou pode provavelmente ser, o futuro da maior parte dos países ricos. Em parte porque é mais ou menos isto que vemos quando olhamos à volta – e em parte, suspeito, porque o nome da coisa se presta bem a manobras de marketing – a ideia cravou os dentes no debate público e agora aparece recorrentemente na comunicação social. Mas a forma como o tema é abordado, quer na sua formulação, quer nas suas implicações, deixa muito a desejar.

Em particular, tornou-se habitual dizer que a Estagnação Secular é uma teoria acerca do ‘fim do crescimento’, um facto da nossa vida económica ao qual temos de nos resignar. Na verdade, é precisamente o contrário.

A Estagnação Secular explica por que é que o amadurecimento das economias – tomado um facto exógeno – pode conduzir a falhas recorrentes e persistentes na procura global. De acordo com a teoria, os mecanismos de mercado que durante mais de dois séculos foram suficientes para estabelecer o pleno emprego podem tornar-se cada vez mais ineficazes, exigindo o apoio de outras forças para tapar essa lacuna. E isso tem um remédio.

Mas sobre esta questão o melhor que posso fazer é reencaminhar para o excelente A tale of two stagnations, de Noah Smith.  Vão lá ler tudo, porque aqui só incluí alguns trechos.

The term “secular stagnation” has become a catch-all description for long-term economic pessimism. But it’s gotten confused with a very different idea — the technological stagnation hypothesis, proposed by economist Robert Gordon (and by Bloomberg View’s Tyler Cowen). These are two very different ideas. Both would lead to slow growth in the long term, but they imply different causes and different remedies.

Summers’ secular stagnation is all about aggregate demand. Normally, economists think of demand as something that falls temporarily in a recession and then bounces back. But the failure of many economies to return to their previous trends after big slowdowns has made some economists worry if demand shortfalls could be very persistent.

Demand gaps usually emerge when everyone tries to save money at the same time. This could happen because people become more pessimistic about the future, for example, or because they suddenly decide they need more liquid assets. But when everyone tries to hold onto cash, they don’t spend, and so companies don’t produce things. Companies that don’t produce things lay off workers, and pretty soon there’s a recession.

Usually this process ends naturally. Eventually people need to replace their old cars and fix up their houses, or their temporary bout of pessimism ends, or some other force acts to restore demand. But under certain conditions, in some models, it’s possible for an economy to trap itself, so that low demand and slow growth become a self-reinforcing, self-perpetuating cycle.

(…)

Technological stagnation is a different beast. According to Gordon and others, humanity has simply picked most of the low-hanging fruit of science and technology. Airplanes and cars travel no faster today than they did 50 years ago. Electricity, air conditioning and household appliances have made our homes about as pleasant as they’re likely to get, and so on. That doesn’t mean advances stop, but it means that each one is less game-changing than the last.

A key piece of the tech stagnation hypothesis is that production of the things we want isn’t going to get much cheaper. Gordon points to slowing productivity as evidence that our economy is getting worse at finding new ways to do more with less. This trend is worldwide, which makes sense, since a decline in science and technology should be global in nature.

So technological stagnation is all about supply, while secular stagnation is about demand. The two are related — slower productivity growth tends to reduce interest rates, putting the economy closer to the zero lower bound that drives demand shortages. But the two types of stagnation are very different things, requiring very different policy responses.

If we’re in secular stagnation, the economy is wasting its potential. Workers are staying home — not counted as officially unemployed, but out of the labor force completely — playing video games while offices sit empty and unused. In that case, we need something like fiscal stimulus to raise demand and lift us back to full employment.

But if we’re in technological stagnation, there’s not much we can do. Yes, there are some things government can do to boost innovation at the margin, like reforming patent laws, lifting onerous regulations, and investing in research and development. But in the long term, the forces of progress are difficult to predict and control. If we’ve already exploited the biggest innovations, we need to reconcile ourselves to living lives not much better than those of our parents. That would be a disappointing outcome, but it might be the best we can do.

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9 comments on “Confusões sobre a Estagnação Secular

  1. Não sei se essas duas estagnações serão totalmente distintas – sobretudo parece-me muito fácil imaginar como a segunda estagnação pode provocar a primeira (menos oportunidades de investimento → menos investimento; menores expetativas de aumentos de rendimento no futuro → menos consumo no presente, se formos pela teoria do rendimento do ciclo de vida; menos investimento + menos consumo → redução da procura agregada, e a tal estagnação do primeiro tipo).

