Dinheiro de helicóptero

Por que é num momento de crise económica o banco central não se limita a imprimir dinheiro e a entregá-lo às famílias? Esta é a pergunta ingénua que qualquer leigo faz quando toma consciência da existência de bancos centrais e moeda fiduciária. Há duas respostas possíveis. A resposta ingénua é que isso causa inflação e portanto é ineficaz. A resposta correcta é que os bancos centrais já fazem isso – mas operacionalizam a ideia de uma forma economica mais apropriada e politicamente menos controversa: manipulando as taxas de juro em vez de enviar cheques para o contribuinte.

E quando as taxas de juro atingem o zero? Até agora, tem havido várias sugestões – algumas efectivamente postas em prática (forward guidance, quantitative easing) e outras que não saíram do papel (subir a meta da inflação, ou algo como o NGDP targeting). Mas ninguém se lembrou da solução de último recurso: imprimir dinheiro e entregá-lo pura e simplesmente às famílias ou ao Governo, contornando assim o sistema financeiro e indo à raiz dos problemas.

Isso parece estar a mudar. Sobre o tema, ler no Vox Helicopter money e Thinking the unthinkable: the effects of a money financed fiscal stimulus, de Jordi Gali (e reler o debate de 2012 sobre o mesmo tema no Mainly Macro).

As I show in my recent paper, when I deviate from an ideal classical world and use instead a more realistic model allowing for imperfect competition and nominal wage and price rigidities to evaluate the impact of a money-financed fiscal stimulus, the effects are very different.

  • Such an intervention is predicted to have very strong effects on economic activity with relatively mild inflationary consequences spread over several years.

The large increase in activity is due to a crowding-in of private consumption and investment, caused by the persistently lower real interest rates due to higher expected inflation.

  • The debt-GDP ratio is also predicted to go down over time, largely as a result of the lower interest rates.
  • Finally, if output is sufficiently below its efficient level, a money-financed fiscal stimulus is shown to raise welfare even if based on purely wasteful government spending.

A fiscal stimulus programme that focuses on productivity-enhancing public investment projects would likely have even more desirable effects.

The previous predictions contrast with the experience with quantitative easing and other unconventional monetary policies, which do not affect aggregate demand directly and which, as a result, have failed to jumpstart the depressed economies of many countries, especially in the Eurozone. An additional advantage of a money-financed fiscal stimulus, particularly relevant for a monetary union, is that the associated increase in government purchases may be targeted at the regions with higher unemployment and lower inflation (or higher risk of persistent deflation).

The time may have come to leave old prejudices behind and come to terms with the urgent need to increase aggregate demand in a more foolproof way than tried up to now, especially in the Eurozone. The option of a money-financed fiscal stimulus should be considered seriously.

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11 comments on “Dinheiro de helicóptero

  1. Carlos Duarte diz:

    Caro Pedro Romano,

    Existe uma diferença: quando o Banco Central o faz, fá-lo através de bancos, pelo que o dinheiro chega aos “cidadãos” (aqui num termo lato, incluíndo empresas) por via de um intermediário que tem a sua “comissão” (ou spread). Ora os spreads são de tal maneira elevados que, de facto, a alteração de taxa tem um impacto relativamente reduzido, salvo nos créditos contratados no passado. Ou seja, alivia a situação de quem se encontrava endividado mas restringe novo individamento. Se isto é bom ou mau, é outra história.

    No entanto, se o recurso à banca no caso do retalho é compreensível (os bancos centrais não têm nem podem ter capacidade de avaliação de risco para um universo dessa ordem), o mesmo já não é compreensível para Estados e a questão que se põe é simples: por que razão não pode, p. ex., o BCE emprestar a Estados Soberanos?

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  2. Joao diz:

    “The large increase in activity is due to a crowding-in of private consumption and investment, caused by the persistently lower real interest rates due to higher expected inflation”

    Nao vejo diferenca entre isto e forward guidance, aumentar o alvo da inflacao ou NGDP targeting. Todos tem em comum o objectivo de aumentar as expectativas de inflacao numa armadilha de liquidez, o que por sua vez depende do comportamento futuro do Banco Central, apos o fim da armadilha de liquidez. Se o Banco Central hoje lancar dinheiro do helicoptero mas as pessoas anteciparem que mais tarde vai subir as taxas de juro para nao deixar subir a inflacao, o efeito e nulo.
    Um bom texto que li uma vez sobre este assunto:
    http://mattrognlie.com/2011/10/26/the-uselessness-of-helicopter-drops/

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    • Penso (mas posso estar a ver mal a coisa) que os mecanismos não serão tão semelhantes quanto isso.

