Maus argumentos para (não) se subir a inflação

A proposta de Blanchard de passar de uma meta de inflação de 2 para 4% começou – finalmente – a ser levada a sério e o debate já começou. Até em Portugal, como se pode ler no Negócio.

Ainda bem. O tema é, desde há algum tempo, um anátema para os Bancos Centrais – o antigo presidente do BCE, Trichet, chegou a dizer que a sugestão de alterar o target era “irresponsável”. E a generalidade das pessoas percebe intuitivamente esta opção. A inflação mais alta diminui o poder de compra, penaliza as poupanças e tortura os aforradores.

Mas estes são apenas alguns exemplos de falácias comuns quando se discute a inflação. Por estranho que pareça, a subida da inflação não altera os salários reais, não afecta os rendimentos das poupanças e não é nenhum imposto sobre quem poupa. E mesmo o seu impacto na erosão da dívida é bem menos linear do que parece à primeira vista. A inflação só produz efeitos deste género se for inesperada, como um surto repentino que apanha os agentes económicos de surpresa e redistribui a riqueza antes que estes tenham hipótese de se adaptar à nova inércia inflacionista – algo que certamente não aconteceria com uma política cujo objectivo, declarado e assumido à partida, era de aumentar a taxa de inflação.

Mas estando os bancos centrais imunizados contra mitos deste género, como se explica a relutância em alterar o target?

Comecemos pelos custos da inflação (esperada). Há vários: i) ela torna mais difícil para os agentes económicos comparar os preços relativos, o que pode deteriorar a eficiência na alocação de recursos; ii) obriga as empresas a trocar mais frequentemente os seus preços (custos de menu); iii) aumenta o custo de detenção de moeda, na medida em que a alternativa – deter recursos sobre a forma de activos que rendem juros – se torna mais aliciante; iv) provoca distorções fiscais, obrigando a uma actualização mais frequente de tabelas de imposto para se ajustar as taxas aos rendimentos nominais.

Mas serão estes custos assim tão altos? Ou melhor: estes custos serão muito maiores para uma inflação de 4% do que para uma inflação de 2%. Isso é tudo menos óbvio. Na verdade, a investigação empírica em torno deste assunto tende a concluir que os custos são relativamente pequenos (ver discussão aqui). Nas palavras de Paul Krugman: «One of the dirty little secrets of economic analysis is that even though inflation is universally regarded as a terrible scourge, efforts to measure its costs come up with embarrassingly small numbers».

Por outro lado, a inflação baixa tem um custo potencialmente elevado. Os bancos centrais estabilizam a economia através da manipulação das taxas de juro nominais, mas o estímulo só pode ir até à taxa de juro zero (zero lower bound – ZLB). Esta taxa nominal corresponde a uma taxa real que é igual a [0% – tx. inflação]. Portanto, quanto maior a inflação, maior é a taxa real negativa que o banco central pode atingir, e maior a margem de manobra para contrariar choques na economia real.

Se a economia não passar por choques severos, os custos de uma inflação baixa são nulos. Mas se esse cenário for provável (e recorrente, como alguns temem), então esses custos são elevados: correspondem a todo o desemprego efectivo que se regista acima do desemprego que o banco central conseguiria manter caso não se tivesse deparado com a restrição do ZLB.  Pesando os prós e os contras parece-me difícil argumentar que a sugestão de Blanchard não merece pelo menos alguma discussão prolongada.

Resta um argumento importante: ao alterar a sua meta de inflação, os bancos centrais acabariam por perder a credibilidade ganha ao longo das últimas décadas. Isto seria sem dúvida um risco caso os bancos centrais anunciassem agora essa meta (quanto mais não seja porque haveria o sério risco de não a conseguirem atingir).

Mas parece-me que este é um problema fácil de ser resolvido: bastaria que se anunciasse hoje que a meta seria adoptada assim que o Produto tivesse voltado ao seu nível natural. Assim seria evitado o principal problema na ‘mudança das regras a meio do jogo’ – o risco de se transmitir a ideia de que o regime pode ser alterado sempre que os resultados não agradarem. O BC assumiria assim a responsabilidade de trazer a inflação para os 2% com as armas de que dispõe, de maneira a preservar a sua credibilidade – anunciando antecipadamente que o objectivo só seria alterado mais tarde (o que, parece-me, até reforçaria a sua credibilidade).

P.S.- Claro que neste cenário não seria possível reduzir a taxa de juro real hoje e assim contribuir para a retoma agora. Mas o objectivo era precisamente manter a credibilidade e preparar apenas o regime monetário para enfrentar melhor futuros choques económicos (o que é essencialmente diferente da proposta inicial feita por Krugman). Não se pode ter tudo.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s