    Um parte – é curioso como, atualmente, estão (relativamente) na moda dois teorias radicalmente opostas sobre o progresso económico: de um lado os estagnacionistas-tipo II, e do outro a teoria de que estamos à beira de uma automatização sem precedentes.

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    • Penso que são claramente distintas. A segunda pode causar a primeira, mas não é a única causa concebível. Por exemplo, a menor rentabilidade do capital pode ter que ver com a diminuição da população, mesmo que a produtividade continue a crescer.

      Também já tinha reparado na oposição dessas duas teorias opostas, mas talvez não sejam tão incompatíveis quanto parecem. A ver se tenho tempo para escrever sobre isso um dia destes.

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      • jvgama diz:

        «Um parte – é curioso como, atualmente, estão (relativamente) na moda dois teorias radicalmente opostas sobre o progresso económico: de um lado os estagnacionistas-tipo II, e do outro a teoria de que estamos à beira de uma automatização sem precedentes.»

        Acho que a lógica dessa é a seguinte: a inovação tecnológica funciona por “solavancos”, “revoluções industriais”. Os frutos da última já estão a dar as últimas, mas podemos mesmo estar à beira de uma nova.
        Já vi várias vezes esta perspectiva exposta. Lembro-me por exemplo do livro do Pikety (que não tem falta de perspectiva sobre a evolução da rentabilidade do capital ao longo dos séculos) onde se diz precisamente isso: ou se dá a tal “revolução industrial da automação”, ou então a produtividade total dos factores vai abrandar sucessivamente, como tem vindo a acontecer nos últimos anos.

        Mas suponho que em cima do “momentâneo” abrandamento da produtividade por razões “tecnológicas”, a UE esteja principalmente a sofrer o tal problema de “estagnação secular”. Fazia mesmo falta a UE lançar-se numa espécie de “New Deal” (idealmente um Green New Deal, que as renováveis têm uma rentabilidade muito superior aos pouco mais de 0% a que um plano destes podia ser financiado, com o bónus extra de atenuar as consequências catastróficas do Aquecimento Global), mas isso infelizmente parece muito distante do horizonte. Grande falta de coragem política por Bruxelas e não só.

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  2. PedroF diz:

    Duas perguntas:

    1 – Podemos ter falta de procura quando alguns países têm tanta que para a sustentar, além do rendimento anual, precisaram de contrair dívidas de quase 5 vezes o PIB?

    2 – Faz sentido falar em estagnação tecnológica quando a inteligência artificial está a algumas décadas, talvez menos, de tornar o cérebro humano obsoleto?

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    • 1 – Em princípio, a dívida não afecta a procura: aquilo que X compra a mais com o dinheiro que pediu emprestado é o que Y compra a menos com o dinheiro que emprestou [Em princípio: na prática não é assim, mas acho que o exemplo pode ajudar a perceber melhor o vício de raciocínio implícito na pergunta]

      2 – Eu diria que não. Mas se a inteligência artificial está aí, então onde é que aparece? Nas estatísticas de produtividade não é de certeza.

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      • “Nas estatísticas de produtividade não é de certeza.”

        Talvez o aumento da produtividade apareça, não nas estatísticas, mas nos comentários em blogs – não apenas no sentido de nos comentários em blogs se falar de uma mudança tecnológica que não se vê nas estatísticas, mas também no sentido do que talvez se passe é que haja um aumento escondido da produtividade, que se vê nem no aumento da produção, nem na redução do número de horas formalmente trabalhadas, mas (pelo menos nos trabalhos “colarinho branco”) pelo aumento do tempo contado estatisticamente como tempo de trabalho mas passado na internet.

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      • jvgama diz:

        ehehehe!

        Estou a rir-me do comentário do Miguel Madeira, mas porque acho que tem bem mais razão do que a é dada pelos actuais modelos económicos 😉

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      • João, não te rias. Há mais do que um paper sobre isso 🙂 Os autores olham para vários sectores e tentam perceber se há diferenças na evolução da produtividade entre os que permitem alguma laziness no trabalho e aqueles onde isso é mais difícil de acontecer (por exemplo, porque não há PC’s, ou porque o trabalho é medido por uma figura tipo ‘capataz’). E a conclusão é que isso explica pouco, se é que explica alguma coisa de todo.

        Anyway, este é um tema muito, muito interessante, mas demasiado técnico para se poder abordar em posts curtos. Se tiverem interesse em seguir as discussões, vão dando uma vista de olhos no blogue do Vollrath: https://growthecon.com/

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      • jvgama diz:

        “I stand corrected”, e aproveito e fico a aprender umas coisas 🙂

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