O programa de Governo do PS, a austeridade e a matemática do voodoo

O PS actualizou o seu cenário macroeconómico com as medidas negociadas no âmbito do acordo parlamentar PS/PCP/BE. Muita gente notou um facto estranho: apesar de haver mais medidas de estímulo económico do que antes– ou uma reversão mais rápida da austeridade, o que é mais ou menos a mesma coisa – o défice afinal até vai ser mais baixo do que se projectava há uns meses. Como se explica isto?

A primeira possibilidade é a menos palpitante. Segundo o grupo de economistas do PS, o cenário macro assenta sobre projecções da Comissão Europeia, às quais vão sendo posteriormente somadas (e simuladas) medidas orçamentais. Como a Comissão Europeia (CE) reviu recentemente as suas previsões, é perfeitamente possível que as novidades nas contas socialistas sejam apenas o reflexo da importação dos novos dados – défice, dívida, PIB nominal – da CE.

Mas as tabelas publicadas pelo PS no seu programa de Governo (ver última página) mostram que este ponto apenas uma explica uma parte da revisão. Isto é: se estou a ler bem essas tabelas, mesmo depois de se anular o “efeito revisão do cenário base” continuamos a chegar à conclusão de que o pacote negociado com PCP e BE melhora, em vez de agravar, o défice.

Restam por isso duas opções alternativas. Apesar de não ser possível saber ao certo qual delas é a resposta correcta, vale a pena discuti-las às duas porque qualquer uma tem implicações muito interessantes.

Hipótese nº 1As medidas não agravam o défice porque há medidas compensatórias que cancelam o seu impacto negativo

Não há muita ciência por detrás disto. Basicamente, o buraco não aumenta porque a terra que PCP e Bloco tiram de um lado (devolução mais rápida dos cortes salariais, actualização de pensões, etc.) o PS tapa do outro – por exemplo, restringindo a descida da TSU aos salários mais baixos, ou diminuindo a generosidade do imposto negativo. Chamemos-lhe a hipótese do merceeiro: dá-se mais um pouco aqui, tira-se o mesmo acolá mas no final fica tudo na mesma.

Pode ser isto? Bom, era preciso fazer contas. Mas daquilo que vi noticiado na imprensa não me saltou à vista nada tão oneroso ou orçamentalmente comprometedor que não possa ser acomodado através do cancelamento de outras medidas que eventualmente tenham ficado pelo caminho. Atenção, não estou a dizer que estas contas de merceeiro batem certo; apenas a afirmar que não é óbvio que não batam.

Mas, se for esta a explicação, então isso significa que o programa de Esquerda é, em termos macroeconómicos, mais contraccionista do que o programa inicial do PS. Porquê? Bom, é um pouco a lógica da batata: o impacto macroeconómico do Estado faz-se através da sua política orçamental; e, fazendo as contas entre  as novas medidas que estimulam a procura (mais défice) e novas medidas que retraem a procura (menos défice) o saldo final é negativo: o défice diminui. Portanto, o PS caminhou para a Esquerda e, ao fazê-lo… reforçou a austeridade?

Haverá certamente aí algures a dizer que isto não faz sentido. Mas é possível encontrar uma hipótese alternativa que não gere tanta dissonância cognitiva. E aqui chegamos à hipótese nº 2.

Hipótese nº 2As medidas não agravam o défice porque têm um impacto tão grande na economia que geram um aumento das receitas fiscais suficientes para se pagarem a si próprias (e, em bom rigor, até para darem um pequeno “lucro”)

Pedia alguma atenção para perceber bem um elemento importante. Na hipótese nº 1, as medidas orçamentais afectam o défice no sentido esperado – mais austeridade reduz o défice, menos austeridade agrava o défice. Por essa razão, se o novo programa aponta para um défice menor, podemos deduzir que a austeridade é mais violenta do que antes.

Na hipótese nº 2, esta lógica é invertida. As medidas de austeridade são tão contraprodutivas que acabam por agravar o défice orçamental, em vez de o melhorar. Na prática, a mecânica económica é virada do avesso. Se forem estas as águas em que Portugal navega, então é perfeitamente possível que as negociações PS/PCP/BE produzam simultaneamente menos austeridade e menos défice. Na verdade, é precisamente porque a austeridade é cancelada mais rápido que antes que o défice cai mais do que o esperado.

