Narrativa orçamental da crise – conclusões abusivas

Num post ali de baixo apoiei a perspectiva de Vítor Bento de que a crise europeia foi um problema de desequilíbrios externos. Apesar de alguns reparos que recebi por e-mail, esta ideia não é nova – e, na verdade, foi mais ou menos isso que defendi durante dois anos neste blogue (basta procurar nesta tag). Este post complementa o anterior, tentando explicar por que é que esta tese não tem as implicações que normalmente lhes são atribuídas (um problema frequente, que até obrigou Vítor Bento a fazer de intérprete do seu próprio ensaio). Listo apenas os mais comuns.

#1 Se o problema não foi orçamental, a solução também não é orçamental. A austeridade era dispensável

Este é o argumento mais recorrente. É também o mais errado, e é terrivelmente frustrante que, quatro anos depois do pedido de ajuda financeira, o debate ainda não tenha saído deste nível.

A austeridade, definida de forma restrita como “medidas de consolidação orçamental”, só é uma opção para quem tem acesso a empréstimos e não precisa de conformar as suas despesas às suas receitas. Mas quem não tem financiamento – como era o caso de Portugal e do resto da periferia em 2010 e 2011 – não tem outro remédio que não seja baixar as primeiras ou aumentar as segundas. Apresentar a consolidação das contas como uma escolha errada é enganador – não porque a escolha seja certa, mas porque pura e simplesmente não é uma opção.

Que a escassez de financiamento não tenha tido origem na irresponsabilidade do Estado é um facto absolutamente irrelevante. A situação é semelhante à de um transeunte que perde o uso de uma perna durante uma troca de tiros. Certamente que não teve culpa de nada – mas não é da sua culpa, ou da falta dela, que depende a possibilidade de voltar a andar. O transeunte voltará a andar se, e só se, conseguir recuperar da lesão. Da mesma forma que a periferia só poderia evitar a consolidação se conseguisse ter acesso a mais financiamento. Não tendo, não lhe restava alternativa.

#2 A acção do BCE fez baixar os juros. Logo, uma acção mais rápida e determinada podia ter dispensado a consolidação orçamental

A questão é um pouco mais complexa. Seja qual for a razão dos desequilíbrios orçamentais – irresponsabilidade do Estado, avareza dos banqueiros, problemas macroeconómicos ou apenas muito azar – eles eram incontornavelmente reais em 2010. Toda a periferia tinha défices elevados que, se não fossem devidamente contidos, tornariam a sua dívida pública insustentável.

O BCE poderia, ainda assim, ter assegurado juros baixos para todos? Provavelmente, sim – o poder de fogo do BCE é praticamente ilimitado. Mas, nesse caso, o BCE estaria a assumir a efectiva monetização da dívida dos periféricos, algo que não só não faz parte das suas funções como não é sequer desejável. Afinal de contas, foi precisamente para evitar esse risco que o BCE foi criado à imagem do Bundesbank (e, acrescentaria eu, foi para eliminar as tentações que decorrem dessa possibilidade que os países com um historial de inflação crónica aceitaram submeter-se à disciplina monetária germânica).

O que o BCE poderia – e, em retrospectiva, deveria ter feito mais cedo – era garantir que os receios de default de países solventes não se auto-alimentavam, gerando o pânico que geraram. Como? Anunciando mais cedo o programa OMT e tornando esse programa condicional a uma promessa credível, por parte dos Estados em apuros, de que a dívida pública seria controlada e que o dinheiro do BCE não acabaria a monetizar dívidas. Isto não impediria a austeridade; mas poderia torná-la muito menos violenta e agreste do que efectivamente foi – quanto mais não seja porque uma parte dela já seria adoptada num período em que haveria política monetária à mão para contrariar os seus efeitos recessivos (algo que, neste momento, não é possível).

Ao mesmo tempo, também devemos reconhecer que a diferença entre problemas de solvência e liquidez nem sempre é clara e que o BCE terá tido dificuldade em separar as águas (sobretudo depois da má experiência grega). Além do mais, tamanha inversão de marcha relativamente à prática corrente só poderia ser adoptada mediante contrapartidas muito sérias e credíveis, por parte dos vários Governos, de que as contas eram mesmo para consolidar a médio prazo. Não acho que isto ilibe o BCE do mau trabalho que fez, mas penso que é pelo menos um atenuante de relevo.

