Acima da produtividade

De vez em quando lê-se por aí que os salários cresceram, ou vão crescer, acima da produtividade. E na maior parte das vezes não há problema em escrever isto, porque o contexto é suficientemente específico para que possamos ter a certeza de que os potenciais leitores sabem exactamente o que é que está – ou não está – em causa. O problema é quando a coisa sai dos relatórios sem o devido contexto e acaba a contaminar a discussão pública de uma forma pouco rigorosa. E é por isso que a UTAO, que bem percebe destas coisas, devia evitar frases como esta:

Neste cenário [PEC 2016-2020], a produtividade do trabalho deverá também aumentar, ainda que a um ritmo inferior ao das remunerações do total da economia.

Este é um tema antigo, e já escrevi tantas vezes sobre ele que por esta altura talvez fosse mais simples e eficaz linkar alguma coisa antiga do que voltar à carga. Acontece que entretanto encontrei uma forma mais interessante e didáctica de explicar a ideia, e por isso talvez não seja perda de tempo acrescentar mais alguns caracteres.

A história dos “salários a crescer acima da produtividade” vem invariavelmente daqui: a base de dados da Comissão Europeia, que no seu separador 7.7 apresenta os Custos Unitários do Trabalho (CUT). Os CUT comparam a evolução dos salários pagos a cada trabalhador (remuneração/trabalhador) com a produtividade média da economia (PIB/emprego). Indexando a 100 para um ano base, que no caso é 2010, obtém-se isto.

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A leitura habitual da imagem é: de 1999 A 2009 (área vermelha) os salários cresceram acima da produtividade, em resultado de um boom de crédito provocado pelo euro; quando a bolha não podia encher mais, rebentou – e lá vieram os salários por aí abaixo, cancelando os desvios anteriores. Apesar de já se ter corrigido alguma coisa, ainda falta percorrer um grande caminho.

Mas com um pouco mais de perspectiva as coisas ficam um pouco diferentes.

2.pngVisto daqui, os últimos 15 anos não parecem nada de especial. Parece que os salários têm crescido acima da produtividade praticamente desde… enfim, desde sempre. Como é que ainda há alguém a conseguir ter lucros neste ambiente de intensa pressão laboral? E como é que as exportadoras concorrem com outros países?

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O gráfico anterior mostrou a subida secular dos CUT desde os anos 70 até 2010. Este gráfico mostra que a tendência está longe de se circunscrever a Portugal. Pelo contrário, os CUT parecem subir incessantemente em todas as economias para as quais há dados. Há aqui qualquer coisa estranha a passar-se.

A explicação é muito simples. Os CUT comparam as remunerações efectivamente pagas com a produtividade deflacionada – isto é, comparam uma realidade nominal com uma grandeza real. Basta que haja subida de preços, e que os salários acompanhem essa subida, para que os CUT aumentem imediatamente, mesmo que não haja qualquer alteração na forma como o dinheiro das vendas se reparte entre os lucros do factor capital e os salários do factor trabalho.

Um exemplo concreto. Imagine-se que uma empresa fixa com os trabalhadores uma ‘regra salarial’ em que eles recebem metade daquilo que conseguirem produzir – por definição, os salários acompanham a produtividade. O que acontece agora se a produtividade se mantiver mas os preços das vendas aumentarem? É verdade que a produtividade não cresceu, mas as vendas valem agora mais, e segundo a regra enunciada é expectável que os trabalhadores também ganhem mais – pelo simples facto de ao mesmo produto corresponder agora um rendimento maior. Mas como no cálculo dos CUT se compara os salários nominais com a produtividade real, os CUT vão na realidade agravar-se.

E com isto podemos enunciar uma regra geral. Num contexto de inflação positiva, os CUT aumentam sempre – a não ser, claro, que as subidas de preços não se repercutam nos salários, o que os levaria a ficar cada vez mais pequenos como percentagem do Valor Acrescentado da empresa. Apesar de parecer estranho, é mais ou menos assim que a fórmula funciona: se os preços subirem, como normalmente sobem, manter os CUT estáveis implica que o peso dos salários no PIB caminhe para zero.

Agora, isto não significa que este indicador seja inútil. Ele é útil – mas é útil para outras coisas que não têm nada a ver com a discussão em torno da divisão do Produto entre trabalhadores e patrões.

Porque se o objectivo é esse, então não seria mal pensado começarmos todos a olhar para os CUT reais, que fazem parte da mesmíssima base de dados da Comissão Europeia e que têm a feliz propriedade de levar em conta o efeito preço tanto no denominador como no numerador.

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5 comments on “Acima da produtividade

  1. fajovi diz:

    Quando se define uma remuneração por decreto legislativo (SMN) há o risco de o mesmo ser muito acima da produtividade. É uma questão política o aumento do SMN e isso cria discrepâncias numa economia já de si muito frágil e incapaz de apresentar crescimentos consistentes. Por isso, há o sério risco de a remuneração subir acima da produtividade ou até abaixo. Isto tem que ser a Economia a definir.

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  2. J diz:

    Desde sempre oiço estas parangonas a nos atirarem que Portugal tem uma produtividade miserável. E outras que dizem que os portugueses são, de entre a força laboral de países como França, Suiça, Luxemburgo, dos mais produtivos (e baratos)…
    Mas no cálculo dos CUT há algo que não entendo. Sendo os CUT calculados pela relação entre os salários pagos (remuneração/trabalhador) e a produtividade média da economia (PIB/emprego), e se tanto o PIB como os salários já incorporam a inflação, então o resultado não será um CUT real?

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    • J, os CUT não são a relação entre os salários e a produtividade. Eles dão apenas uma medida da VARIAÇÃO entre esses dois indicadores. Isto é, dizem-nos em que medida é que um está a crescer em relação ao outro. E esse crescimento é contabilizado utilizando uma variável nominal – salários – contra uma variável real – produtividade. Ao contrário do que o seu comentário dá a entender, os CUT não assumem o crescimento da produtividade nominal.

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  3. Diogo diz:

    Então usando os CUT reais é que conseguimos perceber se os salários estão a aumentar acima da produtividade? Se o valor estiver a cair, a produtividade está a aumentar mais, se estiver a subir, os salários estão a subir mais. É isto?

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