Agora que clarificámos a mecânica vamos fazer um exercício numérico para perceber por que é que esta hipótese não faz sentido. Considere-se a seguinte economia, com um PIB de 100€ e um défice de 10€ decomposto desta forma:

x1

Imagine-se agora que o Estado gasta mais 10€. O que acontece ao défice? A aritmética é simples: a despesa cresce 10€, totalizando 60€, e o défice cresce na mesma medida, atingindo os -20€ e os 20% do PIB.

x2

Mas calma: esquecemo-nos de levar em conta um efeito importante. É que o gasto adicional de 10€ estimula a economia, e esse efeito tem de ser incorporado na equação, caso contrário ficaremos sempre com uma imagem enviesada do custo real de um estímulo económico – ou, o que é a mesma coisa, do custo real de uma reversão da austeridade.

Para levar isto em conta não é preciso fazer contas complicadas. Começamos pelo estímulo: os 10€ adicionais aumentam a despesa nesse montante – esta é a parte fácil. Mas agora vamos considerar que algures por aqui podemos encontrar um multiplicador de 0.5, que faz com que estes 10€ se propaguem ao longo da economia e aumentem o PIB em 5€ (0.5×10). E agora temos de levar em conta que as receitas fiscais, que incidem sobre o PIB, também vão ser arrastadas por ele. Como o PIB aumentou 5% e a elasticidade das receitas fiscais ronda a unidade, concluímos facilmente que a receita cresce de 40 para 42€. A imagem de baixo esquematiza o raciocínio (a ordem das etapas está assinalada por números para ninguém se perder):

x3 - Cópia

Portanto, aquilo que inicialmente parecia um agravamento do défice de 10 pontos percentuais (p.p.) de PIB é, na verdade, e depois de levados os impactos económicos, uma degradação de “apenas” 7,1 p.p.

Vamos agora aumentar a dimensão deste efeito económico. Mais concretamente, vamos assumir que o efeito multiplicador passa de 0.5 para 1.0 – cada euro adicional de despesa aumenta o PIB em um euro. Refazendo as contas, obtemos algo deste género:

x4

Extraordinário. Começámos com um programa de estímulo de 10% do PIB que agravava o défice em… 10% do PIB. Considerando um multiplicador de 0.5, o agravamento do défice baixa para 7,1% do PIB. E se subirmos o multiplicador para 1.0 então o agravamento desce para 4,5% do PIB.

Bom, descobrimos uma mina. De certeza que haverá por aí algures, perdido na infinidade dos números reais positivos, algum multiplicador a partir do qual um estímulo melhore o défice, em vez de o agravar. Qual será?

Não é muito difícil lá chegar. Na verdade, podemos partir do caso português, em que as receitas fiscais representam 37% do PIB, para calcular o impacto orçamental efectivo de um estímulo económico para uma série de multiplicadores (aqui representados no eixo dos xx).

x5

O que é que nos diz o gráfico? Se o multiplicador for zero, um estímulo de 1% do PIB agrava o défice em 1% do PIB. Não é muito surpreendente. O que é mais surpreendente (pelo menos para quem tiver estado desatento) é que só com um multiplicador entre os 2.8 e os 3.0 é que um estímulo começa a desagravar o défice pelo efeito que tem na actividade económica.

Infelizmente, multiplicadores desta magnitude são absolutamente irrealistas. Habitualmente, o FMI usa valores na ordem dos 0.5 nos seus modelos – e mesmo depois da grande “guerra dos multiplicadores” o valor máximo que achou concebível num worst case scenario era de 1.7. Numa meta-análise com mais de 200 estudos conclui-se que é quase impossível encontrar multiplicadores perto 2.0. E o mesmo FMI, num trabalho de simulação recente, concluiu que no caso português valores acima da unidade já não pareciam muito prováveis.

Há alguma forma de escapar daqui? Bom, podemos tornar o modelo inicial mais rico, e considerar que o crescimento do PIB afecta não apenas as receitas fiscais mas também uma parte da despesa pública (por exemplo, baixando os gastos com subsídio de desemprego); podemos imaginar que o PIB interage com os preços e que mais crescimento estimule a inflação, erodindo o défice. Tudo isto tem como efeito baixar o multiplicador exigido para que um estímulo se pague a si mesmo.

