A recuperação mais lenta de sempre?

Será esta a recuperação económica mais lenta de sempre? No seu último Boletim Económico, o Banco de Portugal actualiza um exercício que tem vindo a fazer ao longo dos últimos anos – comparar o perfil do Produto depois de este ‘bater no fundo’ – e a resposta parece ser… sim.

Segundo as contas do Bdp, de todas as recessões por que já passámos após o 25 de Abril, a última foi a mais traumática. «Dois anos após o início da recuperação atual, o PIB real cresceu 2,4% em termos acumulados, o que se assemelha à recuperação de 2003 (2,6%) mas contrasta com as recuperações iniciadas em 1993 e 1984 (3,8 e 11,2 por cento, respetivamente)», lê-se no relatório.

1g

Esta análise de ‘peak and through’ é muito comum, mas no caso de Portugal tem alguns problemas – pelo menos, se a ideia for tomar o pulso ao vigor das recuperações.

Em primeiro lugar, a métrica não leva em conta a dimensão da recessão. À partida, é expectável que uma contracção mais severa da actividade implique uma retoma mais robusta. Por exemplo, durante 2011 tornou-se comum chamar a atenção para a retoma fulgurante Letónia, um pouco à semelhança do que acontece por estes dias com a Irlanda. Mas se levarmos em conta a dimensão da recessão por que cada uma passou, as taxas de crescimento deixam de parecer tão espantosas quanto isso. Dizer que a recuperação X foi mais robusta do que Y só porque o crescimento económico foi mais alto, sem levar em conta o diferencial de crescimento anterior, é enganador.

Em segundo lugar, é possível – e na verdade provável (ou, no caso de Portugal, praticamente inevitável) que as taxas de crescimento ‘normais’ de cada período sejam completamente diferentes. Isto é: nos anos 70 Portugal era um país consideravelmente menos desenvolvido, pelo que era mais fácil crescer a taxas relativamente altas sem ser necessário qualquer milagre económico. Mas à medida que o país cresceu e se aproximou da fronteira, expansões robustas tornaram-se mais raras.

Por essa razão, não é surpreendente que o perfil do PIB na recuperação de 2013 seja mais modesto do que em 1984: é exactamente isso que seria de esperar. Se amanhã a China crescer 3% os EUA crescerem 2% é pouco provável que alguém diga que a crise chinesa é pior do que a americana. A comparação legítima não é entre 3 e 2%, mas entre estes valores e as taxas de crescimento potencial habituais de cada economia (que no caso devem andar respectivamente entre os 5 e 7% e os 2 e 3%).

A maneira mais simples de contornar este problema é calcular um contrafactual: qual seria o PIB que se teria verificado na ausência de recessão? E depois compara-se o realizado com o esperado. O ideal é usar previsões feitas antes de a recessão ganhar forma no horizonte, mas se esses dados não estiverem disponíveis uma projecção linear com os dados do último ciclo económico também serve. Uma comparação deste género é muito mais informativa – e, normalmente, altera de forma radical a ideia que temos das coisas.

Vamos usar este método para comparar as recuperações1. A imagem de baixo mostra o perfil do PIB ao longo das últimas três recessões. As linhas tracejadas fazem uma projecção linear do crescimento médio dos últimos sete anos – o tal contrafactual contra o qual queremos comparar o comportamento da economia. O ano da recessão está indexado a 100 (rectângulo negro).

Graph 1

A imagem é um pouco confusa, mas assim de relance já dá para retirar algumas ideias. A primeira é que em nenhuma das recessões o PIB voltou a encarrilar – ao contrário do que historicamente aconteceu com os EUA, por exemplo. Depois de contrair, o PIB já não converge com a tendência pré-crise – aquilo que se chama de histerese ou super-histerese. A segunda é que a última recuperação deixa de parecer tão afastada da média como no primeiro gráfico.

E porque isso não está claro no gráfico, vou fazer uma pequena transformação. No quadro de baixo calculo os desvios do PIB face à tendência calculada para cada recessão, e expresso-os em percentagem do caminho calculado. No caso de 2003 há um pequeno problema que não permite levar o exercício muito longe; fora isso, os resultados são estes.

