Na cabeça do Syriza

Não é muito fácil perceber o que vai lá por dentro. À partida, o Syriza podia jogar a cartada do louco: utilizar o seu saldo primário para ameaçar um default e a fragmentação da Zona Euro, obtendo financiamento pela chantagem. Ou podia aproveitar as expectativas irrealistas criadas com a sua eleição para adoptar uma postura responsável e procurar uma solução de compromisso com a Alemanha (quanto mais pressão houvesse para exigências irrealistas, mais fácil seria ganhar credibilidade através de uma proposta moderada).

Mas a actuação do Syriza parece demasiado errática para se enquadrar em qualquer uma destas alternativas. Num dia, o ministro das Finanças dispensa a Troika e anuncia uma nova era; no seguinte, caminha de mão estendida a pedir um novo empréstimo da Zona Euro. O Governo tanto apresenta propostas realistas e razoáveis de reestruturação da dívida como abre os noticiários com discursos inflamados no Parlamento. O que é que se passa na cabeça do Syriza? Uma resposta possível, por Tony Yates: Syriza’s communication strategy.

1.  There is a remarkable amount of cross-section variation (ie across different Syriza representatives) and time-series variation in what is being demanded or proposed.  We have had variation on how to treat legacy debt;  the difference between G and T going forwards (the primary surplus), and even who would be dealt with.

2.  This makes me think that they had not thought through clearly what they would say they would do or wanted, nor what they would actually do and accept.

3.  If that’s the case, perhaps they were caught out by how many seats they won, and had only wargamed on the assumption that they would have to form a centre-left coalition and water down their demands at the outset, at the point of coalition-formation, ie before confronting the Troika.

4.  If 3 was right, that would account for why the detail behind the more robust demands was not there, and why the tough line was hard to maintain.

5.  All this is a shame, because as many have observed, even if there is an agreement to be had, the dispute could still end in Grexit by accident.

6.  And there is no real excuse for not being prepared.  There was and is plenty of free help around to plan everything thoroughly.

7.  I’d say that this cross-section and time-series  variability in Syriza demands makes a bad outcome more likely.

8.  The Troika might take it as a sign of weakness, take heart, and try to ram home a solution too close to the status quo, which ultimately fails.

9.  Or this could be a sign Syriza don’t really know what they would settle for, nor what they could deliver.

10.  A more forgiveable reason for the shifting talk is that what can be delivered, or what might have to be accepted is shifting, as capital flows out of Greece, and tax collection collapses.

11.  You can see how this creates an unfortunate feedback loop.  Uncertainty about what Syriza wants causes capital to fly, taxes to fall, which causes what Syriza can achieve/deliver to scale back, which causes the rhetoric to change, and so on.

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4 comments on “Na cabeça do Syriza

  1. “Num dia, o ministro das Finanças dispensa a Troika e anuncia uma nova era; no seguinte, caminha de mão estendida a pedir um novo empréstimo da Zona Euro.”

    Pelo que eu percebi, a troika que o governo grego dispensou não foi a Comissão Europeia, o FMI e o BCE; foi mesmo aquele grupo de três pessoas físicas que iam falar com o governo grego em representação da CE, do FMI e do BCE; isto é, não foi uma proclamação de independência (“não precisamos mais de vocês”) mas de igualdade de estatuto (“o governo grego agora fala diretamente com os orgãos dirigentes da CE, do FMI e do BCE, não com funcionários subalternos”).

    De qualquer forma, temos que ver que estamos a falar de um mistura de:

    – socialistas, ex-eurocomunistas e “movimentistas” que querem fazer a União Europeia virar à esquerda

    – maoistas e ex-comunistas ortodoxos que querem sair do euro e provavelmente também da UE

    – trotskistas que querem provocar uma crise revolucionária na UE, estando dispostos a serem corridos do euro se a coisa correr mal (isto é, se a mobilização popular das massas europeias em defesa da Grécia contra os seus respetivos governos não aparecer)

    A primeira componente é maioritária na direção, mas suponho que as outras tenham deputados suficientes para fazer cair o governo se desertarem.

    Como eu escrevi em tempos, o Varoufakis tem que, ao mesmo tempo, dar a entender que está a recuar e dar a entender que não está a recuar.

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  2. jvgama diz:

    Posso não estar tão informado a respeito da actuação do Syriza, mas o que tenho visto não me tem causado esta estrenheza.

    Por um lado tenho visto o “adoptar uma postura responsável e procurar uma solução de compromisso com a Alemanha” (caramba, considerar 70% do programa aceitável, antes sequer do fim das negociações), mas por outro lado, perante a inflexibilidade da Alemanha (ou outros parceiros do tipo), têm necessariamente de voltar a ameaçar a “cartada do louco”.

    Se perante a inflexibilidade da Alemanha mantivessem a “atitude responsável”, então é evidente que as negociações resultariam num fracasso em toda a linha.
    Assim, talvez consigam, talvez não.

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  3. Miguel,

    Concordo com todos os seus pontos. Mas parece-me que eles são mais uma razão para a aparente inconsistência do Syriza do que uma refutação da mesma. (Tal como a questão das “necessidades ambivalentes” do Varoufakis)

    Em relação à Troika, não sei até que ponto a posição do Syriza é mesmo essa. Mas tendo em conta a dificuldade em comunicar de forma clara nestas alturas, admito que tenha razão.

    João,

    A cartada do louco não surgiu como reacção à inflexibilidade da Alemanha. Essa cartada tem sido jogada sucessivamente, alternando com a tal posição mais moderada e responsável. O que é estranho, porque ambas as estratégias podem ter bons resultados, mas as duas ao mesmo tempo são a receita para o desastre.

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    • jvgama diz:

      Serão a receita para o desastre?

      Sempre ouvi dizer bem da estratégia do “polícia bom”, “polícia mau” 😉

      Infelizmente, nem o desfecho das negociações, seja ele qual for, permitirá saber se esta estratégia era boa ou má.
      Mas a mim não me parece absurda.

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