O desemprego segundo o Observatório das Crises

O Observatório sobre Crises e Alternativas (OCA) deu-se ao trabalho de calcular a «taxa de desemprego real» que se esconde sob os números oficiais. O resultado, depois de muitas contas, é um desemprego de 29%.

O tema é antigo. Tal como o próprio cálculo, que na verdade se limita a actualizar com os dados mais recentes um método utilizado há uns meses no blogue Ladrões de Bicicletas. Escrevi sobre os problemas desse método em Novembro, e não queria voltar ao tema. Por outro lado, os 29% foram amplamente citados na comunicação social e até geraram um curioso ping-pong entre os autores do cálculo e um cronista do Público (aqui, aqui e aqui). Como já tenho os números compilados, talvez valha a pena acrescentar dois cêntimos – e três reparos – à discussão.

O primeiro reparo é conceptual. É que a «taxa de desemprego real» do OCA não é bem aquilo que se entende por taxa de desemprego. Ela é igual ao desemprego oficial mais os desempregados ocupados em programas do IEFP, mais os inactivos desencorajados, mais os empregados que trabalham menos horas do que gostariam, mais o fluxo de emigrantes em idade activa. Nada contra estas métricas. Mas a taxa de desemprego não é isto.

Na defesa do seu cálculo, os autores argumentam que os conceitos a que recorrem não foram retirados da cartola, e estão tipificados em convenções da OIT. Ora, são precisamente essas convenções definem um desempregado como alguém que, não tendo emprego, está disponível para trabalhar e procura activamente trabalho. É insólito invocar uma definição internacional para defender um cálculo que viola essa mesma convenção, chamando desemprego àquilo que manifestamente não é.

Para que fique claro: é importante ter medidas alargadas do estado de saúde do mercado laboral, e seguramente que estas merecem integrar o lote – desde que essas “medidas alargadas” sejam comunicadas enquanto tal, e não apresentadas à socapa como “desemprego real”. É que se nalguns casos ainda se pode argumentar, com alguma boa vontade, que o indicador captura realidades que só não são desemprego “nas estatísticas” – é o caso dos inactivos disponíveis -, noutros casos pura e simplesmente não estão em causa desempregados, seja qual for a abrangência que se queira dar ao conceito.

A isto acresce o problema dos termos de comparação. Utilizando a métrica do OCA, o «desemprego real» em Portugal está, pelo menos desde 2004 (o período mais recuado para o qual consegui reproduzir os dados) acima dos 9,5%. Isto pode mostrar que Portugal está numa gravíssima depressão há mais de uma década. Ou talvez mostre apenas que este conceito de desemprego não tem grande relevância prática.

O segundo reparo é ao rigor com que os resultados são comunicados. É importante ter noção de como é que os autores chegam aos tais 29%. Primeiro, considerando que todos os ocupados pelo IEFP estariam desempregados se não fosse o IEFP; segundo, considerando que todos os inactivos disponíveis são de facto verdadeiros desempregados; terceiro, considerando que todos os emigrantes líquidos em idade activa não teriam emprego se tivessem ficado no país1.

Isto é, o cálculo do OCA não só não captura o “desemprego real” como nem sequer captura o grau de debilidade do mercado de trabalho – limita-se a fornecer um limite superior para esse mesmo grau de debilidade. O absurdo é óbvio. Seria como alguém defender que a consolidação orçamental em Portugal não teve qualquer impacto no PIB porque há um estudo (e há mesmo) que mostra que os multiplicadores estão perto de zero.

Para ser rigoroso, o OCA deveria pelo menos ter clarificado a gama de resultados que é compatível com a metodologia adoptada, em vez de se limitar a fornecer o upper bound. Como não o fez, eu tomo a iniciativa. O “cálculo simpático” que apresento em baixo usa os mesmos números, mas assume que nenhum dos ocupados e emigrantes conta como desempregado. Este é o lower bound do cálculo. O “cálculo assim-assim” assume que metade destas categorias estaria empregada e a outra estaria desempregada. (Por conveniência, ignoro a questão do subemprego.)

imagem 1

Atenção: não estou a tentar determinar a «taxa real». Só a mostrar como a metodologia do OCA tanto pode conduzir a uma «taxa real» de 24,7% como a uma de 17,9%. Infelizmente, este segundo valor nem sequer é mencionado.

O terceiro (e mais importante) reparo diz respeito à forma como é apurado o “saldo migratório” líquido. Isto é técnico e enfastiante, mas é incontornável. O OCA usa os números do Observatório da Emigração, e que dão, em números redondos, qualquer coisa como 300 mil emigrantes em idade activa. Estes números têm um problema: provavelmente, são apenas uma grande fantasia.

Porquê? Porque, se levarmos a sério o saldo migratório calculado desta forma, então concluímos que a população activa portuguesa disparou a partir de 2011 – ao todo são mais de 150 mil pessoas que aparecem do nada nas estatísticas. E é muito difícil engolir estes números. A população activa praticamente estabilizou de 2005 a 2008, e até caiu ligeiramente nos dois anos seguintes. Não há nenhuma razão para acreditar que terá subitamente crescido a partir de 2011.

Felizmente, o INE também faz estimativas para os fluxos migratórios – que, como seria de esperar, revelam números bem menos dramáticos. A imagem de baixo mostra a população activa que está implícita nos cálculos do Observatório, e a população activa que se obteria caso se usasse os dados do INE. Apresento também os valores oficiais.

imagem 2

Note-se como o cálculo do OCA conduz a uma população activa crescente a partir de 2011. Mas, utilizando os dados do INE, os problemas desaparecem. A população activa ficou mais ou menos estável entre 2011 e 2014, tal como seria de esperar tendo em conta a demografia e as tendências recentes.

Se usarmos estes valores para refazer os cálculos, a malfadada “taxa real» cai de 24,7 para 21,5%. Se por cima disto ainda deixarmos cair o pressuposto de que todos os emigrantes e ocupados são desempregados (substituindo o “1” da equação por “0,5”), então o número passa para 19,6%. Estes 19,6% são demasiado – mas de 19,6 para 24,7% vão mais de cinco pontos percentuais.

Um pequeno comentário final. As estatísticas económicas são limitadas e incompletas, mas afirmar que o «desemprego real» é mais do que o dobro do valor oficial não é coisa que se faça de ânimo leve. Se a diferença é tão grande, no mínimo há que fazer alguns testes adicionais para ter a certeza de que os resultados são robustos. A anomalia da população activa crescente, por si mesma, devia ter feito soar alguns alarmes. Mas havia imensos outros testes que facilmente permitiriam concluir que havia alguma coisa muito errada com estes valores. Por exemplo, comparar a relação típica entre o Produto e o desemprego.

IMAGEM 3

1 Na verdade, há um pequeno ajustamento, considerando-se que a partir de 2013 um em cada 5 emigrantes líquidos recupera o emprego. Mas o impacto final deste ajustamento é muito pouco relevante.
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2 comments on “O desemprego segundo o Observatório das Crises

  1. cristof9 diz:

    Tenho sempre a experiencia que rebater crenças é trabalho dr Rhodes.

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  2. Carlos Duarte diz:

    Excelente post, Pedro Romano. Os meus sinceros parabéns!

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