Mas se mantivermos estes números dentro de valores minimamente plausíveis,as conclusões dos parágrafos anteriores continuam válidas. Ou seja: só com multiplicadores ridiculamente elevados é que é possível conciliar menos austeridade com um défice mais baixo. Se é algo deste género que explica a revisão em baixa do défice, então isto significa a conversão consumada do PS ao voodoo economics1.

Começámos com um facto aparentemente trivial, mas chegámos a conclusões surpreendentes: ou o programa da Esquerda reforça a austeridade, ao contrário do que se esperava; ou ele cavalga uma mecânica económica absurda. Com os dados disponíveis não é possível saber qual das hipóteses está correcta. Mas nenhuma delas é particularmente reconfortante.

1 Há uma diferença crucial entre o Voodoo Economics de Reagan e o voodoo economics português: ao passo que o de Reagan assumia efeitos supply side por parte de cortes de impostos, o português assume efeitos do lado da procura causados por medidas de expansão orçamental. Claro que estes efeitos existem, mas como vimos nada sugere que sejam fortes ao ponto de compensarem os seus impactos orçamentais.
Anúncios

19 comments on “O programa de Governo do PS, a austeridade e a matemática do voodoo

  1. jvgama diz:

    Consigo imaginar uma hipótese adicional intermédia: diferentes rúbricas podem corresponder a diferentes multiplicadores (nos EUA a diferença é gritante com multiplicadores que podem ser negativos nos gastos militares até muitíssimo elevados, já não me lembro se no consumo ou investimento público – lembro-me que valores intermédios eram obtidos em relação à diminuição da receita fiscal).
    Assim, mesmo que as medidas mais ou menos se compensem em termos agregados seria possível que o “efeito multiplicado” não compense (se diminuíram nas rúbricas com multiplicadores mais baixos e aumentaram nas que têm multiplicadores mais elevados).

    Tenho pena de não estar convencido que esta é a hipótese mais plausível, mas não deve ser posta de parte.

    Gostar

    • João, no draft do post tinha precisamente uma nota de rodapé a aventar essa possibilidade. A questão é que o reforço das medidas, pelo menos vistas as coisas assim cá de cima, é precisamente nas rubricas onde o efeito multiplicador, pelo menos a julgar pelos estudos conhecidos, é mais baixo. Ninguém está a propor aumentar o investimento público financiando esse aumento com uma subida do IVA, por exemplo.

      Gostar

      • jvgama diz:

        Pois, mas não sei se haverá algum silêncio em relação a subidas de IRC em determinados sectores (não transaccionáveis?, “rentistas”?), ou impostos sobre o património (fim das isenções do IMI dos fundos imobiliários dos bancos, etc..) ou outro tipo de receitas desse tipo que tenham possivelmente menor impacto na economia que, por exemplo, as subidas de salário dos pensionistas. Mas claro que isto é altamente especulativo. Ou seja, estou a tentar concretizar especulativamente a sugestão do Miguel Madeira ali mesmo abaixo.

        As hipóteses que colocaste são, infelizmente, mais plausíveis.

        O que não quer dizer que esta segunda versão não seja efectivamente melhor que a primeira para o país. Mesmo que não seja ao mesmo tempo ainda melhor para a economia e finanças públicas, pode ser melhor no geral.

        Gostar

  2. Pelo que percebo, a diferença entre os dois cenários é que no 2º cenário há mais despesa pública e ainda mais receita pública; se se considerar que o multiplicador de aumentos da despesa pública é maior que o multiplicador de diminuições de impostos (ou, dito de outra maneira, que o valor absoluto do multiplicador negativo de aumentos de impostos), isso é capaz de fazer sentido.

    Gostar

    • Miguel, para além da questão do meu comentário anterior (nas medidas detalhadas não me parece que haja esse cuidado de trocar medidas de baixo impacto por medidas de grande impacto), não vejo sequer, nas tabelas do PS, sinal de mais despesa e menos receita. Ou melhor, isso acontece nalguns anos e já não acontece noutros.

