O Banif foi alvo de uma medida de resolução, com perdas enormes que estão ainda por quantificar. Aconteceu o mesmo com o BES em 2014, e aconteceu novamente esta semana. No resto do sector bancário não houve mais medidas de resolução, mas houve problemas da mesma natureza – imparidades – que levaram a consequências semelhantes: insuficiências de capital e destruição de património dos accionistas e credores. De onde veio este buraco enorme, que o Expresso colocou nos 40 mil milhões de euros?
Se o leitor viver no mesmo país que eu, tem a resposta na ponta da língua: foi a “bolha do imobiliário”, o “conluio entre sector financeiro e construção civil”, o “modelo de desenvolvimento baseado no betão”, as “expectativas irrealistas em relação ao preço das casas” ou alguma outra declinação qualquer deste argumento. Afinal de contas, é isto que toda a gente diz, e se toda a gente diz então deve ser verdade.
Mas este argumento tem um problema: não tem nenhum fundamento nos dados disponíveis. E o itálico aqui não é usado à toa. Tem o propósito consciente e intencional de reforçar o grau de divergência entre aquilo que o argumento enuncia e aquilo que os números reportam.
Vejamos, por exemplo, a evolução do Valor Acrescentado Bruto (VAB) da Construção ao longo das últimas duas décadas. A imagem mostra a produção a preços constantes comparada com a produção total (PIB) e o peso de uma na outra, calculado em termos nominais. Vêem a “política do betão”? Eu também não. A construção está a perder terreno face ao PIB – que já de si não é famoso… – há 15 (quinze!) anos.
Vejamos o emprego na construção. Novamente, não há nenhum sinal de qualquer coisa remotamente parecida com um boom – a não ser que vejamos um boom naquilo que aconteceu em… 1996/1999. Coloco também os valores para a Irlanda e Espanha, para mostrar como é que as coisas se passam quando o sector imobiliário se expande – na realidade, e não na nossa imaginação.
Ah, mas apesar de o peso relativo e absoluto da construção não estar a aumentar, o preço do stock de casas estava a subir imenso, de forma insustentável, o que implicaria, mais cedo ou mais tarde, uma forte correcção. Certo?
Nenhuma pessoa que aborde os números sem preconceitos é capaz de ver aqui tendências insustentáveis ou uma bolha prestes a estourar; na verdade, uma análise simples “a olhómetro” até sugere precisamente o contrário: que o mercado de habitação está uma desgraça há exactamente 15 anos. Como é que continuamos todos – enfim, quase todos… – a culpar um arguido invisível?
Só consigo pensar em duas explicações. A primeira é simples – e, assumo, potencialmente constrangedora. A Europa da periferia – sobretudo a Irlanda e Espanha – teve mesmo bolhas imobiliárias. Como Portugal passou por problemas semelhantes ao resto da periferia nos últimos anos, a imprensa internacional presumiu que a causa fosse a mesma e sempre que falava em real estate boom o nome de Portugal seguia junto. A coisa foi sendo falada no estrangeiro e, como era discutida lá fora, pouco a pouco ganhou raízes cá dentro (e não se riam: o don’t even bother looking at data é muito mais comum do que se pensa).
A segunda é mais compreensível. Os números do emprego mostram que a destruição de postos de trabalho na construção foi assombrosa, e muito superior à média. Quando se fala em activos problemáticos as notícias mencionam sempre créditos à habitação incobráveis, imóveis desvalorizados, etc. O senso comum sugere que há alguma coisa de errado com a construção, e é natural – e um pouco inevitável, se quisermos apontar culpados – interpretar tudo isto como uma “correcção” de excessos passados.
Não tendo a pretensão de ser especialista no sector, gostaria de avançar uma explicação simples para este facto, que tem pelo menos uma vantagem relativamente à hipótese anterior: não exige ignorar todos os dados disponíveis acerca da construção.
Começo por um facto simples. O Investimento varia com o ciclo económico, mas muito mais do que o Produto. Cresce mais do que o PIB quando este aumenta, e cai mais quando ele contrai. Uso dados americanos da FED porque a sua base de dados assinala as recessões a cinzento, mas a conclusão seria a mesma se usasse dados nacionais:
E o que é que é este Investimento? São máquinas, produzidas pelo sector industrial. Mas também instalações fabris ou habitação pessoal, produzidas pelo sector da construção. Ou seja: quando o PIB cai, à partida, e tendo em conta a experiência passada, as vendas de maquinaria e a construção de instalações e habitação caem muito mais.
Portanto, sim, a minha explicação é mesmo tão simples como isto: o PIB em Portugal caiu muito, e dada a relação típica entre PIB e Investimento, era praticamente inevitável que o sector da construção fosse especialmente atingido. É o que acontece normalmente. A diferença, desta vez, é que a contracção da actividade foi muito maior do que o habitual.
Por que é que só a construção foi afectada? Por que é que o sector da maquinaria e bens de investimento escapou incólume? A resposta simples é: não passou. Nos primeiros anos, quando a crise económica foi global – 2008 e 2009 – a quebra da produção foi praticamente idêntica. A divergência só se dá de 2011 em diante, quando a procura externa começa a crescer e ‘arrasta’ as maquinarias. Infelizmente, ainda não é possível exportar construção.
Temos alguma confirmação desta hipótese? Na verdade, sim. Se olharmos para o emprego no resto da Europa e OCDE vemos exactamente o mesmo padrão: seja qual for a redução do emprego global, a redução do emprego no sector da construção é consideravelmente mais violenta. O gráfico de baixo relaciona das duas grandezas, com Portugal assinalado a vermelho.
Agora, eu não pretendo argumentar que: a) não houve subavaliação de risco; b) não houve fraudes; c) não houve falhas na regulação; d) não houve outra coisa qualquer que queiramos colocar no altar sacrificial. Só chamar a atenção para o facto de a dimensão da recessão, associada aos seus previsíveis impactos sectoriais, provavelmente chegar e bastar para explicar pelo menos uma boa parte das imparidades dos últimos anos. Sem ser necessário invocar bolhas imobiliárias ou outras histórias de encantar.