#3 Se o problema foi dos bancos, os bancos que falissem

O problema deste argumento não é tanto propor uma solução diferente daquela que foi, numa primeira fase, adoptada pela Zona Euro. O problema é que assume implicitamente que o salvamento da banca implica sacrifícios que a sua falência teria evitado.

Imagine o leitor que, em 2008, a Irlanda1  opta por deixar falir o seu sistema bancário. Certamente que não teria problemas de dívida pública. O que não significa que os irlandeses não tivessem problemas. Esses problemas não se manifestariam como medidas de austeridade, mas manifestariam-se como redução de riqueza (depósitos e obrigações a evaporar-se) e restrições de liquidez (colapso do crédito bancário). É difícil saber se os problemas aumentaram ou diminuíram por terem migrado da banca para o Estado – o que é absolutamente errado é pensar que foi essa migração que os tornou relevantes para os irlandeses.

Veja-se, por exemplo, o caso da Islândia – em que é que diferia do irlandês? Em pouco, com a excepção de que o seu sistema bancário era tão grande (e o seu activo estava denominado numa moeda tão desvalorizada) que a opção “salvação da banca” pura e simplesmente não estava em cima da mesa. Podemos discutir se a performance subsequente da Islândia é melhor ou pior do que a da Irlanda (depende sobretudo de se valorizar mais o emprego ou os salários) mas dificilmente alguém argumentaria que os islandeses conseguiram passar ao lado do problema.

Penso que a maioria das pessoas estaria satisfeita em adoptar uma regra deste género: depois de a crise rebentar, o Estado deve utilizar todos os meios à sua disposição para minorar o seu impacto junto da população. Inevitavelmente, isso poderá implicar recapitalizar a banca nalgumas circunstâncias. Se os problemas tiverem tido origem no próprio sector bancário, pois que se punam os responsáveis (se tiver havido crimes) ou se aumente a regulação (se tiver sido apenas incúria). Mas exigir a falência da banca apenas para dar uma lição aos banqueiros, sem ter em atenção se essa é a opção que minimiza os danos para a população em geral, é um péssimo princípio.

De resto, este parece-me um princípio que a pouco a pouco tem vindo a interiorizado. A maior parte dos comentadores deixou de encarar com tanta bonomia a falência do sector bancário depois de ter percebido o que isso implicava aquando do colapso cipriota.

#4 Se o problema é europeu, a solução devia ser  europeia e não nacional

Este tem muito que se lhe diga. Coloquemos momentaneamente de lado a questão complicada de decidir o que seria uma “solução europeia”. Imagine-se que essa solução, seja ela qual for, não é adoptada – o que nos resta fazer? Infelizmente, teríamos de fazer exactamente o que fizemos: pedir ajuda financeira e consolidar as contas públicas.

Mas voltemos agora à questão da solução europeia. Geralmente, quem formula a questão nestes termos pede mais facilidades nos empréstimos, mais dinheiro, mais transferências por parte do Orçamento europeu, união fiscal, etc. Nos primeiros dois casos, tenho alguma dificuldade em perceber em que é que isso difere da solução actual – ela é certamente mais simpática e menos dolorosa, mas não é fundamentalmente diferente; na prática, “solução europeia” é apenas uma outra forma de designar um programa de ajustamento light.

Já no terceiro caso e quarto casos, o tiro parece sair ainda mais ao lado. Se o problema foi de más expectativas de credores e devedores em relação ao crescimento potencial das economias periféricas (do tipo irrational exuberance), mais transferências seriam absolutamente ineficazes para o minorar – a não ser que se espere que todos os desvairos dos mercados, desde que se traduzissem em défices externos, fossem automaticamente corrigidos por transferências adicionais por parte dos países credores, o que parece insólito. Já agora, é suposto que países pobres excedentários transfiram dinheiro para países ricos deficitários, ou o princípio da transferência só funciona em certos casos?

