Bloqueios e soluções

(Depois de ler estas pérolas pensei que não ia escrever o assunto. Bom, talvez tenha dois cêntimos para acrescentar ao debate)

Em economia, como em saúde, há vários tipos de problemas (ou bloqueios). Muitos bloqueios são meros problemas de conhecimento. Há questões às quais simplesmente não sabemos dar resposta. É o caso do cancro e do crescimento de longo prazo: não sabemos como fazer os países cruzarem a fronteira do desenvolvimento, da mesma forma que não sabemos curar o cancro. A solução é esperar e ser paciente. No limite, investir mais em investigação e conhecimento.

Um segundo tipo de bloqueio resulta de interesses divergentes. Imagine-se que a cura para o cancro existe, mas é excessivamente cara e só está ao alcance de uma elite. Em bom rigor, seria possível garantir o acesso indiscriminado à cura, bastando para isso lançar os impostos suficientes. O bloqueio que impede essa universalização é a falta de vontade da elite de financiar as necessidades dos mais necessitados.

Finalmente, há um terceiro tipo de bloqueio: a cura existe, não há problemas de interesses divergentes (seja porque eles estão alinhados, seja porque uma parte não depende da outra), mas, por alguma razão insondável, ela não é reconhecida como tal. Chamemos-lhe um bloqueio psicológico, ou cognitivo, por resultar de alguma forma de “cegueira temporária”. Este é o caso de alguém que pode curar um problema de saúde com um medicamento facilmente acessível, mas insiste em mezinhas ou rezas ao santo preferido.

A insistência da Alemanha em forçar reformas estruturais pela goela abaixo da generalidade da Europa, ao mesmo tempo que recusa expandir a sua procura interna e vota contra o activismo do BCE, enquadra-se mais facilmente num bloqueio deste último tipo. A Alemanha está pura e simplesmente enganada, mas, por algum preconceito difícil de compreender, está a caminhar para o precipício pelo próprio pé – e a arrastar a Europa com ela. Neste caso, o bloqueio pode eventualmente ser vencido pela crítica, pelo escândalo e pela ironia: a certa altura, nem o doido mais empedernido aguenta ficar isolado.

Mas uma boa parte dos bloqueios dos últimos anos – e que perduram até hoje – não resultam de falta de conhecimento ou de enviesamento cognitivos. Resultam de interesses divergentes: em particular, da falta de disponibilidade dos países credores europeus para continuarem a financiar os países devedores. É por essa razão que a polémica dos multiplicadores teve tão pouco relevo na gestão europeia da crise. Portugal e Grécia berraram a plenos pulmões que o FMI havia provado que a austeridade afectava mais a economia do que se pensava; absolutamente verdade, mas não resolvia o problema de esse efeito só poder ser obviado com mais dinheiro alemão (mais défice implica mais financiamento). Por essa razão, o apelo caiu sempre em saco roto.

Relativamente a estes bloqueios, a gritaria e a indignação não podem fazer muito. Não vale a pena lamentar, ou denunciar, “o primado do interesse próprio” na Europa: o instinto de auto-preservação não é algo que desapareça por mera pressão social. Para que os bloqueios possam ser ultrapassados, é necessário que os interesses sejam lentamente realinhados, de modo a tornar os alemães mais sensíveis ao desemprego grego e os gregos mais alerta às dúvidas (legítimas) de quem lhes emprestou dinheiro.

Isto exige, antes de mais, uma posição de abertura ao diálogo por parte do Syriza. É preciso admitir concessões, estar disposto a entrar em longos processos negociais e evitar ostracizar os responsáveis europeus – a postura oposta à qual todos esperam que o Governo adopte (e para a qual se sentirá naturalmente inclinado). Por essa razão, os próximos tempos poderão marcar a gasparização do Syriza – uma aproximação lenta e gradual à posição dos credores, ancorada num forte compromisso em relação ao futuro.

Agora, uma coisa curiosa. O ministro português sinalizou esse compromisso através de um discurso ortodoxo. O objectivo, provavelmente, era assumir no imediato os custos políticos da austeridade, esvaziando as expectativas a médio prazo e diminuindo, assim, o potencial para futuras pressões. Para um partido como o Syriza, que ganhou as eleições com base na ideia de bater o pé à Troika, sinalizar o mesmo compromisso será bastante mais difícil. Veremos o que é que Varoufakis vai pôr em cima da mesa para credibilizar a promessa de nunca mais ter défices primários (e veremos ainda de que forma será apresentado ao público grego o “negócio” que inevitavelmente terá de ser feito).

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2 comments on “Bloqueios e soluções

  1. Eu tenho a ideia (mas já não me lembro onde vi isso) que ele falou em nunca mais ter deficits primários, o que não é exatamente a mesma coisa (e, aliás, faz mais sentido no contexto do programa do Syriza).

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