Programa do PS: riscos para as finanças públicas (IV)

Uma das promessas mais difíceis de engolir do cenário do PS é que é possível dar um estímulo considerável à economia (de 1000 a 4000 milhões de euros entre 2016 e 2019, pelas minhas contas) e fazer com que o défice acabe por ser mais baixo do que seria num cenário de políticas inalteradas (ver última página do documento).

Nos posts anteriores já dei uma vista de olhos aos efeitos previsíveis no PIB e no emprego. Por isso agora é fácil contabilizar o impacto nas contas públicas. Basta partir destes cálculos, estimar o comportamento do deflator (para obter as quantidades nominais), aplicar uma semi-elasticidade ao PIB resultante e chegar a um valor para o défice efectivo. Soma-se tudo, introduz-se alguns ajustamentos de pormenor (efeito da nova dívida na despesa com juros, por exemplo) e, no final, obtém-se uma nova série para as finanças públicas.

Mas aqui corro dois riscos. O primeiro risco é introduzir cada vez mais hipóteses auxiliares e cálculos laterais, o que pode acabar por inviabilizar qualquer comparação com as simulações do PS (quanto mais não seja porque a origem das discrepâncias seria impossível de localizar). O segundo risco é o de não fazer mais nada durante o fim da semana.

Por isso, o que proponho é um exercício mais simples. O primeiro passo é tentar perceber como se comportaria o défice orçamental caso as medidas do PS tivessem um efeito nulo na economia. Isto não é difícil de fazer: basta somar as medidas e aplica-las ao PIB original (ignorando, por conveniência, algumas complicações menores, que de resto não interferem grandemente com o resultado final). Daqui obtém-se a seguinte imagem.

Post 4 - Gráfico 1

Lendo o gráfico: segundo as contas do PS, é possível chegar a 2019 com mais 200 mil empregos e um défice 0,4 pontos percentuais mais baixo do que o valor com que a Comissão Europeia está a contar. Mas se o programa de estímulo for um flop a situação é diferente, porque ficamos com só com a dívida. Neste caso, o défice é de 3,7% do PIB e a criação de emprego é nula.

Mas estou a ser demasiado céptico. Porque é óbvio que as medidas vão ter algum efeito: é quase impossível que 4 mil milhões de euros não gerem um único posto de trabalho. Portanto, o passo seguinte é criar um cenário intermédio, em que os resultados ficam a meio caminho entre o que é esperado pelo PS e o que acontece num cenário de impacto nulo. Como é que calculo este cenário? É simples: é a média entre o cenário do PS e o cenário de impacto nulo.

Post 4 - Gráfico 2

E agora faço o mesmo para a criação de emprego:

Post 4 - Gráfico 3

Onde é que estou a tentar chegar? É que em questões de política orçamental – como, enfim, em quase tudo – deparamo-nos sempre com situações de trade-off. Temos quase, quase, quase a certeza de que é possível ter mais emprego com medidas de estímulo (porque temos quase, quase, quase a certeza de que o multiplicador não é zero). Mas ao mesmo tempo é preciso ter uma ideia do custo destes empregos adicionais.

E o que a junção das duas imagens permite é fazer uma análise deste género. Por exemplo: se as previsões do PS estiverem bem-feitas, então nem sequer há trade-off entre contas e emprego: é possível ter mais 200 mil empregos e chegar a 2019 com um défice mais baixo. Acontece que os pressupostos implícitos ao exercício parecem consideravelmente optimistas, por assumirem que cada euro de estímulo produz 1.6 euros de PIB quatro anos mais tarde.  E se o impacto for metade do anunciado?

Neste caso, a criação de emprego baixa para 100 mil postos de trabalho. E o défice passa de 1,4% do PIB para 2,6% do PIB.

Aliás, a situação até é um pouco mais complicada do que isto. Note-se que neste cenário intermédio o défice acaba em 2,6% em 2019… mas fica acima dos 3% até 2018. Portanto, há o risco sério de Portugal ser obrigado a tomar medidas correctivas a meio do caminho, anulando uma parte do programa de estímulo e inviabilizando a meta original que o levou a ser adoptado: a possibilidade de criar 100 mil empregos.

Talvez o risco valha a pena. Afinal de contas, 100 mil empregos é muita coisa. E, como a diferença entre um défice de 1,4% e 2,6% tem mais relevância política do que económica, talvez seja possível negociar alguma cláusula de excepção com a Europa de modo a que o caminho para as metas do Tratado Orçamental seja um pouco menos agreste do que é exigido neste momento. Mas convém que a decisão seja tomada na consciência de que estes riscos existem.

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