As transferências podem, num certo sentido, funcionar como um sistema de seguro contra crises (por exemplo, na proposta do FMI), e nesse caso não haveria um fluxo sistemático de dinheiro de uns países para outros. Mas o princípio de um seguro é segurar antecipadamente contra riscos, não compensar danos a posteriori. Uma União Orçamental deste género poderia ser óptima para evitar a próxima crise, mas não é uma solução plausível para esta.

Concluindo, sem dúvida que houve no passado um problema de desequilíbrios externos. Mas uma solução efectiva para esse problema teria passado por monitorizar devidamente esses desequilíbrios e tomar medidas correctivas (como está a ser feito agora). O que, para efeitos práticos, teria significado uma política orçamental mais restritiva na periferia de 2000 a 2007 – para contrariar o choque positivo de procura que resultou do euro – e, obviamente, alguma forma de estímulo da procura interna alemã durante o mesmo período. É possível pensar em mais algumas medidas, como flexibilização dos mercados laborais para evitar a divergência de salários entre o core e a periferia, uma política macroprudencial mais rigorosa. No geral, porém, duvido que alguma delas seja o tipo de medida que os partidários das “soluções europeias” têm em mente.

Será que a tese da “crise da balança de pagamentos” é assim tão irrelevante do ponto de vistas das suas implicações? Julgo que não. A crise europeia relembrou-nos da importância dos défices externos; e, no processo, mostrou-nos como o sector privado pode gerar surtos de endividamento tão ou mais irracionais do que os que derivam do Estado; expôs as debilidades dos sistemas de regras rígidas dos bancos centrais (um debate antigo), que no caso da Zona Euro por pouco não levavam à implosão da moeda única; e revelou com estrondo a forma como a falta de confiança entre Estados de uma união monetária pode conduzir a dilemas do prisioneiro potencialmente destrutivos. Isto é mais do que suficiente para nos fazer repensar muita coisa (1, 2) – da regulação do sistema financeiro à integração orçamental europeia, passando pelos estatutos do BCE. Não me parece coisa pouca.

1 Este exemplo provavelmente não é o melhor, porque os grandes credores da banca irlandesa mais afectada pela crise eram sobretudo estrangeiros. Por essa razão, o resgate da banca pode ser um dos poucos exemplos em que as opções salvar/não salvar não eram tão simétricas quanto isso.  

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17 comments on “Narrativa orçamental da crise – conclusões abusivas

  1. jvgama diz:

    «Que a escassez de financiamento não tenha tido origem na irresponsabilidade do Estado é um facto absolutamente irrelevante.»

    Sim… e não.

    Eu percebo o que queres dizer, e já o tentei explicar para também ficar frustrado.
    (Principalmente em contextos onde é óbvio que todos acham a austeridade má, e não vale a pena “bater no ceguinho”, mas avançar a partir daí para respostas concretas).

    Mas por outro lado, existe uma razão pela qual não é irrelevante a causa da escassez de financiamento.

    Nós sabemos que muitas pessoas acreditam que a causa da escassez de financiamento FOI a irresponsabilidade do estado.
    Também sabemos que muito do que se passou dependeu de negociações, onde a motivação de cada uma das partes para ter um desfecho ou ou outro pode ter um impacto maior ou menor no resultado final.

    Agora vamos supor – por hipótese – que alguém com a governação a seu cargo acredita genuinamente que a causa da escassez de financiamento foi a irresponsabilidade do estado, que essa crença a poderia levar a ver certas e determinadas “reformas estruturais” impopulares como algo desejável, e que um programa de austeridade com alguma dose de “agressividade” poderia criar condições políticas melhores para apresentar essas reformas como inevitáveis.

    Nesse caso, durante as negociações, esse alguém iria chegar a um resultado diferente daquele que visse a escassez de financiamento como algo que não foi causado pela irresponsabilidade do estado, as “reformas estruturais” impopulares como um erro, e a austeridade como um absurdo.