      Gostar

  3. carlos diz:

    “As medidas não agravam o défice porque há medidas compensatórias que cancelam o seu impacto negativo. Portanto, o PS caminhou para a Esquerda e, ao fazê-lo… reforçou a austeridade?”
    “Haverá certamente aí algures a dizer que isto não faz sentido. Mas é possível encontrar uma hipótese alternativa que não gere tanta dissonância cognitiva”
    Será mesmo necessário encontrar essa hipótese alternativa nº2?
    Já pensou, por exemplo que o PS venha a restringir para mais de metade os benefícios fiscais às grandes empresas (SGPS) que somam mais de 1.000 milhões de euros anuais?
    Será que tal medida pode ser considerada como medida de austeridade?
    E porque não renegociar as PPP e obter daí receita tal como previa a Troika?
    Será que tal medida poderá ser igualmente considerada como medida de austeridade?

    Gostar

    • jvgama diz:

      Carlos,

      «E porque não renegociar as PPP e obter daí receita tal como previa a Troika?
      Será que tal medida poderá ser igualmente considerada como medida de austeridade?»

      Essa e outras hipóteses que propõe seriam certamente a hipótese mais agradável de considerar.

      Mas fica por explicar porque é que essas medidas não constavam nas previsões associadas ao programa de governo, mas constam agora das previsões associadas ao programa revisto. Aí a novidade relevante não seria a revisão das contas, mas o acrescento das medidas – e essa novidade não foi discutida.
      Foi por essa razão que não propus uma explicação desse tipo.

      Mas oxalá eu esteja enganado, e seja mesmo esta a explicação para o puzzle apresentado pelo Pedro Romano.

      Gostar

      • A resposta a ambas é… sim. Renegociar uma PPP, ou taxar SGPS, são medidas de austeridade, no sentido em que eu uso o termo – e que é o sentido relevante, para esta questão: é dinheiro retirado à economia, que subtrai à procura agregada.

        Gostar

      • jvgama diz:

        Mas Pedro, esse caso seria um caso em que faria todo o sentido que o programa pudesse ser ao mesmo tempo mais influenciado pela esquerda, e mais “austero” no sentido que lhe dás, e ao mesmo tempo menos austero no sentido que a esquerda lhe dá, sendo assim a solução para o teu quebra cabeças.
        Por explicar fica o silêncio em relação às tais medidas tão “simpáticas”. Seria uma notícia mais relevante que a revisão das estimativas por elas causadas.

        Gostar

      • jvgama diz:

        (Apesar das aspas em “simpáticas”, eu acho que uma revisão dos contratos das PPPs para poupar milhões aos cofres públicos (por exemplo) seria mesmo uma excelente medida).

        Gostar

      • João, o “problema” da austeridade é o seu impacto macroeconômico – isto é , a redução do PIB operada pela manipulação de uma variável de política. E um corte de PPP também tem esse impacto. Portanto o puzzle mantém-se.

        Gostar

      • jvgama diz:

        Pedro,

        Existe uma questão económica associada à austeridade, e essa tem a ver principalmente com o impacto macroeconómico agregado, geralmente esquecendo até os multiplicadores diferenciados.
        Neste contexto foi a esquerda que defendeu menos austeridade, mas postas as questões nesses termos a austeridade não seria por si uma bandeira da esquerda ou da direita.

        Mas, como tem sido a esquerda a defender menos austeridade, a palavra ganhou outros contornos na discussão política. Nesse sentido, dizer que se vai atenuar a austeridade “fazendo os bancos pagar a crise” não é algo que revolte o típico eleitor do BE ou CDU, nem sequer os dirigentes destes partidos. Quando estes partidos protestam contra a austeridade estão a usar o termo como significando principalmente “sacrifícios para o cidadão comum”.

        Nas estimativas do programa do PS existia uma determinada dose de austeridade (mais leve que a associada às políticas anteriores) no sentido que tu entendes (impacto orçamental agregado), e existiu uma revisão dessas estimativas após o acordo com as esquerdas segundo a qual as contas públicas ficam mais sólidas, sendo que a diferença não podia ser completamente explicada pelas projecções dos indicadores revistas pela Comissão. Parte da consolidação mais rápida que o inicialmente previsto tinha de se dever às novas medidas. Mas se as medidas envolvem maior consolidação, então envolvem mais austeridade (no sentido que lhe dás), pelo menos se não supusermos multiplicadores irrealistas.
        Como resolver este quebra cabeças?

