Aprender com os erros

O que é que é preciso acontecer para convencer alguém a mudar de opinião? Este foi o tema de um Seminário acerca das narrativas da crise, em Coimbra Lisboa. E é uma óptima discussão. Nos últimos anos não faltaram previsões para a evolução da economia global e da Zona Euro. Salvo honrosas excepções, saíram quase todas ao lado – e, nalguns casos, flagrantemente ao lado.

Quando as expectativas são frustradas de uma forma tão gritante, o mínimo que se exige a quem trabalha no ramo é que seja capaz de olhar para trás e, à luz dos acontecimentos recentes, reavaliar as ideias em que acreditava e mudar os modelos a que recorre. Se depois de sete anos continuam a acreditar na mesma coisa, das duas uma: ou acertaram em tudo, o que é improvável, ou não aprenderam nada, o que é deplorável. No meu caso, isto foi o que eu aprendi:

1. A política orçamental importa muito (pelo menos nas actuais circunstâncias)

Até 2011 vi os programas de consolidação como a maioria dos economistas: uma dor leve e passageira. Em 2016, é impossível ter a mesma opinião. Hoje sabemos – com tanta certeza quanto é possível ter nestas coisas – que os programas de austeridade tiveram um efeito brutal na actividade.

O que me fez mudar de ideias? Sem dúvida, o trabalho pioneiro de Blanchard e Daniel Leigh, que constaram em 2012 que os erros de previsão do PIB estavam correlacionados com o grau de ajustamento. É o tipo de descoberta que é muito difícil de descartar como mera correlação e sem invocar multiplicadores. E apesar de hoje isto parecer óbvio, em 2012 esta conclusão gerou uma violentíssima reacção por parte de organismos como a Comissão Europeia ou o BCE. Actualmente, com dezenas e dezenas de papers e simulações a confirmar os resultados de Blanchard, só alguém extraordinariamente bem treinado na arte do auto-engano pode continuar a fechar os olhos à evidência.

Mas até que ponto devia a classe ter sabido disto de antemão? A verdade é que a macroeconomia standard já sugere que a política orçamental tem efeitos mais violentos quando o banco central atinge o zero lower bound, num regime de câmbios fixos e durante períodos de crise financeira – ou seja, precisamente as condições que se verificavam em 2011.  Parece legítimo dizer que o erro podia ter sido antecipado. Por outro lado, esta previsão advinha sobretudo de modelos teóricos (como o IS-LM ou Mundell-Fleming), e não da evidência empírica disponível à altura. Por isso, apesar de o erro ser criticável, são aqueles que acusam a economia de ser uma ciência demasiado etérea, assente em ‘modelos abstractos’ em detrimento de factos, quem menos razões tem para se indignar e dizer ‘eu avisei’.

2. A armadilha de liquidez é diferente

Os bancos centrais dos países desenvolvidos já fizeram de tudo um pouco. Cortaram as taxas de juro para zero (ou lá perto), embarcaram em programas de compra de activos, comprometeram-se com novas regras para decidir as taxas de juro, etc. De cada vez que viravam a esquina esbarravam com alertas de hiperinflação (“é Weimar na Zona Euro!”) e o prenúncio de um disparar de juros, a la anos 70. Os críticos (e um deles era eu, no recanto do meu desktop) não se cansavam  de acenar com a velhinha equação das trocas: quando a massa monetária aumenta, os preços sobem na mesma proporção.

Claro que nem os juros subiram (ok… alguns subiram; mas vejam o ponto seguinte) nem a inflação se tornou um problema. Aparentemente, a Armadilha de Liquidez coloca-nos mesmo num mundo diferente, onde a política monetária perde tracção à economia e as relações habituais colapsam. E a experiência do Japão já nos devia ter ensinado isso. (Bom, e um olhar mais empírico e menos dogmático ao passado da própria economica europeia e americano também teria dado uma ajuda. A verdade é que a relação entre preços e inflação nunca foi estável ou linear).

3. A economia não converge para o longo prazo. Há choques que persistem.

Este ponto é um pouco mais técnico, mas é fácil de explicar. Uma das ideias mais enraizadas na macroeconomia actual, e que acaba por fazer parte do core dos modelos modernos, é que as economias convergem para a sua tendência de longo prazo. Há recessões severas e períodos de expansão forçada – mas, no final, o PIB acaba sempre por ir aos eixos. O caso dos EUA, que passaram por uma Grande Depressão e logo depois por uma Guerra Mundial, é um bom exemplo.

