A verdadeira derrota do Syriza

O acordo final que saiu do Eurogrupo gerou imensa discussão. A linguagem do documento sugere uma derrota retumbante do Syriza (ver, por exemplo, aqui). Outras leituras mais benévolas defendem que, tendo em conta as circunstâncias, o Syriza até não se saiu mal: evitou um corte brusco de financiamento e manteve aberta a possibilidade de renegociar alguma coisa daqui a uns meses.

A minha perspectiva é que o que é verdadeiramente relevante ainda não é conhecido. As dificuldades da Grécia decorrem do saldo primário que a Troika lhe exigir, e esse saldo continua, tanto quanto me apercebi, por decidir. As medidas de consolidação apresentadas por Varoufakis são mais um problema de relações públicas do que outra coisa qualquer – se as metas acabarem por ser flexibilizadas, as poupanças obtidas com estas medidas poderão posteriormente ser devolvidas.

Mas o que queria discutir neste post é uma questão um pouco diferente: tendo em conta as expectativas criadas, que tipo de acordo poderia ser considerado uma vitória?

Por exemplo, imagine-se que daqui a seis meses o Syriza consegue flexibilizar as metas orçamentais em 1 ponto percentual. Isto é uma grande vitória ou fica aquém do objectivo? Note-se que Portugal e a (Grécia pré-Syriza) já obtiveram flexibilizações bastante mais arrojadas das metas. Tendo em conta essa fasquia, uma renegociação de 1 p.p. não seria mais do que apenas recapitular uma vitória passada.

Seria uma reestruturação de dívida critério suficiente para declarar vitória? A verdade é que a Grécia já reestruturou a sua dívida em mãos privadas e obteve condições fantásticas de pagamento da dívida “oficial”. E a reestruturação foi tão grande que é quase impossível imaginar o Syriza a conseguir algo de remotamente parecido. Se a reestruturação da dívida e a mudanças das metas é a bitola, então a Nova Democracia fez um excelente trabalho.

Por que é que é tão difícil encontrar uma métrica de sucesso? Em parte, porque é difícil distinguir o que resulta da benevolência da Europa (ou da qualidade dos negociadores gregos) daquilo que são meros reconhecimentos de falhanço. Por exemplo, um défice final diferente do exigido pode significar coisas diametralmente opostas. É muito diferente uma situação em que o devedor consegue convencer (pela astúcia ou pela ameaça) a Troika a aceitar um défice mais alto de uma situação em que o devedor implementa todos os cortes e mais alguns e nem assim consegue atingir as metas. No primeiro caso, o devedor mudou as metas e evitou cortes; no segundo, teve os cortes à mesma e ainda por cima falhou as metas.

Para saber aquilo que o Syriza vai de facto conseguir teremos de esperar. Mas eu diria que, para já, tudo aponta para uma derrota em toda a linha.

A explicação é simples. A diferença entre o Syriza e os restantes partidos não consistia tanto no voluntarismo com que queriam (ou não) consolidar as contas públicas – o anterior Governo também tentou suavizar as metas, e certamente que não subia impostos por sadismo. A diferença entre ambos esteve sempre na via que propunham para lá chegar. PASOK e Nova Democracia, conscientes de que a falta de financiamento lhes tirava força negocial, dialogaram com a Troika e tentaram soluções de compromisso. Já o Syriza preferiu franzir o cenho e difundiu a ideia de que a austeridade era uma questão de escolha unilateral, que podia ser facilmente contornada com alguns gritos no Eurogrupo.

As coisas revelaram-se bastante diferentes. Mais relevante do que não ter conseguido – pelo menos para já – qualquer concessão que se veja, o Syriza não conseguiu ser capaz de fazer valer a tese de que a ameaça e o confronto eram armas negociais válidas. A retórica inflamada ficou-se pelo Parlamento e pelos jornais (sobretudo gregos) e o Syriza acabou, aparentemente, a mendigar de mão estendida.

E o mais extraordinário é que a Grécia estava em melhor posição do que qualquer outro país para adoptar uma postura agressiva. Tinha um saldo primário confortável, uma Governo com imagem de radical e disposto a tudo (o que credibilizava as suas eventuais ameaças) e um apoio quase unânime a algumas das suas pretensões menos radicais (como, por exemplo, a de flexibilização das metas do défice). Que tantas condições favoráveis tenham redundado em tão poucos resultados concretos não pode deixar de ser visto como uma derrota estrondosa. Independentemente do que vier a ser obtido daqui a quatro meses, uma coisa já se tornou clara: as opções, para quem não tem dinheiro, são mesmo limitadas.

A ironia trágica desta situação é que toda agressividade que o Syriza colocou na campanha eleitoral, não tendo conduzido a nenhum reforço do seu poder negocial, virar-se-á agora contra si. Neste momento, o Syriza é visto na Europa como uma força muito pouco confiável, o que limita a gama de acordos possíveis e o envelope financeiro a que o país poderá aspirar. E todas as concessões por parte da Europa – mesmo aquelas com as quais todos, ou quase todos, estariam de acordo – serão agora mais difíceis de conseguir, por receio de que sejam vistas como uma vitória deste tipo de retórica.

P.S.- Terminar com uma citação própria é de uma gabarolice insuportável. Mas, depois de ter andado quase dois anos a bater na mesma tecla, também é de um gozo irresistível. “Parece haver uma dificuldade gritante por parte de muitos observadores em perceber o papel que a credibilidade tem numa situação de negociação em situação de incerteza. Grande parte das críticas à actuação do antigo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, resulta do facto de não se perceber que as concessões são como os aumentos salariais: não se exigem com ameaças, conquistam-se com trabalho”

Anúncios

One comment on “A verdadeira derrota do Syriza

  1. Joao diz:

    A proposito da gabarolice: exactamente! O que nao se ouve mas e evidente e que este acordo e uma vitoria em toda a linha da estrategia de Vitor Gaspar. Durante os ultimos nao paramos de ouvir que era preciso era “murros na mesa”, fazer frente aos alemaes, accao politica na Europa etc. E agora vemos que o governo grego, que fez tudo o que os autores desses manifestos sonhavam, conseguiu menos concessoes que Vitor Gaspar, com a agravante de ter feito os juros voltarem a disparar e uma fuga de depositos que deixou os bancos ainda mais vulneraveis. Entretanto, em Portugal nao se cumpriu uma unica vez o objectivo de saldo primario do programa (nem se vai cumprir no futuro) e os juros cairam a pique.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s