O jeito que dá ter os cofres cheios

Parece que Portugal tem uma almofada financeira para enfrentar o Brexit, segundo revelou o ministro das Finanças numa entrevista à TSF. Não há grande novidade na ‘revelação’ de Mário Centeno, mas ainda assim saúda-se a mudança de opinião quanto à importância de ter “os cofres cheios”. Parece que nestas coisas não há nada como passar da bancada da Oposição para o leme do navio.

Dito isto, vale a pena acrescentar dois comentários, um em jeito de alerta e o outro de lamento.

O primeiro é que a ideia de que os cofres estão “cheios” depende muito do termo de comparação. Neste momento há cerca de 8 mil milhões de euros em depósitos e/ou outras aplicações, mas há dois anos o valor era praticamente o dobro.

Eu sei, eu sei: Portugal já garantiu acesso estável aos mercados, e uma almofada que em 2013 era essencial pode, hoje em dia, ser parcialmente dispensável. De qualquer forma, e tendo em conta o número e dimensão dos ricos que por aí andam, convém ter cuidado com o que se faz à reserva que (ainda) resta. Os números de baixo são da UTAO.

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O segundo é que, apesar de ser reconfortante termos esta almofada, melhor ainda seria termos feito alguma coisa nos últimos meses para que estivéssemos menos – e não mais – dependentes destes expedientes para escapar aos humores dos mercados.

Peguemos no exemplo do Brexit. Por que deveríamos estar preocupados com o impacto financeiro da saída do Reino Unido? Claro, há instabilidade, risco acrescido, incerteza e por aí fora. Mas isso não significa necessariamente uma saída de capitais de dívida pública portuguesa. Na verdade, no seguinte ao referendo britânico vários países viram as respectivas yields baixarem.

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Estas variações estão longe de ser aleatórias. Países mais seguros funcionam como activos de refúgio: no caso da Alemanha, as yields recuam 0.15 p.p. Nos países periféricos, onde há ideia de que os riscos estão inquinados para baixo, as variações foram no sentido contrário. A Irlanda está ali no meio, para mostrar que praticamente conseguiu fugir à maldição da periferia – e Portugal, enfim, é o que é. Os efeitos diferenciados resultam de percepções diferentes relativamente à resiliência relativa de cada país a choques externos, que por sua vez depende da imagem que cada país consegue projectar para o exterior.

E esta é a parte complicada. É verdade que o Governo lá vai tentando atingir ali um sweet spot que permita simultaneamente manter o apoio do Bloco e PCP e passar a mão pelo pêlo dos investidores, mas não é fácil fazer a quadratura do círculo. Ao mesmo tempo que o IGCP faz apresentações a enaltecer a flexibilização do mercado laboral português e a redução dos custos laborais, o Governo reduz o horário laboral da função pública, aparece na TV a anunciar o virar de página e diz que aquela coisa do modelo de salários baixos é chão que já deu uvas. Os investidores estrangeiros não são conhecidos pela atenção com que seguem a politiquice nacional, mas neste caso a esquizofrenia é demasiado óbvia (Sugestão de leitura: Credibilidade, Credibilidade, Credibilidade).  

Se alargarmos a análise para um período mais longo esta tendência torna-se mais saliente. O spread face à Alemanha subiu ligeiramente no segundo trimestre de 2015, mas a evolução não parece ter sido muito diferente do resto da periferia. É só a partir do início de 2016 que Portugal descola do resto – e certamente não por acaso, na altura da discussão Orçamento do Estado com Bruxelas, quando se deu o recambolesco caso das medidas extraordinárias.

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São valores assustadores? Não, não são. Põem em causa a sustentabilidade da dívida? Não, também não. Mas são valores que custam dinheiro, dinheiro esse que podia ser utilizado em fins mais úteis do que pagar prémios de risco a investidores estrangeiros. Para materializar essas poupanças bastaria ter mais algum cuidado na forma como se lida com os mercados e nas mensagens que se passa.

E é notável a forma como tanta gente com hipersensibilidade a certas despesas consegue ignorar olimpicamente coisas destas. Mesmo uma pequena subida do spread exigido a Portugal, por se aplicar a um enorme stock de dívida, significa uma pipa de massa. Por exemplo, se tomarmos como valor de referência o spread adicional que se formou no início de 2016, e assumirmos que ele se mantém ao longo dos próximos anos, o impacto nas contas é o seguinte (Nota: necessidades de financiamento brutas retiradas do IGCP).

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No próximo ano, o impacto será já de 100-200 milhões de euros, conforme o peso das obrigações a 10 anos no refinanciamento da dívida. A partir daí é sempre a crescer. Por que é que ninguém fala disto? Se calhar é preciso expressar os números em IVA’s da restauração ou vencimentos da função pública para o grande público começar a ter ideia do que está em causa.

Ler mais: O Efeito BCE | Credibilidade, credibilidade, credibilidade | Vem aí um segundo resgate? | Não é a direcção, é o ritmo | A importância dos cofres cheios

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