        A explicação do Carlos é a seguinte: existe ligeiramente mais austeridade no sentido que tu lhe dás, mas que não é o sentido que a esquerda lhe dá, portanto está tudo bem.

        Parece uma boa explicação, mas só falha no seguinte: seriam mais relevantes jornalisticamente essas medidas, do que a revisão das estimativas por elas induzido. Nesse sentido seria muito estranho não termos ouvido falar nelas.
        Só se os jornalistas não fizeram o seu trabalho decentemente, ou se a revisão das estimativas foi também baseada em novas medidas que ainda não são públicas…

        Gostar

      • A questão é que essa ideia de duas austeridade, a “boa” que faz os bancos pagar a crise, e a “má” que deixa a factura para a classe média, é errada.

        Por exemplo, na Irlanda quem pagou as imparidades da banca foi o contribuinte, e no Chipre foram os bancos. De acordo com essa dicotomia, a Irlanda teve austeridade, e o Chipre não. Mas duvido que o cipriota comum esteja satisfeito com aquilo por que passou nos últimos: para ele, pelo menos, está agora claro que o facto de o ónus recair nominalmente sobre os bancos não garante que são os bancos quem efectivamente os cobre.

        Isto é muito parecido com a distinção entre incidência legal e incidência económica de um imposto. Se um tipo propuser aumentar a TSU das empresas em vez da TSU dos trabalhadores, pode argumentar à vontade que a sua proposta tem menos austeridade – “austeridade de esquerda” – do que a segunda. Mas está a basear essa distinção numa ideia errada: a ideia de que a primeira “custa” menos aos trabalhadores do que a segunda, quando provavelmente custam rigorosamente o mesmo.

        Gostar

      • jvgama diz:

        «A questão é que essa ideia de duas austeridade, a “boa” que faz os bancos pagar a crise, e a “má” que deixa a factura para a classe média, é errada.»

        Pedro Romano,

        Para te ser sincero, eu não estou a argumentar a favor da actual terminologia. Por mim o termo “austeridade” não seria usado nem no sentido económico que lhe é dado, nem no sentido político que lhe é dado. Usar-se-iam outros termos, com conotações mais neutras, e menos propícios a confusões.

        Mas, seja bem vinda ou mal vinda essa confusão entre diferentes conceitos para associar à palavra (com algum grau de sobreposição, é certo), a verdade é que ela existe e poderia explicar o quebra cabeças que apresentas.

        Imagina que tens três variáveis importantes: estímulo à economia (E), solidez das finanças (F), equidade na distribuição dos rendimentos (J). Com multiplicadores normais, melhorar E exige sacrificar E e vice versa. Conjunturalmente a direita defendeu uma aposta em F a prejuízo de E de acordo com o PS, e com o objectivo de agravar J de acordo com as acusações de BE e CDU. Efectivamente E e J pioram bastante, e as melhorias em F são, de acordo com PS, BE e CDU, muito tímidas e desproporcionadamente reduzidas face à dimensão dos “sacrifícios” (E e J). Isto é tudo considerado “austeridade”, pondo o PS um foco maior na falta de E, e BE e CDU um foco maior na falta de J.

        Chegam as eleições, e como é natural, as alternativas de PS, BE e CDU diferem um tanto. O foco do PS é abrandar um pouco a consolidação (mas continuá-la), sacrificando F em nome de E. Vamos chamar x ao “abrandamento” em F ou “estímulo” em E. Aqui x é “menos austeridade” no sentido que lhe dás, e numa dada conjuntura não se pode ter sol na eira e chuva no nabal: ou tens mais de um e menos do outro, ou vice versa.
        O PS às tantas também propõe um pouco mais J. Para simplificar vamos separar a questão do impacto agregado da questão da distribuição (o que leva a poder decompor qualquer medida em tanto para E e tanto para J), caso em que J será ortogonal à relação E vs F.

        O foco do BE ou CDU é menos claro: querem mais E e mais J (mal mencionam o impacto em F), e a dimensão das transformações propostas será de 5x (estou a inventar, mas dá para perceber a ideia), quer para E, quer para J.