    Agora, é verdade que a cadeia de suposições que apresentei é longa, mas nenhum dos passos me parece particularmente absurdo.
    Aliás, tanto não é absurdo que a tua posição é extremamente original. Geralmente os mesmos que apresentam a austeridade como inevitável (o que parece vir no sentido do que defendes), facilmente acabam por apresentá-la também como algo desejável que vem pôr fim a uma anterior situação insustentável. Se acreditam nisso – que a austeridade, apesar de os poder prejudicar nas eleições, é uma coisa boa para o país – então será que são as pessoas certas para estar na posição negocial de querer atenuá-la ao máximo?

    Se me disseres que vontade de atenuar a austeridade não basta, eu concordarei, e temos o caso do Syriza se provas fossem necessárias.
    Mas se me disseres que essa vontade é irrelevante, não poderei concordar.

    Se em vez disso disseres que os actuais governantes quiseram atenuar a austeridade ao máximo (nem que mais não seja por razões de índole eleitoralista) qualquer que fosse a causa que atribuíssem à anterior escassez de financiamento, eu percebo o argumento. Mas aí entramos no campo da especulação: quem acredita que o governo realmente viu a austeridade como desejável, pode preferir argumentar a respeito do óbvio (que a austeridade é má), antes da discussão mais difícil sobre como evitá-la.

    Uma analogia poderia ser a das alterações climáticas: a discussão em relação ao que fazer a seu respeito é difícil e complexa: qual a relação custo-benefício de cada medida? Deveria existir um “imposto mundial” sobre as emissões? Como lidar com os países que querem ser “free-riders”? Como estimar os danos causados pelo aumento da temperatura média do globo? Qual o impacto marginal de cada emissão?
    Mas para termos essa importante discussão, convém ter ultrapassado o “nível zero”: as pessoas que acreditam que o aquecimento global não existe, que é uma invenção/conspiração dos cientistas. Nesse caso, é importante discutir essa questão prévia.

    Eu concordo contigo que dizer “a austeridade é má” está longe de apresentar uma solução. Mas infelizmente ainda existe uma corrente significativa de pensamento que a vê como boa. Nesse sentido, importa bastante aferir a origem da escassez de financiamento.

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  2. jvgama diz:

    «#2 A acção do BCE fez baixar os juros. Logo, uma acção mais rápida e determinada podia ter dispensado a consolidação orçamental

    A questão é um pouco mais complexa. Seja qual for a razão dos desequilíbrios orçamentais – irresponsabilidade do Estado, avareza dos banqueiros, problemas macroeconómicos ou apenas muito azar – eles eram incontornavelmente reais em 2010. Toda a periferia tinha défices elevados que, se não fossem devidamente contidos, tornariam a sua dívida pública insustentável.

    O BCE poderia, ainda assim, ter assegurado juros baixos para todos? Provavelmente, sim – o poder de fogo do BCE é praticamente ilimitado. Mas, nesse caso, o BCE estaria a assumir a efectiva monetização da dívida dos periféricos, algo que não só não faz parte das suas funções como não é sequer desejável»

    Eu creio que quem faz esta crítica discorda que não fosse desejável (e aí entrará numa longa discussão a respeito de qual exactamente é o sistema mais desejável), mas poderá concordar que “não faz parte das suas funções”. Só que muitas vezes é esse precisamente o cerne da crítica: geralmente propõe-se que o BCE funcionasse de forma diferente, acusando a actual arquitectura institucional do euro de ser algo disfuncional.

    (continua)

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  3. jvgama diz:

    «#3 Se o problema foi dos bancos, os bancos que falissem

    […] Podemos discutir se a performance subsequente da Islândia é melhor ou pior do que a da Irlanda (depende sobretudo de se valorizar mais o emprego ou os salários) mas dificilmente alguém argumentaria que os islandeses conseguiram passar ao lado do problema.»

    Parece-me que com esta frase estás a aceitar a legitimidade da crítica, desde que ela não seja acompanhada do exagero/demagogia/simplificação abusiva que infelizmente está tantas vezes presente no debate político, seja em que assunto for.