G3

Desta vez não foi assim. A maior parte das economias não recuperou o terreno perdido sete anos após a crise estalar, e ninguém espera que o faça nos próximos cinco. As diferenças entre o PIB tendencial e o PIB efectivo rondam os 10% na maioria da OCDE. E isto vê-se até nos casos que à primeira vista (mas apenas à primeira vista) parecem histórias de sucesso, como a Irlanda. Em baixo, o conjunto da Zona Euro e o paciente em pior estado.

G2

A novidade é que isto, pelos vistos, não é novidade. A ideia de histerese renasceu. Estamos agora a perceber que a história económica está afinal pejada de casos destes (ver Two Explorations and their monetary policy implications), e redescobrimos alguns papers de autores famosos, perdidos nos anos 80 e 90, que parecem ser mais importantes do que se pensava (Olivier Blanchard, Larry Summers e Laurence Ball). Apesar de só agora estarmos a perceber as implicações desta ideia (Fiscal Policy in a Depresses Economy, Long term damage of the Great Recession, Putting the budget on a sound footing), parece óbvio que a tradicional divisão curto/longo prazo é muito mais complexa do que se pensava.

4. Profecias auto-cumpridas podem acontecer (e doem a valer)

Uma profecia auto-cumprida acontece quando uma crença põe em marcha processos que acabarão por garantir a sua própria materialização. Por exemplo, receios infundados de um default soberano fazem os investidores evitar empréstimos ao país em questão, levando a uma subida dos juros. Esta subida dos juros, por sua vez, agrava a sustentabilidade da dívida, o que reforça a percepção inicial. Até 2011, poucos (incluindo eu) acreditavam que este mecanismo podia levar a crises de liquidez em economias desenvolvidas. E por partirmos deste princípio vimos na subida de juros de 2011 em diante um sinal e uma confirmação de que os países periféricos se debatiam com problemas de solvência.

Mas alguma coisa não batia certo. Em primeiro lugar, desde o início que era difícil encontrar uma ligação empírica entre fundamentais e juros. Quem fazia regressões em painel e olhava pelos números como deve ser, pelo menos, chegava consistentemente a essa conclusão. As análises longitudinais também eram inquietantes. Apesar de os periféricos reforçarem cada vez mais os seus pacotes de austeridade, os mercados não davam trégua. Parecia haver um claro elemento de receio auto sustentado, que se sobrepunha aos esforços orçamentais dos Governos.

Comecei a levar a sério esta ideia no início de 2013, e hoje é praticamente consensual (ver aqui e aqui) que este mecanismo teve um papel enorme na propagação da crise da Zona Euro (embora com uma série de qualificações de peso). Mas o meu wake up call foi o gráfico de baixo, de Paul Krugman, que mostra a relação entre dívida pública e juros exigidos. Sim, os fundamentais interessavam – mas, por alguma razão, só interessavam para os países do euro, que não dispunham de um banco central capaz de intervir nos mercados e travar ciclos de más expectativas.

as

5. Os mercados são muitas vezes esquizofrénicos

A certa altura tornou-se habitual a imprensa explicar “o que os mercados queriam”. asubida das yields era acompanhada de uma detalhada explicação dos factos que justificavam a oscilação – o fracasso do crescimento, a surpresa do défice externo, a falta de consolidação orçamental. E a cada espirro nos mercados seguia-se inevitavelmente uma nova justificação, em que os oráculos da nossa vida financeira nos explicavam por a mais b o que é que gerava tanto celeuma.

A dolorosa verdade é que andámos anos e anos a racionalizar a posteriori aquilo que eram simples acções impulsivas. Não, os mercados não fazem decisões de investimento com base em modelos complexos que pesam devidamente o risco de uma imensidão de factores e chegam a um resultado bonitinho no final. Na maior parte dos casos guiam-se pelo mesmo gut feeling a que todos recorremos quando formamos uma carteira de investimentos. E não raras vezes demonstram, para citar um importante comentador da nossa praça, uma ignorância verdadeiramente enciclopédica da economia nacional. São tão susceptíveis a enviesamentos cognitivos, faltas de informação e cegueira temporária como qualquer um de nós – com a agravante de estarem longe do país, o que reforça a importância das headlines que vêem na imprensa internacional

A principal implicação disto não é, obviamente, que devemos ignorar os mercados – para todos os efeitos, vivemos numa economia mista, temos défices e dependemos destes credores. O que aprendemos a custo nos últimos anos é que há formas mais razoáveis e eficientes de ganhar a sua confiança do que levar a sério o que deles se escreve nos jornais da especialidade. Sobre isto, leiam os últimos dois pontos de Olivier Blanchard.

Estas foram as minhas lições. Quais foram as vossas?

