Desemprego finalmente explicado

No final de 2014 perdi algum tempo a tentar perceber a origem da surpreendente descida a pique do desemprego (tão surpreendente que gerou as mais variadas teorias da conspiração). Uma explicação simples que me ocorreu é que tudo poderia resultar de um mero ‘regresso ao normal’.

A ideia era simples. Apesar de hoje não se falar muito disso, desde 2010 a 2012 que o desemprego aumentou muito mais do que o previsto pela Troika (e por toda a gente, já agora) e do que seria justificado pela dimensão da recessão. O Governo publicou um relatório sobre o assunto, cuja referência não consegui localizar, e o Banco de Portugal também se interessou pelo assunto.

Seria portanto plausível que os desenvolvimentos recentes do mercado laboral não representassem mais do que a convergência da taxa de desemprego para os valores que seriam previsíveis tendo em conta os fundamentais da economia. Deste ponto de vista, a dinâmica observada seria apenas uma correcção de um distúrbio anterior.

Obviamente, a resposta obrigava a colocar uma nova pergunta: por que razão tinha o desemprego subido tanto antes de 2013? Mas julgo que este é o tipo de quebra estrutural para a qual não seria difícil encontrar explicações plausíveis – entre a possibilidade de saída do euro até às expectativas de uma espiral recessiva haveria muito por onde escolher. Transferir a pergunta de um sítio para outro não seria problemático, desde que a transferência se faça para um local onde é mais fácil encontrar respostas.

Um dos argumentos era o quadro de baixo, que estima uma relação entre a variação do PIB e a variação do emprego para o período de 2000 a 2008. Os pontos a verde são os trimestres de ‘recuperação do emprego’ (meados de 2013 em diante); estes pontos ficam acima da recta, o que significa que o emprego cresceu mais do que seria esperado. Mas isto é pouco surpreendente tendo em conta que, no período anterior (2009 a meados de 2013) o emprego também caiu muito mais do que era previsto.

Lei de Okun

Outro argumento tinha que ver com o carácter sistemático da revisão das previsões para a taxa de desemprego, consistentemente em alta de 2009 a 2013, e consistentemente em baixa daí em diante – mesmo quando o crescimento do PIB era entretanto revisto em baixa. Mais interessante ainda, era possível fazer alguns cálculos para mostrar como o emprego estava a caminhar lentamente para o nível que devia ter tendo em conta a associação histórica entre esta variável e o PIB.

Infelizmente, apaguei os cálculos em sequer, e neste momento (já) não vale a pena replicá-los. É que o Banco de Portugal, no último boletim económico (p. 26), analisou precisamente esta questão e forneceu uma óptima explicação para a descida abrupta do desemprego.

Segundo o BdP, a explicação poderá estar numa alteração recente da base de amostragem utilizada no Inquérito ao Emprego, que terá contaminado os resultados da taxa de desemprego. Para anular esse efeito, os economistas do BdP avaliaram o emprego através de indicadores alternativos, que não estão sujeitos a este problema, e expurgaram os estágios profissionais patrocinados pelo IEFP. E concluíram que:

(…) o emprego privado por conta de outrem estará a apresentar uma recuperação desde o terceiro trimestre de 2013, mas mais moderada do que a sugerida pelo Inquérito ao Emprego. Para este acréscimo do volume de emprego estão também a contribuir as políticas ativas de emprego, em particular os estágios profissionais. Em contraste, o emprego nas administrações públicas apresenta uma tendência descendente. Neste contexto, a evolução do emprego por conta de outrem terá mantido uma evolução globalmente consistente com a atividade económica.

A análise não é muito fácil de interpretar, porque debruça-se apenas sobre uma parte do mercado laboral (emprego privado por contra de outrem), deixando de fora o autoemprego e os empregos públicos. Em princípio, seria possível usar os dados do BdP para construir uma taxa de desemprego ‘ajustada’, mas como os números brutos não foram disponibilizados, esse exercício é impossível.

Em todo o caso, é bom ver o BdP a lançar alguma luz sobre um tema que gerou tanto nonsense no último ano.

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5 comments on “Desemprego finalmente explicado

  1. jvgama diz:

    Imagino que uma razão para o desemprego ter ficado mais sensível ao PIB do que aquilo que era antes é o ter procurado “flexibilizar” (facilitar) os despedimentos – diminuição de indemnizações, etc… Essa alteração facilita a contratação e o despedimento, pelo que fazê-la em plena recessão é uma asneira “colossal”.
    Seria de esperar que, numa fase em que se despede mais do que se contrata, essa tendência fosse anormalmente acentuada pela alteração legislativa. No entanto, passada essa fase, ela realmente facilita a contratação e pode ajudar a uma recuperação mais rápida (o que não quer dizer que seja uma boa ideia…).

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  2. Não me parece, porque os desvios começaram bem antes das alterações legislativas (e mesmo depois das alterações entrarem em vigor penso que é suposto passar algum tempo até que isso tenha tradução no terreno).

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  3. jvgama diz:

    Logo em 2011, poucos meses depois do governo de Passos Coelho tomar posse, foi aprovada a lei n.o 53/2011, que diminuía significativamente as indemnizações por despedimento. É verdade que posteriormente surgiram muitas outras também no sentido de alterar o código do trabalho (lei n.o 3/2012, lei n.o 23/2012, lei n.o 47/2012, lei n.o 69/2013, lei n.o 76/2013), mas essa de 2011 já terá tido algum grau de antecedência às maiores surpresas quanto ao enorme desvio do desemprego face aos que queriam as previsões baseadas na lei de Okun. E vendo bem, se estas alterações (as de 2011 e depois as outras) não tivessem tido este efeito é que seria de espantar. Isso exigiria sem dúvida uma explicação.

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  4. A quebra da regra de Okun já vinha desde 2008, e acentuou-se consistentemente a partir daí. Não digo que seja impossível, mas parece-me que essa ideia será mais uma racionalização após facto.

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  5. jvgama diz:

    Eu supus que isso viesse a acontecer quando eles diminuíram as tais indemnizações, e meses depois lembro-me de notícias segundo as quais o desemprego era muito superior ao previsto, mesmo atendendo à contracção (também superior ao previsto) – a economia tinha contraído mais que o previsto, mas o efeito no desemprego tinha sido desproporcionadamente alto.
    Não fiz nenhum estudo econométrico, mas fiquei com essa impressão na altura. Agora estas notícias do desemprego diminuir mais que o previsto parecem confirmar a ideia (que aliás seria a intenção suposta dessas alterações à lei laboral, facilitar as contratações…).

    Se o efeito já vinha de 2008 esta tese sai enfraquecida, mas não foi uma tese a posteriori. Se dizes que o efeito se intensificou, talvez a tese acerte em cheio. Depende de quanto é que se intensificou.

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