    Supondo que a pessoa em causa não está prometer milagres, é perfeitamente razoável que defenda esta posição, desde que prefira a opção islandesa à irlandesa – que dê mais valor ao emprego que aos salários.

    (continua)

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  4. jvgama diz:

    «#4 Se o problema é europeu, a solução devia ser europeia e não nacional»

    «Nos primeiros dois casos, tenho alguma dificuldade em perceber em que é que isso difere da solução actual – ela é certamente mais simpática e menos dolorosa, mas não é fundamentalmente diferente; na prática, “solução europeia” é apenas uma outra forma de designar um programa de ajustamento light.»

    Se for, não me parece uma posição indefensável.
    É possível que essa posição se procure vestir como mais “radical” do que aquilo que é, mas não deixa de fazer sentido que quem considera a austeridade algo de nefasto a queira tão leve quanto possível, e defenda esta via para a minimizar.
    Como dizes logo no início, isso não depende apenas da nossa vontade, mas que ela exista é o primeiro passo.
    Poderias responder que ela já existe, mas aí voltaríamos à questão do ponto #1.

    «Já no terceiro caso e quarto casos, o tiro parece sair ainda mais ao lado. Se o problema foi de más expectativas de credores e devedores em relação ao crescimento potencial das economias periféricas (do tipo irrational exuberance), mais transferências seriam absolutamente ineficazes para o minorar – a não ser que se espere que todos os desvairos dos mercados, desde que se traduzissem em défices externos, fossem automaticamente corrigidos por transferências adicionais por parte dos países credores, o que parece insólito. Já agora, é suposto que países pobres excedentários transfiram dinheiro para países ricos deficitários, ou o princípio da transferência só funciona em certos casos?»

    Para ser franco, não percebi muito bem o teu argumento aqui.
    Podes explicar melhor?

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  5. João, respondendo por ordem:

    “Eu concordo contigo que dizer “a austeridade é má” está longe de apresentar uma solução. Mas infelizmente ainda existe uma corrente significativa de pensamento que a vê como boa. Nesse sentido, importa bastante aferir a origem da escassez de financiamento”.

    Não sei se essa qualificação será assim tão importante. Na prática, que tipo implicações práticas é que a ideia de que “Portugal gastou demais” teve? Talvez algumas reformas do processo orçamental, como a nova Lei de Enquadramento Orçamental, Lei dos Compromissos, criação de um Conselho Fiscal, melhores mecanismos de reporte, e pouco mais. Mas isto são coisas boas em qualquer contexto: mesmo que não tenha havido irresponsabilidade, penso que é pacífico que todos ganhamos em ter um Orçamento mais escrutinável (e escrutinado).

    “Só que muitas vezes é esse precisamente o cerne da crítica: geralmente propõe-se que o BCE funcionasse de forma diferente, acusando a actual arquitectura institucional do euro de ser algo disfuncional.”

    O problema é que se usa um argumento “ortodoxo” (houve um mau equilíbrio que o BCE podia ter impedido) para cavalgar uma conclusão “heterodoxa” (o BCE deve garantir financiamento aos Estados). Dizer “os resultados do OMT confirmam que o BCE devia ter agido mais cedo” é aceitável; mas dizer que esses resultados “confirmam que o BCE deve financiar os Estados” é um abuso, e é esse separar de águas que tentei fazer no post.

    “Supondo que a pessoa em causa não está prometer milagres, é perfeitamente razoável que defenda esta posição, desde que prefira a opção islandesa à irlandesa – que dê mais valor ao emprego que aos salários”

    Claro. O problema é que, na prática, a crítica tende mesmo a ser simplista e demagógica.

    “Para ser franco, não percebi muito bem o teu argumento aqui.”

    Imagina que alguém diz que:

    a) o problema do euro foi o facto de ter gerado desequilíbrios externos (défices externos);
    b) existindo um orçamento federal, esses desequilíbrios seriam automaticamente colmatados com transferências “como acontece nos EUA”;

    Isto não funciona assim. O facto de uma região ter um desequilíbrio externo não lhe dá acesso a nenhuma transferência. Quanto muito, pode haver transferências para regiões pobres, mas não há grande relação entre pobreza e défices externos. Seria insólito pedir a um país com rendimento abaixo da média para transferir € para a Irlanda só porque esta está em desequilíbrio com o exterior.

