Somos todos keynesianos*

Um artigo interessante de Alexandre Abreu no Expresso: Keynes e os seus herdeiros. Um alerta ao leitor: o trecho citado não representa a ideia mais importante do texto – é só a ideia que me interessa, e que queria discutir aqui.

Keynes é com certeza um dos economistas mais conhecidos do público em geral (…) É sintomático o facto de ter dado o nome não só a uma corrente do pensamento económico, como a algo ainda mais geral: um entendimento das economias modernas como sendo afectadas por crises e recessões que podem ser mitigadas ou ultrapassadas através da actuação das políticas públicas (…)

A visão da economia esboçada no parágrafo anterior é hoje em dia considerada heterodoxa em termos de teoria económica, pois a visão clássica, para a qual o equilíbrio entre oferta e procura é um ponto de partida, reconquistou o predomínio na academia da década de 1970 em diante. Ao nível da política económica, porém, é tácita ou explicitamente aceite por todos: por mais conservador que seja, não há banqueiro central que não reconheça que a expansão da oferta da moeda estimula a economia; não há ministro das finanças que não saiba que os aumentos de impostos têm um efeito recessivo (…)

Este desfasamento entre as visões dominantes a nível teórico, por um lado, e aplicado, por outro, é surreal mas verdadeiro: é como se os engenheiros desenhassem satélites com base no reconhecimento de que a terra gira em torno do sol, ao mesmo tempo que a astrofísica dominante insistisse que é o sol que gira em redor da terra (…)

Este anacronismo é preocupante. Ou seria, se fosse real. Mas há uma explicação mais parcimoniosa para esta suposta incoerência, e que não obriga a presumir alguma forma aguda de dissonância cognitiva na generalidade dos policy-makers. A explicação é simples: se quem está à frente dos bancos centrais e dos Governos se parece com um keynesiano, age como um keynesiano, e pensa como um keynesiano, talvez seja mesmo um keynesiano.

Reconheço que no debate ‘popular’ do tema seja fácil confundir as coisas. No imaginário dos leigos, o keynesianismo é vagamente identificado com um Estado grande, Segurança Social, regulação de mercados, salário mínimo. E admito que Keynes tenha, em algum ponto da sua vida, defendido estas opções – entre outras igualmente defensáveis, como o mercantilismo, uma moeda universal e o apelo estético de um bigode proeminente. Mas a macroeconomia keynesiana não é isto.

Portanto, começo por propor uma definição que me parece mais ou menos consensual. De forma resumida, o pensamento keynesiano defende que: i) as economias podem passar por períodos prolongados em que a actividade económica está abaixo do seu potencial e em que há desemprego involuntário; ii) estas recessões são, ou podem ser, provocadas por uma contracção da procura, que de facto afecta a quantidade de bens e serviços produzidos – isto é, a Lei de Say não é válida; c) os problemas podem ser evitados, ou pelo menos largamente minorados, através da política monetária e da política orçamental.

Admito que haja alguém algures que não concorde completamente com a definição, mas acho que ela é bastante razoável. Em primeiro lugar, porque captura bem os principais pontos de discórdia relativamente aos clássicos contra os quais a Teoria Geral foi escrita; em segundo lugar, porque, francamente, resulta da leitura que eu faço da Teoria Geral – que, apesar de duro e pesado, não é  tão cabalístico quanto se costuma dizer. Em terceiro lugar, e não menos importante, porque é mais ou menos esse o resumo que Paul Krugman faz do livro.

Definido desta forma, o keynesianismo não só é comummente aceite na academia como é, de facto, absolutamente mainstream. Ao nível introdutório/intermédio, julgo que todos (ou quase todos) os cursos de macroeconomia utilizam ‘a Bílbia’ (Samuelson) ou alguma das versões dos manuais de Greg Mankiw e Olivier Blanchard**. Qualquer um dos três explica o funcionamento da macro com recurso a conceitos keynesianos (procura efectiva, preferência de liquidez, etc.), devidamente enquadrados pelo primeiro modelo keynesiano formalizado, o IS-LM.

À medida que progride nos estudos, o estudante pode entrar em contacto com modelos mais complexos. Se chegar ao nível do doutoramento, eventualmente vai lidar com a classe ‘topo de gama’ conhecida como DSGE, e aqui há duas escolas. A primeira é claramente ‘clássica’ nas suas implicações: a política monetária só afecta os preços, as recessões são causadas por choques de produtividade, etc. A segunda, por sua vez, conserva uma boa parte das conclusões keynesianas (razão pela qual se chama, muito apropriadamente, de neokeynesiana).

Qual é a preponderância relativa de cada classe? Nos bancos centrais e organismos internacionais, pelo menos, a segunda escola é claramente maioritária – para não dizer completamente hegemónica. Por exemplo: o FMI utiliza um DSGEE assumidamente neokeynesiano, o GIMF. O BCE usa o EAGLE, a Comissão Europeia usa o QUEST III, e o Banco de Portugal utiliza o PESSOA. Não é de espantar que os bancos centrais ajam como keynesianos. A prática limita-se a recapitular o que diz a teoria.

Na academia, é possível que a hegemonia seja menor. Só por curiosidade, fui ao ranking de citações do REPEC ver quem lá estava nos 50 primeiros. Há reputados neokeynesianos, como Blanchard, Mankiw, Stiglitz, Rogoff, Krugman, Summers, Bernanke, Woodford. Mas também há alguns assumidamente neoclássicos (Prescott) e outros que, presumo, não subscrevem um ou dois dos três pontos que constam da ‘minha’ definição de keynesiano (Barro, Lucas). Sobre este assunto, ler este post de Noah Smith.

