Em alemão, “dívida” quer dizer “culpa”

Já me tinham dito isto algures, mas nunca me dei ao trabalho de confirmar. Agora li o mesmo no New York Times, pelo que suponho que seja mesmo verdade. Para os alemães, a palavra “schuld” tanto serve para dívida como para culpa. Daí, supõe-se, a aversão visceral dos germânicos à dívida pública e a intransigência para com a a Grécia, a maior pecadora da Zona Euro.

Mas não é só na Alemanha que a análise linguística permite olhar para as profundezas do imaginário colectivo da nação. Em Portugal, por exemplo, a palavra “treinador”, como um dia relembrou Abel Xavier, também pode ser decomposta nas partículas “treina” + “a” + “dor”. Um treinador tem de ser um lutador: luta-a-dor. E tem de ser um vencedor: vence-a-dor. Ser treinador é doloroso. Aguentar as agruras do banco não é para qualquer um.

As palavras de Abel Xavier são apenas um exemplo extremo da facilidade com que tendemos a associar ideias dispersas na nossa cabeça e, pelo meio, a impor causas e efeitos onde elas não existem. Voltando à Alemanha: sim, dívida pode ser lida como culpa; mas isto quer mesmo dizer que os alemães associam uma à outra, e que é esse preconceito justifica as posições dos últimos anos?

Claro que não. Aliás, muita gente já se esqueceu mas durante o período do euro que antecedeu a Grande Recessão (2008) esse fantasma puritano quase nunca viu a luz do dia. Lembram-se das regras do PEC, do défice abaixo dos 3% e da dívida abaixo dos 60%? A Alemanha furou essas regras durante vários anos. Aliás, não só furou as regras como utilizou activamente alguns artifícios contabilísticos para maquilhar as contas públicas, numa altura em que a tolerância da Comissão Europeia a desvios era claramente maior (o FMI compilou algumas das escolhas mais criativas num paper apropriadamente chamado Accounting devices and fiscal illusions).

123

1234O mais estranho é que não faltam países que ao longo do tempo mantêm sucessivamente saldos orçamentais equilibrados e dívidas bem abaixo dos 60% do PIB. Alguns destes países, paradoxalmente, nem estão na Zona Euro, estando portanto sujeitos a menos constrangimentos do que a Alemanha (é o caso – entre outros, da Dinamarca e da Noruega). Portanto, a questão não é que superávits são coisas impossíveis de alcançar. Há muitos países que o fazem. A questão é que a Alemanha não é um deles. O país onde a dívida se escreve como “culpa” não parece ter grandes remorsos pelo que (não) fez de 1999 a 2007.

Qual o ponto que estou a tentar fazer? Simplesmente que nestas coisas é muito fácil “estruturalizar” questões que são sobretudo conjunturais, criar falsas dicotomias e desenterrar causalidades. E basta perder alguns minutos para refutar algumas das ideias mais enraizadas.

A Alemanha, sejam quais forem as métricas, está bem atrás de outros países no que diz respeito à estabilidade orçamental. A razão pela qual tem adoptado a postura que adoptou tem provavelmente que ver com um facto muito mais trivial do que alergias congénitas à dívida: é ela a principal contribuinte para o apoio financeiro à Grécia, e é o seu modelo de banco central (Bundesbank) que o avolumar de dívida pública na Europa pode pôr em causa (a coisa até tem um nome: fiscal dominance). Talvez no seu imaginário os alemães se vejam como os porta-estandarte do rigor e da estabilidade (o auto-engano é um poderoso efeito); mas não vamos confundir razões com pretextos.

P.S.- Outra questão engraçada, apanhada pelo Dean Baker: a hiperinflação que alimentou a fobia dos alemães teve lugar… bom, há cerca de 100 anos. “This point is worth noting, because hyperinflation is not something that any sizable number of Germans alive today actually experienced. For the most part, even their parents didn’t experience it. The Germans’ concern about hyperinflation is based on national myth, not their own experience”. E isto é revelador. Porque, enfim, revela-a-dor.

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