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  6. jvgama diz:

    «Na prática, que tipo implicações práticas é que a ideia de que “Portugal gastou demais” teve?»

    Infelizmente não podemos saber, com certeza, a resposta.

    Por exemplo, tomemos esta notícia: http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=26&did=77618#.UFc488wau0Y.facebook

    Se ambos tivéssemos a certeza que a austeridade é encarada como “má”, a escolha aí presente seria uma escolha estratégica, e não podemos saber se foi boa ou má.

    O que é que é mais conveniente para termos a menor austeridade possível, criar uma coligação com outros países “periféricos”, ou sabotar essa coligação e esperar ser “premiado” pelos países “pró-austeridade”?
    Não podemos saber.

    Alguém mais “internacionalista” pode ter mais tendência a preferir a primeira estratégia, mesmo que avaliasse os riscos como superiores. Mas vamos supor que agora só interessa aquilo que é conveniente para Portugal.

    Claro que podemos ter uma avaliação diferente daquela que o governo português fez. Acreditar que foram demasiados avessos ao risco, ou que conseguiram poucas concessões desta atitude “colaborante”, ou tudo o mais. Mas enquanto partirmos do pressuposto que eles querem o mínimo de austeridade, como tu partes, a convicção de que uma via diferente teria um resultado esperado superior é menos fundamentada.

    Mas se a base de apoio do governo considera que “se gastou de mais e por isso é que chegámos onde chegámos”, e em consequência quer determinadas “reformas estruturais” que só serão aceites se forem vistas como “inevitáveis”, então já temos uma boa razão para suspeitar que a avaliação feita nesse caso pode não ser aquela que minimiza a “austeridade esperada”.

    E quem diz esta decisão, diz também todo o processo negocial. É algo que é difícil avaliar, porque entra em linha de conta com muita informação a que não temos acesso.
    A única coisa que sabemos é que a motivação tem impacto no resultado, e se a motivação não é minimizar a austeridade, o resultado pode não ser esse.

    Claro que eu percebo o argumento cínico que diz que a austeridade apresenta dividendos eleitorais indesejáveis, e por isso é evidente que o governo tudo fará para minimizá-los, qualquer que sejam as suas crenças sobre as causas estruturais da situação onde chegámos. Percebo, mas não sei se concordo: muitas vezes os partidos agem de formas não alinhadas com o seu interesse eleitoral, por convicção. E por outro lado, se a austeridade traz dividendos eleitorais indesejáveis, também as reestruturações mais significativas os trazem (algo que aprendi num estudo do FMI recomendado neste blogue, já não sei qual).

    Assim, não podemos saber com certeza que os governantes têm alguma convicção relativa Às causas da austeridade que permitam ver virtudes nessa política, e que os tenham levado a desfechos negociais que trazem mais austeridade ao país. Mas muitos estão convencidos disso (para ser franco, eu entre eles).

    Se é verdade o que dizes, que considerar que a austeridade é má está a kilómetros de distância de evitá-la, talvez não deixe de ser um primeiro passo que ainda não foi dado…

    —-

    Quanto Às outras questões, pelo que já percebi, ou estamos de acordo ou tenho de pensar mais um pouco sobre o assunto (ou trazer os teus argumentos a alguns proponentes das ideias que estás a criticar, e ver o que respondem 😉 )

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  7. João,

    Depende do que consideras o objectivo da tal posição estratégica.

    Se o objectivo for não cortar um único euro na despesa pública e deixar o défice rigorosamente no mesmo valor em que estava em 2010, então concordo que o Governo não tinha esse objectivo. Mas esse era um objectivo que, à excepção de algumas vozes mais histéricas, ninguém partilhava. A maior parte das pessoas concordava que era necessário reduzir o défice mesmo que nao tivesse havido uma crise de financiamento, e tudo se resumia à velocidade desse ajustamento.