No geral, porém, acho que isto não altera a conclusão de fundo: a ideia de que a procura conta, e que as autoridades podem contrariar choques externos, é a coisa mais banal no campo da macroeconomia. Para todos os efeitos, hoje somos (quase) todos keynesianos. Saibamo-lo ou não.

* Frase roubada a Milton Friedman.

** Mankiw e Blanchard fornecem um capítulo inteiro com uma lista das conclusões consensuais em macroeconomia e outra lista com os tópicos em disputa. A natureza ‘keynesiana’ da macroeconomia é apresentada por ambos como um facto estabelecido.

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6 comments on “Somos todos keynesianos*

  1. jvgama diz:

    A minha experiência como aluno de mestrado em “economics” do ISEG é a seguinte: na licenciatura keynes tem a “última palavra” (em macroeconomia), mas chega-se ao mestrado e Lucas é quem tem a última palavra (pelo menos em macroeconomia do primeiros semestre). Um dos dois professores lá deixa escapar que aquilo é tudo “treta” e que o Picketty já demonstrou que não podemos usar uma Cobb Douglas, que o alpha não é constante. Mas fora esse comentário discreto que não me passou despercebido o programa é claro: acabamos nos anos 70-80, expectativas racionais e o “evangelho” de Lucas.
    Claro que ainda faltam as cadeiras dos outros semestres, e não sei onde é que a coisa vai ficar. Mas existe quem se queixe que o programa do ISEG é pouco “aberto” às chamadas “perspectivas heterodoxas”, pelo menos entre os alunos.

    Agora, se isto é assim no ISEG (com o Louçã, Ferreira do Amaral, etc. como docentes), imagine-se a Nova, Católica, etc…

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  2. Miguel Carvalho diz:

    Pedro, obrigado por este post – vai-me poupar muito trabalho no futuro.

    Queria deixar um inquérito que mostra o quão hegemónico é o modo de pensar (neo)keynesiano na academia. Trata-se do IGM Forum, organizado pela Chicago Booth School of Business (logo quem), que questiona regularmente dezenas dos mais famosos economistas da academia, de várias universidades. Neste caso em concreto, a pergunta era sobre o estímulo orçamental de Obama e o seu impacto no desemprego. Apenas 2% acha que não houve um impacto positivo.

    http://www.igmchicago.org/igm-economic-experts-panel/poll-results?SurveyID=SV_5bfARfqluG9VYrP

    Por último, dê uma olhada nos seminários de macroeconomia organizados pelo Banco de Portugal. Não me recordo de nenhum (nos casos relevantes obviamente) onde a abordagem não fosse neo-keynesiana.

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  3. Penso que há uma parte não citada do texto que provavelmente contribui para o Alexandre Abreu achar o keynesianismo mais heterodoxo do que provavelmente é – a sua visão de que a macro-economia keynesiana e a mico-economia neo-clássica são logicamente incompatíveis; logo, mesmo que nas universidades se ensine o keynesianismo, enquanto na micro-economia só se se ensinar o neo-classisicmo, o keynesianismo ensinado será sempre algo “coxo”.

    Uma opinião pessoal sobre essa suposta “contradição” – no geral já duvido que ela exista (o neokeynesianismo com fricções já me parece suficiente para harmonizar os dois), e no caso especifico da situação keynesiana mais radical (o cenário da armadilha da liquidez/zero-lower bound) suspeito que nem há contradição nenhuma (acho que o cenário da ZLB não precisa de sticky prices para nada, logo se calhar é compatível com o neo-classicismo puro e duro)

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    • Aliás, pensando melhor, a partir do momento em que o banco central deixa de determinar a quantidade de moeda em circulação para passar a determinar a taxa de juro, pasando, ao contrário do modelo keynesiano que aprendi, o “i” a exógeno e o “M” a endógeno (o que significa que, na verdade, a curva LM é sempre horizontal, só aparecendo nos gráficos como crescente usando aquilo a que penso que é o que Nick Row se refere como a “conspiração dos novos keynesianos”*), se calhar a questão dos sticky prices já não interessa mesmo para nada…

      *http://worthwhile.typepad.com/worthwhile_canadian_initi/2014/05/the-new-keynesian-conspiracy.html

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  4. João,

    Vale a pena esperar pelas cadeiras seguintes. Se de facto não falarem do modelo NK acho que chegamos a uma conclusão um bocado estranha: que a política de estabilização é apresentada como ‘toda poderosa’ na licenciatura, que desaparece no mestrado e que surge novamente no doutoramento. Bom, respeita a cronologia da história intelectual, mas em termos pedagógico se calhar devia ser repensado.

    Miguel Carvalho,

    Pois. O IGM é um óptima forma de apurar directamente a opinião maioritária. Mas no caso concreto dos EUA (onde houve pelo menos três Nobel – Fama, Lucas, Prescott – a dizer que era logicamente impossível o ARRA ter qualquer impacto) até acho estranho o grau de consenso. Anyway, só reforça o ponto.

    Miguel Madeira,

    A mim faz-me sempre muita confusão a suposta contradição entre os dois. De onde vêm os choques que causam a recessão, ou que adiam a recuperação? Se vêm de algum sítio bem identificado, então à partida devem ser modelizáveis a nível microeconómico. Caso contrário, não são modelizáveis mas também não devem ser integrados na macroeconomia

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