 

Anúncios

9 comments on “Aprender com os erros

  1. No meu caso, o erro se calhar foi de sinal contrário à de grande parte dos analistas – demasiado catastrofista, quando afinal a economia começou mesmo assim a recuperar, com o aumento das exportações, sem ser preciso a tal deflação brutal

    http://viasfacto.blogspot.pt/2010/09/porque-portugal-esta-condenado-ao.html

    Suponho que a conclusão seja que a elasticidade procura-preço das exportações era maior da que eu pensava; ou talvez também que as exportações dependem não apenas dos nivel de preços, mas eventualmente também de uma decisão deliberada dos empresários no sentido de exportar mais (estilo “isto em Portugal está mau, vamos lá frequentar feiras internacionais para ver se arranjamos clientes no estrangeiro”), o pode levar a um aumento das exportações mesmo sem baixa de preços.

    Gostar

    • Miguel, a não ser que tenha previsto uma recessão eterna, não vejo por que é que se deve sentir refutado. O PIB português caiu mesmo muito mais do que se esperava, e apesar de a recuperação não ter acontecido com a deflação como pano de fundo, só se materializou depois de uma descida considerável dos custos unitários do trabalho (o que pode ter o mesmo efeito que um ganho de competitividade por via preço).6

      Gostar

      • Mas a descida dos cuts, por si só, não terá o efeito (que a deflação pode ter) de fazer subir o valor real da dívida (pelo mecanismo de reduzir o denominador no rácio (valor nominal da dívida / preços)

        Gostar

  2. leo diz:

    Bem as minhas licoes…

    Em primeiro lugar, foi uma excelente ideia ter posto este blog nos meus favoritos =)

    Em segundo, foi que a obstinacao dos politicos, face a toda a evidencia, e em si uma ameaca economica cataclismica

    Em terceiro, que se assumirmos que as reacoes dos mercados sao movidos por espiritos verdadeiramente animalescos (Urso, touro, Veado assustado e doninha fedorenta), entao a ciencia economica afasta-se das matematicas, e aproxima-se mais da psicologia e do marketing.

    Gostar

  3. jvgama diz:

    «Em primeiro lugar, foi uma excelente ideia ter posto este blog nos meus favoritos =)»

    idem 🙂

    A segunda ideia for ter posto do «Vento Sueste», ehehe

    Mais a mais, de acordo com os autores, falharam em sentidos opostos nas previsões e a verdade esteve algures lá no meio (mais “catastrófica” do que o Pedro Romano assumia, menos “catastrófica” do que o Miguel Madeira imaginava, pelo menos no que diz respeito à dimensão “irrecuperável” da crise), pelo que em conjunto as minhas leituras económicas na blogosfera nacional estiveram bem perto, ehehehe.

    Brincadeiras à parte, as minhas principais lições de economia nestes últimos anos apesar de tudo foram as que tive nas salas de aulas. Entre ser um curioso que “leu umas coisas” e ter uma noção relativamente sistematizada daquilo que é o conhecimento generalizado nesta área vai uma diferença que é ainda maior do que imaginava.
    Também tive a sorte de muitos dos meus professores terem noção de como os recentes acontecimentos estão a ter impacto na ciência económica e falarem sobre isso nas aulas, e ter tido acesso a uma pluralidade de perspectivas diferentes (pós-keynesianos, novos-keynesianos, novos-clássicos, etc.) cada uma com as suas interpretações do que se tem passado.

    Gostar

  4. Joao diz:

    Pontos 1 e 2 sem duvida, sao grandes triunfos da velha tradicao keynesiana e dos modelos economicos simples (IS-LM).
    Pontos 3 e 4 sao sobretudo problemas do euro, nao generalizaria. O desemprego continua altissimo na zona euro, com o lento ajustamento de precos internos, mas nos EUA ja recuperou. As profecias auto-cumpridas sao resultado da passividade do BCE (parcialmente corrigida a partir do whatever it takes)
    Ponto 5 parece-me mais controverso.

    Acrescentaria a estas uma licao sobre unioes monetarias. Ficou claro que o desenho do euro tem muitas lacunas. Que nao e boa ideia ter uma uniao monetaria sem uniao bancaria, sem um lender of last resort, sem forte coordenacao das politicas orcamentais e, diria eu, sem transferencias significativas entre estados membros.

    Gostar

  5. Lucas Galuxo diz:

    Os profetas cientistas monetaristas erraram em 2008, nos EUA, e erraram em 2011, na Europa. Felizmente, na primeira, ficaram na bancada, aos gritos. E, na segunda, o estrago só não foi maior porque não estiveram muito tempo em campo.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s