Competitividade em gráficos

A relação entre equilíbrio interno (emprego), equilíbrio externo (balança comercial) e competitividade não é fácil de perceber, mas acho que encontrei uma forma bastante simples de expor melhor a questão. E, tendo em conta o potencial pedagógico das ilustrações, acho que se justifica algum sacrifício do rigor.

A imagem de baixo mostra a relação entre a taxa de desemprego e o saldo da balança comercial em Portugal desde 1960 a 1997. Surpresa: não há relação nenhuma entre ambos – não é pelo facto de o desemprego ser mais alto que o défice comercial é mais baixo.

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Mas isto é menos surpreendente do que parece. Num regime de câmbios flexíveis – ou fixos mas ajustáveis – não é  necessário comprimir a procura interna para atingir um saldo comercial mais favorável. A manipulação da taxa de câmbio permite atingir simultaneamente os dois objectivos, tornando a produção interna mais barata e aumentando o emprego nos sectores que mais beneficiam dessa alteração dos termos de troca.

Assim, e pelo menos no longo prazo, qualquer relação entre o desemprego e o saldo comercial esfuma-se. Mas quando o mecanismo cambial desaparece, a situação muda de figura.

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Sem moeda para desvalorizar, o nível de desemprego torna-se um forte determinante do saldo comercial. Para uma dada taxa de câmbio, a economia só pode estar num dos pontos ao longo da linha traçada (escolhi 1998 porque esse foi o ano da fixação das taxas de cãmbio irrevogáveis). Se os constrangimentos financeiros impedirem Portugal de ter crédito, o preço a pagar será um desemprego permanentemente elevado, à volta dos 16%.

A alternativa à desvalorização cambial, que não é possível, é a desvalorização interna, baixando preços e salários. Em termos gráficos, isso corresponde a ‘sair’ da linha desenhada no gráfico e ‘caminhar para cima’, de forma a que um determinado saldo comercial possa corresponder uma taxa de desemprego mais baixa. A questão levantada pelo FMI é se os excedentes comercais de 2013 foram conseguidos à custa de melhorias de competitividades ou se às custas do desemprego – ou seja, se Portugal conseguiu ‘sair da recta’ ou se apenas caminhou ao longo da recta*.

*Infelizmente, isso não se pode inferir olhando apenas para a imagem. A recta representa uma condição ceteris paribus, que obriga a manter constantes uma série de factores como output gaps relativos, procura externa, etc. Esta condição violada de forma particularmente severa nos últimos anos.

 

 

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