Notas sobre o Reino Unido

Não exactamente sobre as eleições, mas mais sobre a avaliação que, em Portugal, se fez da política macroeconómico do Governo de David Cameron. Há sobretudo dois aspectos que me pareceram recorrentemente mal abordados.

Um é assumidamente retirado da série de Simon Wren-Lewis. Parece ter-se gerado a ideia de que a performance económica do Reino Unido nos últimos quatro anos foi impressionante. Provavelmente porque o termo de comparação é a Zona Euro. Isto pode ser colocar a fasquia demasiado baixo, mas se esta for a referência então o Reino Unido não se saiu mal: em vez de uma recessão teve uma expansão do PIB de pouco mais de 1% entre 2011 e 2013.

O problema é que esta comparação simples não leva em conta dois factores: a dimensão da recessão anterior – à partida esperamos que quanto mais funda for a contracção do PIB mais robusta será a retoma posterior – e a própria tendência de longo prazo, ditada por questões de carácter mais estrutural. Quando se leva isto em conta, projectando a tendência anterior à crise e comparando a performance com essa métrica, o comportamento do Reino Unido já não parece tão risonho (sobre o gráfico, ler Chagas da Grande Recessão).

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Um ponto importante: isto não quer dizer que a gestão macroeconómica tenha sido tão má quanto isto (sobre isso, ver os parágrafos seguintes). A gestão macroeconómica influencia sobretudo a procura e o desemprego, e a verdade é que a taxa de desemprego tem evoluído muito bem. Mas a “performance económica” envolve ambas as faces da moeda – emprego e produtividade -, e para efeitos de avaliação global é preciso levar em conta as duas (quem tiver interesse o “UK productivity puzzle” pode ler isto).

Sobre a gestão macroeconómica propriamente dita, há dois elementos importantes que não vi ninguém referir. O primeiro tem que ver com a dimensão da austeridade. No Expresso de hoje, por exemplo, Ricardo Costa comparava Cameron a Passos Coelho e traçava semelhanças entre as “estratégias” dos dois países. Mas as semelhanças são apenas no discurso, porque no que diz respeito à dimensão da consolidação orçamental as coisas pura e simplesmente não são comparáveis. Em baixo, a evolução do Saldo Estrutural Primário entre 2010 e 20141.

2Aquilo que foi feito nos PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – está para lá de qualquer coisa que tenha sequer sido ponderada pelo Governo conservador. Olhar para o que acontece no Reino Unido e pensar que isso pode servir para fazer inferências em relação às eleições na Europa continental é, por isso, absolutamente enganador. Uma coisa é adoptar medidas para reduzir o défice em 2% do PIB – outra, bem diferente, é cortar 9% no mesmo período.

Finalmente, um pormenor importante que julgo que pode ajudar a explicar alguma coisa, e que passa mais ou menos despercebido devido à tendência para olhar para os grandes números, desconsiderando a sua desagregação intertemporal. Entre 2010 e 2014, o Reino Unido cortou o défice estrutural em 2% do PIB, o que dá uma média de 0,5 p.p. por ano. Mas a trajectória não foi linear. O Reino Unido consolidou bastante em 2011, pôs um travão em 2012 quando a economia arrefeceu, voltou à carga em 2013 e deixou para 2014 um… estímulo orçamental2 (Nota: valores positivos representam consolidação, valores negativos são estímulos).

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E, sob este ponto de vista, os resultados eleitorais não são assim tão estranhos.

1 Os leitores mais atentos podem achar estranho que Portugal tenha consolidado mais do que a Grécia. Não é gralha: o gráfico deixa de fora 2010, ano que a Grécia implementou uma forte dose de austeridade.
2 Dados os erros de medição do Saldo Estrutural, convém não levar demasiado a sério a ideia de um “estímulo orçamental de 1,1% do PIB”. Cautelosamente, podemos interpretar este número como algo entre uma “pausa” e uma “pequena reversão” da austeridade.

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One comment on “Notas sobre o Reino Unido

  1. Mesmo no que respeita aos resultados eleitorais, o spin positivo que lhes está a ser dado (em associação com o suposto bom desempenho da economia britânica) parece-me algo exagerado: imagine-se que o Partido Liberal Conservador tinha baixado de 59% para 45% dos votos e perdido 20 deputados. Se calhar os comentadores diriam “Desgaste do governo”; “Governo mantém maioria por uma unha negra”; “Eleitores mostram cartão amarelo ao governo”; “Alguma coisa vai ter que mudar”, “Cabeças vão rolar no governo e no Partido Liberal Conservador”, “Arco da governabilidade em crise – UKIP e SNP sobem à custa de Liberais Conservadores e Trabalhistas”…

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