      No caso do forward guidance, NGDP targeting e afins, o BC a política monetária perde efectivamente ‘tracção’ à economia real, porque o ‘instrumento de estímulo’ (taxa de juro) atingiu o seu nível mínimo. Tudo o que o BC pode fazer é prometer inflação mais alta no futuro, mas a materialização efectiva desta inflação depende sobretudo de os agentes considerarem que esse cenário vir a acontecer e incorporarem-no nas suas expectativas. Se as expectativas não mudarem, então qualquer opção é ineficaz.

      No caso do helicopter money, o dinheiro ‘apanhado’ pelos transeuntes relaxa a sua restrição orçamental e permite aumentar a procura sem a necessidade de afectar a taxa de juro. Claro que os agentes económicos têm de assumir que esta operação não será mais tarde contrariada por uma subida das taxas de juro, mas também não vejo nenhuma razão para que o façam. Se o PIB está abaixo do potencial, por que deveriam eles esperar que o BC subisse a taxa directora? Basta que acreditem que o BC vai continuar a agir como até aí (e aqui há uma assimetria clara com a situação anterior, onde é preciso convencer os agentes de que o BC vai alterar a sua ‘função de reacção’ para tolerar uma inflação mais alta no futuro).

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      • Joao diz:

        Nao relaxa a restricao orcamental. Quando a economia sair da armadilha de liquidez o BC tem duas opcoes. Ou adopta uma medida de sentido contrario para reduzir a massa monetaria (p.ex. vende activos), ou entao nao faz nada e deixa subir a inflacao. Em nenhum dos casos os agentes ficam mais ricos, em termos reais. O que ha e um efeito sobre o timing do consumo se os agentes acreditarem que o BC vai deixar subir a inflacao, e e esse efeito que esta na base destas propostas todas.

        E claro que ha efeitos que estes modelos nao consideram e que podem ter grande importancia. Por exemplo, qualquer redistribuicao de rendimento a favor de agentes com maior propensao marginal para consumir hoje (porque por exemplo nao tem acesso a credito e estao a consumir menos do que quereriam) tem um efeito expansionista independemente da inflacao futura. Mas para fazer esse tipo de redistribuicao nao precisas de helicopter drops, basta a politica orcamental. Helicopter drops nao acrescentam nada as ferramentas que os governos e bancos centrais ja tem disponiveis.

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      • No caso em que o Banco Centra primeiro distribuísse dinheiro (helicopter money puro e duro) e mais tarde vendesse ativos para recuperar as notas emitidas, penso que os agentes ficavam mais ricos no conjunto: na primeira fase, a sua riqueza aumentava (recebiam dinheiro caído do céu); na segunda fase, a sua liquidez até poderia diminuir, mas a sua riqueza ficava na mesma (já que trocavam notas por ativos de valor equivalente).

        Fazendo uma analogia – se em Outubro alguém oferecer 50 galinhas e em Novembro comprar 50 galinhas, os beneficiários da distribuição de galinhas, ao fim dos dois meses ficam mais ricos, mesmo que o seu stock de galinhas fique igual ao que estava no principio (agora, onde está “galinhas” ponha-se “dinheiro”, e onde está – implicitamente – “dinheiro” ponha-se “ativos do banco central”).

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    • Carlos Rocha diz:

      Vende activos … mas a que valor ? É que a política de esterilização tem limites.

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  3. Acho que há uma diferença entre lançar dinheiro de helicóptero e simplesmente baixar as taxas de juro – em termos de modelo macroeconómico, a primeira representa, não apenas um aumento da massa monetária em circulação, mas também um aumento das transferência, e portanto do rendimento disponivel (o que suponho possa aumentar o consumo, independentemente das expectativas futuras acerca das taxas de juro)

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    • De qualquer maneira, se o QE é o que eu penso que seja (o banco central comprar em massa titulos de divida pública), na prática isso não é quase o mesmo que lançar dinheiro de helicóptero?

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      • Penso que depende.

        No caso dos EUA, a compra de obrigações públicas flexibiliza a restrição orçamental do Governo: a Fed compra os títulos e devolve os juros desses títulos ao Tesouro. Nesse caso penso que não há diferença entre helicopter money e QE.

        No caso dos países europeus, e se assumirmos que o BCE só compra títulos periféricos, a flexibilização da restrição orçamental é ‘diluída’ entre todos os países que participam no Eurosistema. Na prática, a situação orçamental da periferia não melhora muito.

        E quando isso aconteceu – isto é, quando o BC da Irlanda comprou obrigações do Estado irlandês – o BCE rapidamente o obrigou a comprometer-se a vender esses mesmos títulos, sob o argumento de que caso contrário isso seria considerado monetização dos défices (ou seja: na prática, a suavização da restrição orçamental foi apenas temporária). Fonte: http://karlwhelan.com/blog/?p=797

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  4. Bom, acabei de reparar que há quem esteja a ter precisamente esta discussão noutro sítio. Resumo aqui http://longandvariable.wordpress.com/2014/10/08/dont-call-the-helicopters-yet/ e discussão aqui http://willembuiter.com/helifinal.pdf

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