Intolerância ao zero

Nos EUA há um debate crescente em torno da política de juros zero da Reserva Federal. Isto não é particularmente estranho: nestas coisas é difícil ter certezas e é possível que duas pessoas razoáveis façam avaliações bastante diferentes da posição cíclica da economia americana – e portanto da política monetária ideal que esta posição deveria recomendar.

Mas uma das coisas que me parece mais estranha é o tipo de argumentação utilizado por quem critica a Fed. É que uma boa parte das críticas não se limita a contrariar a linha de pensamento de Janet Yellen & companhia. Pelo contrário, passa ao lado desta linha de pensamento, aparentemente na ignorância do modelo subjacente ao processo de tomada de decisão. Isto é particularmente claro no caso dos gurus dos mercados – sobretudo, mas não só, gestores de fundos, traders e banqueiros. Depois de se destilar o raciocínio tudo parece simplesmente uma montanha de retalhos de empirismo ingénuo e raciocínio ilógico, como mostra David Andolfatto em Zero Intolerance.

If the analysis above is correct, then the recommendation to increase interest rates in the present climate is off base. Low interest rates are not the cause of our ills–they are symptomatic of deeper problems. The way to get interest rates higher is to adopt policies that would stimulate investment demand (the neoclassical view) and/or adopt measures that would remove financial market frictions (the debt-constraint view). A deficit-financed tax cut (or subsidy) on investment spending would constitute one such measure.

There are, of course, other models that one could use to justify a policy-induced increase in the interest rate in present circumstances. Some members of the FOMC, for example, view the economy as having largely recovered and are now worried about the effect of very low interest rates on the prospect of future inflation. These types of arguments, however, are quite a bit different from the Gross hypothesis. But if he wants higher interest rates, maybe he should use them! A bit of a warning though: I don’t think his bond portfolio is going to like the consequences.

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4 comments on “Intolerância ao zero

  1. Uma coisa que me parece no argumento do Gross (e também num argumento semelhante feito há uns anos n’O Insurgente, se não estou em erro pelo Ricardo Campelo Magalhães), de que a política de baixos juros cria escassez de capital, é que só faria sentido se o juro do banco central fosse um máximo legal obrigatório também para os contratos privados.

    Imagine-se que o estado possui uma churrascaria (o banco central) e que também há churrascarias privadas, que fixam livremente o seu preço (os privados a emprestarem dinheiro uns aos outros, ao juro que bem entenderem) – creio que o Estado praticar preços baixos (mesmo artificialmente baixos, ou até oferecidos) na sua churrascaria nunca irá causar falta de frangos; das duas uma, ou a churrascaria estatal tem capacidade para produzir frangos suficientes para a procura (mesmo que a preço zero), e aí não há escassez por definição; ou então não tem, e aí as churrascarias privadas continuam a ter mercado para vender os seus frangos, mesmo a um preço superior ao da churrascaria estatal (e aí também não há falta de frangos).

    No segundo caso (a tal situação de a churrascaria vender frangos a preço artificialmente baixo, ou de o banco central emprestar dinheiro a um juro artificialmente baixo), creio que a única coisa que aconteceria seria um subsidio aos clientes da churrascaria estatal, que poderiam comprar os frangos baratos e depois revendé-los a preços de mercado (algumas criticas que se faziam aos lucros da banca parecem-me basear-se num modelo deste tipo), mas não falta de frangos (ou escassez de capital)

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  2. Exactamente, Miguel. O argumento começa sempre dessa forma, assumindo implicitamente que a política monetária funciona através da fixação administrativa de juros, quando na verdade ela apenas os influencia através de mecanismos de mercado. O que se pode dizer é que está injecção de moeda aumenta a inflação. Mas neste momento é difícil fazer esse argumento.

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    • Carlos Duarte diz:

      Mas para aumentar a inflação, não tem que haver consumo? Se não há consumo (seja por falta de vontade, seja pela injecção de moeda ficar retida nos bancos), então obviamente não há inflação por mais baixa que seja a taxa de juro.

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