Os ziguezagues do desemprego: nova tendência… ou nada de mais?

O desemprego subiu no primeiro trimestre de 2015. Esta é a segunda subida consecutiva , algo que ainda não tinha acontecido desde a súbita inflexão de ciclo, em meados de 2013. A taxa de desemprego está agora nos 13,7%, mais 0,6 pontos percentuais do que há seis meses.

Curiosamente, e isto torna os números ainda mais estranhos, a subida do desemprego dá-se numa altura em que a actividade económica está a acelerar – não só a recta final de 2014 correu bem melhor do que o esperado como as previsões de evolução do PIB têm sido sistematicamente revistas em alta. Como (re)conciliar esta divergência?

Uma candidata ao estatuto de explicação é a subida do Salário Mínimo Nacional, anunciada a meio do ano passado. Apesar de o timing bater certo (o SMN subiu em Outubro, precisamente quando o desemprego começou a arrancar), torço o nariz a esta hipótese. Mesmo que o SMN aumente o desemprego, parece-me pouco provável que o faça de forma tão imediata. Além do mais, há uma explicação bem mais parcimoniosa, como veremos a seguir.

Esqueçamos, por agora, a taxa de desemprego. E concentremo-nos no volume de emprego, um indicador mais apropriado para tomar o pulso do mercado laboral. A imagem de baixo mostra os dois indicadores, em duas escalas diferentes, entre 2013 e 2015 (e não, não estou a inventar a roda: olhar para o emprego para destilar melhor o que se passa por debaixo da taxa de desemprego é o que faço sempre que analiso os dados do Inquérito ao Emprego).

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Note-se que, apesar de a taxa de desemprego ter descido sempre entre o início de 2013 e o final de 2014, o volume de emprego seguiu um percurso um pouco mais acidentado, com duas contracções no terceiro e quarto trimestres de 2013.

Os leitores mais atentos terão reparado a regularidade das duas quebras: a contracção de emprego a que estamos a assistir agora deu-se no primeiro trimestre do ano e no quarto trimestre do ano anterior – exactamente os mesmos trimestres do primeiro “ciclo de destruição de emprego”. Isto não é coincidência. Na verdade, é um padrão regular no mercado laboral português, provavelmente devido ao emprego sazonal do Verão e ao emprego associado ao período natalício. A imagem de baixo mostra a criação trimestral de emprego média do período 1999-2007, associada à diferença de cada trimestre relativamente a essa média.

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Sem surpresa, o quarto e o primeiro trimestres registam taxas de crescimento do emprego sistematicamente inferiores à média anual. No quarto trimestre a regra até é haver destruição líquida de emprego.

O que está, então, a acontecer? Provavelmente, o emprego está apenas a seguir a sua tendência natural: grandes contracções no final e no início do ano, seguidas – espera-se – de fortes correcções a meio do ano.

Mas esta tendência foi, ao longo do primeiro ano de recuperação do emprego, “mascarada” por dois eventos singulares. Primeiro, uma evolução da população activa que permitiu camuflar a real subida do desemprego que se registou entre 2013 e 2014 – como o desemprego foi absorvido pela redução da população activa, a taxa de desemprego não aumentou. Segundo, um problema de amostra do Inquérito ao Emprego, que terá introduzido alguma melhoria “estatística” no crescimento do emprego; e que, ao fazê-lo, empolou indevidamente a performance do emprego, que contrabalançou os efeitos sazonais de sentido contrário1.

Conclusões? Poucas. O facto de as últimas subidas da taxa de desemprego serem compatíveis com uma descida anual do desemprego não significa que estes dados não tragam informação nova – informação essa que pode obrigar a rever em baixa as expectativas para o conjunto do ano. Significa, apenas e só, que não há razões para temer uma inversão de tendência. E isso, convenhamos, é fraco consolo quando o desemprego está acima dos 13%.

P.S.- Registe-se, por favor, que a subida do desemprego se dá face ao trimestre anterior. Em termos homólogos, o desemprego caiu 1,4%. Claro que para a identificação de pontos de inversão de ciclo o que faz sentido é comparar as coisas trimestre a trimestre, mas não deixa de ser curioso que tanta gente que em 2013 ignorou as variações trimestrais se apresse agora a ignorar as flutuações homólogas.
1 Esta explicação para a subida brusca do desemprego não é muito diferente, na sua mecânica, da explicação para a descida igualmente brusca do desemprego que sugeri em meados de 2013.
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One comment on “Os ziguezagues do desemprego: nova tendência… ou nada de mais?

  1. Aníbal Alexandre Pereira da Costa diz:

    Apreciei imenso. São análises profundas que explicam efectivamente a realidade. Que se continue a escrever sobre esses e outros assuntos.
    Muito obrigado pelo envio dessas matérias.
    Aníbal da Costa, Economista (Angola)

    Gostar

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