    Se o objectivo for, definido dessa forma mais restrita, como reduzir o défice de maneira menos agressiva, então parece-me óbvio que esse objectivo existia. Como prova disso temos três pedidos de flexibilização do défice, um dos quais foi rejeitado e até levou a uma reunião do Portas com a Lagarde em Washington.

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    • jvgama diz:

      Não me parece que qualquer desses extremos correspondesse aos objectivos, de acordo.

      Mas vamos supor que representantes das entidades que asseguram a “ajuda externa” preferiam ver a economia sujeita a uma contracção de 0.7% (tendo em conta as perspectivas de evolução, a probabilidade de não entrar em incumprimento, etc. este seria o valor que mais lhes interessaria).
      Como sabe que vem aí uma negociação difícil com um governo que, como sempre, vai tentar minorar esse valor, põem em cima da mesa o objectivo de 1% de contracção, para que o governo esperneie e e grite, e no fim o resultado fique por volta dos 0.7% (quando se calhar o que convinha ao país era 0.3%, se tanto).
      Agora imagina, por hipótese, que os objectivos do governo não são os tais 0.3%, mas sim uns incríveis 0.8%.

      Esta situação apanha as instituições completamente de surpresa! Os 1% foram pedidos precisamente porque expectativa seria de que o governo quisesse MENOS que os 0.7%, e não mais. Aliás, isso faz sentido já que o valor óptimo para um agente é necessariamente menor que o valor óptimo para o outro.

      Podiam esperar um espernear com objectivos entre os -1% (expansão) e os 0.6%, mas nunca 0.8%.

      Como deves imaginar, estes números são todos meramente exemplificativos, e a situação está toda muitíssimo simplificada. Não só porque além do total de contracção importa muito aferir como é que ela é feita, como também porque os representantes das instituições tinham, eles próprios, diferentes sensibilidades, estando sujeitos a lideranças elas próprias algo esquizofrénicas (o que faz sentido, na medida em que algumas delas representam instituições europeias, onde as sensibilidades têm tanto de diverso como de mutável).

      Simplificações à parte, pareceu-me num caso ou noutro que o FMI foi apanhado de surpresa pelo “voluntarismo” do nosso governo e mandou “bocas” nesse sentido.
      Um pouco como se eles defendessem os tais 0.7%, as outras instituições continuassem a defender os 1%, e o nosso governo, para espanto deles e de todos, pára de se bater aos 0.8%.
      Isto são sempre intuições e leituras incertas, mas eu fiquei com a sensação clara que o nosso governo estava tão confortável com a austeridade, que o FMI chegou a ultrapassá-lo na defesa dos nossos interesses (com uma retórica anti-austeridade com críticas implícitas à actuação subserviente do nosso governo). O que é um pouco chocante!

      Muitas vezes guardo notícias que sei que depois serão úteis para mais tarde referenciar. Não foi o caso aqui, e é possível que ao leres as mesmas notícias não fizesses as mesma interpretação (eu estava a ler as entrelinhas, e isso naturalmente é influenciado por convicções prévias, porque nós estamos sempre a usar o princípio de máxima verosimilhança para lidar com os factos que ficam “no ar”). Por essa razão, esta questão é mais subjectiva do que outra coisa.

      Mas talvez de ajude a compreender porque é que algumas pessoas consideram importante em primeiro lugar motivar a aversão à austeridade, antes de passar à questão de como o fazer.

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  8. “Simplificações à parte, pareceu-me num caso ou noutro que o FMI foi apanhado de surpresa pelo “voluntarismo” do nosso governo e mandou “bocas” nesse sentido. Um pouco como se eles defendessem os tais 0.7%, as outras instituições continuassem a defender os 1%, e o nosso governo, para espanto deles e de todos, pára de se bater aos 0.8%.”

