Portugal e o FMI, dois anos depois do pó assentar

O FMI publicou um relatório acerca do seu papel nos programas de ajustamento da periferia europeia – e, como é habitual sempre que se põe a fazer auto-avaliações, gerou uma série de notícias que não são, digamos assim, completamente fiéis àquilo que o relatório tem lá dentro. Aliás, é sintomático que a notícia reportada pelo Esquerda.Net não seja assim tão diferente daquilo que se foi escrevendo por aí.

Há batalhas que estão perdidas à partida, e por isso nem vou tentar fazer de advogado do diabo (para isso leiam o Ricardo Reis). Mas queria aproveitar o momento para referir um dos background papers do estudo, que versa sobre Portugal e que é do melhor que vi por aí (o que não é estranho, tendo em conta que Sérgio Rebelo e Martin Eichenbaum são dois dos três autores).

Se se derem ao trabalho de ler o documento vão encontrar muita coisa boa. E também uma série de conclusões que há uns anos seriam consideradas anátema mas que hoje começam, pouco a pouco, a tornar-se (quase) consensuais. Algumas dessas ideias ocuparam uma boa parte dos posts deste blogue, e as referências que se seguem – uma boa parte dos quais são apenas links para textos alheios – reflecte bem a evolução das ideias ao longo do tempo. Só para nos relembrar que às vezes, de longe a longe, aprendemos uns com os outros. E – surpresa! – até se chega a alguns consensos.

  • Foi uma crise de Balança de Pagamentos, não uma crise orçamental. Esta é mais ou menos óbvia para quem seguiu a questão ao longo dos últimos anos. Tão óbvia que até já gerou um e-book no Vox, com o nome Eurozone crisis: a consensus view. A ideia de fundo é que a crise não resultou de indisciplina orçamental, mas de um desequilíbrio clássico das contas externas, que atingiram um ponto de ruptura e originaram uma travagem súbita de financiamento (sudden stop).
  • O impacto da austeridade foi subestimada, mas há qualquer coisa ali que não bate certo. Esta é um pouco técnica, mas aqui vai: toda a evidência mostra que o impacto económico da consolidação orçamental foi substancialmente maior do que se esperava – em jargão, o multiplicador era superior aos 0.5 admitidos. Mas quando se tenta alterar as previsões feitas em 2011 e 2012 assumindo um multiplicador mais alto o fitting aos dados está longe de ser bom. Há ali qualquer coisa estranha a passar-se.
  • Os Custos Unitários do Trabalho não são para aqui chamados. Pelo menos desde 2006 que este exótico indicador aparece recorrentemente referido na discussão do desequilíbrio externo português. Os autores mostram que a importância atribuída aos CUT parece resultar mais de má análise do que de boa economia. E isto leva-nos ao terceiro ponto…
  • Portugal não tem um problema de competitividade. A palavra ‘competitividade’ tem uma série de alçapões, mas neste caso concreto a interpretação é simples: não houve nenhum factor macroeconómico a tornar o preço relativo das exportações nacionais mais alto e, assim, reduzir a quota de mercado das vendas portuguesas. O desequilíbrio externo teve muito mais a ver com o comportamento das importações do que com a capacidade de venda no exterior.
  • A subida dos juros foi em parte uma profecia auto-cumprida. Esta parte não tem grande análise, e vale mais pelo facto de os autores subscreverem a ideia de fundo: a subida dos juros era difícil de relacionar com fundamentais, pelo que se deduz que reflectiria outros problemas que não os da dívida pública. A descida a pique das yields após o célebre ‘whatever it takes’ de Draghi acrescenta força a esta ideia.
  • Mas a política orçamental foi importante para credibilizar a acção do BCE. Os autores reconhecem que a acção do BCE dificilmente poderia ter sido bem sucedida caso não houvesse apoio orçamental por parte do Governo português, que foi pondo as contas em ordem enquanto Draghi eliminava os riscos de colapso da Zona Euro. Quantificar os ‘méritos relativos’, claro, é um exercício complicado.
  • A política orçamental foi menos laxista do que se pensa. A ideia é simples. De 2000 a 2007 o crescimento da dívida pública resultou menos de uma deterioração do saldo primário do Orçamento (que permaneceu estável) mas sim de uma descida abrupta do crescimento nominal do PIB. Ou seja, o problema não foi tanto de irresponsabilidade activa, mas mais de reacção tardia a uma mudança de circunstâncias. O que, enfim, convenhamos que não é assim tão diferente. But still, importante de notar.
  • O perfil da dívida externa é estranhamente robusto. As análises de sustentabilidade mostram que a dívida externa pode continuar a ser reduzida mesmo em cenários de choques negativos, o que mostra a dimensão da melhoria da Balança de Transacções Correntes desde 2010. Isto é um pouco óbvio para qualquer pessoa que se dedique a fazer as contas, mas como é uma ideia tão impopular se calhar vale a pena referir.

Dito isto, há duas coisas de que discordo.

Primeiro, penso que os autores não esmiuçam suficientemente dois pontos importantes na emergência do desequilíbrio externo desde 95 até 2007: a quebra abrupta das transferências dos emigrantes e dos apoios comunitários e o papel que as empresas não financeiras tiveram no processo. Estas pontas soltas, tanto quanto me apercebi, nem sequer são referidas no paper.

Segundo, a ideia de que o crescimento das exportações de 2011 a 2014 foi apenas um fenómeno de convergência para a tendência pré-crise também não me convence. Isso seria uma explicação válida se a ‘tendência pré-crise’ fosse um benchmark aceitável, o que me parece discutível – afinal de contas, boa parte dos mercados para onde Portugal exporta ‘encolheram’ nessa altura, o que justificaria uma diminuição das vendas. A evolução da quota de mercado nacional sugere que houve de facto alguma coisa de especial a acontecer de 2010 em diante.

 

 P.S.– Sabemos que temos um blogue há demasiado tempo quando descobrimos que há coisas importantes enterradas nos artigos que desapareceram completamente da memória. Pois bem, aqui vai uma: não é só o FMI que analisou ex-post o sucesso dos programas de ajustamento. O Bruegel fez um exercício semelhante.

 

 

 

 

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