        A hipótese do Carlos é a seguinte: quando o PS foi negociar com o BE e CDU terá decidido introduzir medidas que melhoram J e F a prejuízo de E (ele deu alguns exemplos). Mas como o programa como um todo já beneficiava E a prejuízo de F, o impacto diferencial total passou de x a x/2 em resultado destas medidas. Como estas medidas melhoram J, são consideradas pelo BE ou CDU “aceitáveis/desejáveis” em vez de “austeras”. Tu usas o termo austeridade para designar a relação entre E e F, mas o BE e CDU não, e portanto o Costa teria usado o eixo J para forjar um acordo que não colocasse F tanto em causa.

        Tudo isto faz bastante sentido.
        A única coisa que falha nesta explicação é não se ter ouvido falar nessas medidas acrescidas.

        Já agora, eu pessoalmente seria muito favorável a esse tipo de medidas (e falo em particular daquela associada à renegociação das PPPs). Isto porque se o impacto dessas medidas no eixo E-F não for o desejável, podem sempre existir outras compensatórias, mas o impacto no eixo J parece-me muito positivo.

        Gostar

      • jvgama diz:

        «melhorar E exige sacrificar E »
        Obviamente quis escrever F num dos Es acima.

        Gostar

      • Ok, ok. Em todo o caso, duvido que seja esse o sentido que a maior parte das pessoas dá ao termo.

        Gostar

  4. jvgama diz:

    Queria dizer programa eleitoral.

    Gostar

  5. carlos diz:

    “Começámos com um facto aparentemente trivial, mas chegámos a conclusões surpreendentes: ou o programa da Esquerda reforça a austeridade, ao contrário do que se esperava; ou ele cavalga uma mecânica económica absurda”.

    Tudo se resume ao conceito que se tenha de austeridade, aqui entendida, creio, como maior receita do estado.
    Será que se poderá obter maior receita para o Estado sem medidas de austeridade?
    Uma coisa é certa. Um milhão de euros atribuído aos donos de uma grande empresa em termos económicos não é a mesma coisa que atribuir 10 euros a 100.000 portugueses ou seja o mesmo milhão de euros.
    Será que aplicar uma taxa de 40% de IVA aos carros e aos barcos de luxo, de valor inicial superior a 60.000 euros por exemplo, é uma medida de austeridade?
    Será que obrigar os Fundos e Bancos a pagar IMI sobre os prédios urbanos que possuem será uma medida de austeridade?
    Será que taxar as transações dos activos financeiros é uma medida de austeridade?

    Gostar

  6. carlos diz:

    “A resposta a ambas é… sim. Renegociar uma PPP, ou taxar SGPS, são medidas de austeridade, no sentido em que eu uso o termo – e que é o sentido relevante, para esta questão: é dinheiro retirado à economia, que subtrai à procura agregada.”

    Creio estar completamente equivocado meu caro Romano.

    Na verdade, são os lucros abusivos de monopólio, de PPP e afins que retiram dinheiro à economia. O vulgar cidadão paga mais por esses serviços e aqui sim está a retirar-se rendimento aos cidadãos o que efectivamente subtrai à procura. Quanto ao dinheiro acumulado e abusivo das PPP e afins, sabe-se lá o seu destino. Muito provavelmente um qualquer off-shore.

    Cito Joseph Stiglitz “ os economistas têm um nome para estas actividades: rent-seeking, ou seja, obtenção de rendimentos não como recompensa por se ter criado riqueza mas por açabarcamentode uma fatia excessiva de riqueza que não se produziu. Os ricos de topo aprenderam a extrair dinheiro dos outros com métodos que esses outros mal conhecem – é essa a sua verdadeira vocação.”
    E mais ainda: “Sem rodeios, existem duas formas de enriquecer: criando riqueza ou retirando riqueza dos outros. A primeira dá algo à sociedade. A segunda tem a característica de subtrair à sociedade, uma vez que no processo de tomar riqueza, há uma parte dela que é destruída. Um monopolista que cobra demais pelo seu produto está a tirar dinheiro a quem está a comprá-lo e, ao mesmo tempo, a destruir valor.”

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s