Graph 2.png

Vistas as coisas deste prisma, as recuperações parecem todas bastante parecidas. As diferenças que ‘notamos’ hoje a olho nu resultam sobretudo do facto de não se levar em conta as diferentes taxas de crescimento ‘habituais’ em cada período – e, em menor grau, da própria dimensão das recessões.

Isto não é bem o que eu estava à espera de encontrar – na verdade, a minha ideia original, quando comecei a fazer os cálculos, é que a recuperação actual acabaria por parecer ainda pior do que o Banco de Portugal diz. Mas como já tinha as contas feitas, e não queria deitar fora o trabalho…

1 Um pormenor importante. Nas minhas contas considerei que a recessão recente começou em 2009 e se prolongou ao longo dos quatro anos seguintes, com uma leve interrupção em 2010. Por uma série de razões que não vale a pena esmiuçar aqui, a alternativa – começar a datação em 2011 – seria pior.
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5 comments on “A recuperação mais lenta de sempre?

  1. José Coimbra diz:

    Não era a isto que o Prof. Ernâni Lopes chamava “resiliência” da economia portuguesa?

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  2. Joao diz:

    Nao sei se extrapolar o crescimento potencial a partir dos 7 anos anteriores faz muito sentido. Portugal ja vinha de uma decada perdida em termos de crescimento, em que se atrasou em relacao ao resto da Europa. Por um simples argumento de convergencia seria de esperar que o crescimento posterior fosse mais forte. Acho que o desemprego e a emigracao sao sinais mais fortes do atraso na recuperacao. E esses mostram que esta crise tem sido muito pior que as crises passadas.

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    • Eu percebo a crítica, mas acho que convém separar as questões.

      A distância à fronteira era muito grande em 2000, e só isso tornaria “expectável” que o país crescesse 3 ou 3,5% ao ano, pelo menos até se aproximar mais das economias desenvolvidas. Ok, isso é pacífico. O facto de não ter havido convergência durante uma década anos também me parece excluir explicações cíclicas ou macroeconómicas – há claramente bloqueios estruturais a pesar sobre a economia. Isto também me parece pacífico.

      Mas, sejam quais forem esses bloqueios, eles existem e limitam a taxa de crescimento potencial da economia. Para todos os efeitos os tais 1,5% ao ano são de facto o ‘benchmark’ contra o qual a recuperação deve ser avaliada. (Isto, claro, se por “recuperação” entendermos a “capacidade da economia reagir a choques externos e voltar a encarrilar” – ou, posto de outra forma, a capacidade de a economia se comportar como no caso clássico em que a procura tem efeitos de curto prazo mas neutros no longo prazo, quando os preços se ajustam).

      O meu problema com ‘isto’ nem é tanto a assumption dos 7 anos, mas mais o facto de estar a misturar recessões tão diferentes. No caso da recessão de 2009, parece-me óbvio que 2009 e 2011-2013 tiveram razões diferentes, e deviam ser isolados. Mas não é muito óbvio como é que isso devia ser feito.

      (Por acaso também fiz o mesmo cálculo com a taxa de desemprego, que dá o seguinte resultado. No eixo dos yy aparecem o desvio da taxa de desemprego face ao nível do ano anterior à recessão. A recessão de 2009 foi muito mais severa, mas a recuperação posterior não parece assim tão desfasada:

      https://scontent.flis2-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/13501777_1224029274316260_8224132940219173955_n.jpg?oh=0e056a35ea6433a2373ba8f3fdb9ee21&oe=57DAD882

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      • Joao diz:

        Obrigado, o grafico do desemprego e muito interessante. Acho que um factor adicional importante e que o desemprego partiu ja de um nivel muito alto no inicio desta crise, seja por questoes estruturais ou nao, e isso torna a crise muito mais violenta, apesar de a recuperacao face a esse nivel inicial nao ter sido tao mais lenta assim. O facto e que a que a taxa natural de desemprego em Portugal, a prazo, nao devera ser a imediatamente anterior a esta crise. Parece-me legitimo esperar que voltemos aos valores historicos a volta de 5%. E face a essa taxa natural ainda ha muito a recuperar.

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