    Há muita gente que escreveu opinião nesse sentido (Pedro Lains e quejandos), mas, tendo em conta o que se passou de facto – e aqui tenho alguma inside information – eu ficaria muito, muito surpreendido se tivesse saído alguma notícia desse género. Em todo o caso, saiu agora mesmo um livro acerca dos bastidores doa PAEF, que dá uma visão globalmente acertada daquilo que foi a posição negocial do Governo: http://www.fnac.pt/Segredos-de-Estado-Luis-Reis-Pires/a860562

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  9. Joao diz:

    So uma nota sobre a comparacao entre a Islandia de um lado e Irlanda, Portugal, etc do outro.
    Nao acho que haja um tradeoff entre salarios e desemprego, e mais simples que isso. Se os salarios caem mas o desemprego se mantem baixo entao a economia mantem-se perto do seu potencial, e a politica orcamental pode ser usada para compensar eventuais efeitos redistributivos da queda salarial (p.ex. aumentar IVA e baixar IRS). Mas se os salarios se mantem mais elevados e o desemprego sobe ha um desperdicio de capacidade produtiva (uma ineficiencia que nao existe no primeiro caso). O produto cai mais em relacao ao potencial e ha menos para distribuir entre todos.

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  10. A questão é o impacto nos termos de troca. Para analisar o poder de compra interno, tudo o que interessa é o PIB real – o valor nominal apenas nos dá a unidade de medida. Mas se quisermos saber o poder de compra efectivo, incluindo importações, então o valor do PIB nominal não é irrelevante: à partida, quanto maior ele for (mantendo a taxa de câmbio nominal constante) mais importações se pode consumir para um mesmo nível de PIB real. Isso é muito claro quando se compara os ajustamentos de Portugal em 1979/1982 e 2010/2014: a quebra do indicador “remunerações reais agregadas” foi mais ou menos a mesma nos dois casos – a diferença é que no primeiro houve maior sacrifício dos salários reais (via desvalorização) e, no segundo, da Produção (por impossibilidade de desvalorização).

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    • Joao diz:

      Pedro, onde posso encontrar esse indicador das remuneracoes reais agregadas? Gostava de saber qual e o deflator. Existe um efeito de termos de troca, sem duvida, mas ficaria surpreendido se o beneficio se aproximasse das perdas geradas pelo desemprego. Em todo o caso, mais importante que isso e que o beneficio dos termos de troca e uma transferencia entre paises – ganham uns na medida em que os outros perdem. O desemprego e puro desperdicio. Se pensarmos a nivel Europeu ou global um sistema de ajustamento com base no desemprego e inequivocamente pior.

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      • Basta usar a AMECO: 7.1 Compensation of employees e deflacionar. Eu usei o deflator do consumo privado, mas presumo que o resultado não seja muito diferente se se usar o IPC ou o deflator do PIB. http://ec.europa.eu/economy_finance/ameco/user/serie/SelectSerie.cfm

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      • Joao diz:

        Nao sei se estou a perceber bem o argumento, mas se o deflator nao interessa muito entao isso nao quer dizer que os termos de troca sao pouco relevantes?
        Pensei que a ideia era que o PIB real pode ter recuperado mais rapidamente na Islandia que nos paises do euro mas que o PIB mede o valor da producao e nao o valor dos bens e servicos que podem ser comprados com essa producao, valor esse que depende tambem do preco das importacoes. No caso das contas americanas isso corresponde a diferenca entre GDP e command GDP:
        http://www.bea.gov/faq/index.cfm?faq_id=498
        Command GDP incorpora o efeito dos termos de troca, e a diferenca entre os dois esta no deflator.
        Nao conheco os numeros de 79-82, mas tenho ideia que pelo menos na nossa crise de 83 e na Islandia a recuperacao do PIB foi mais rapida que nos paises do euro.

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  11. É um bom ponto. Não tenho resposta precisa, mas pode ter alguma coisa a ver com a forma como o IPC e o deflator ponderam as evoluções de preços. Tenho de pensar um pouco. Bom, pode ter que ver com um ponto importante: transferência de Produto do trabalho para o capital. O Wage share caiu bastante durante esse período, o que pode ajudar a explicar o paradoxo.

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    • Joao diz:

      Acho que a investigacao que existe sobre isso diz que o labor share não é em geral prociclico. Mas aí volto à ideia inicial, isso é um problema de redistribuição e não de eficiência. Pode ser corrigido via impostos.

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