Salários reais, o ajustamento de 77/83 e o caso islandês

O Económico noticia hoje, citando o Relatório anual do Banco de Portugal, que os Salários reais cairam menos do que em programas anteriores.

O quadro comparativo aparece no próprio relatório, que reproduzo em baixo. Incluí também uma comparação do perfil da actividade económica, que em conjunto com o primeiro quadro pode gerar alguma dissonância cognitiva: se o Produto caiu muito mais do que nos ajustamentos de 77 e 83, os salários não deviam ter seguido o mesmo caminho?

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A resposta simples é: não.

A explicação tem que ver com a diferença de regimes cambiais que vigorou (e vigora) em cada um dos períodos. Em 1977 e 1983, Portugal dispunha de moeda própria. Esta desvalorização permitia tornar os preços nacionais mais baixos relativamente aos preços estrangeiros, e ao fazê-lo estimulava a procura através de duas vias: tornando as exportações nacionais mais baratas nos mercados internacionais e tornando a produção para o mercado doméstica mais competitiva relativamente às importações.

Note-se, porém, que implícito a este mecanismo está uma perda efectiva de poder de compra. Os produtos produzidos no estrangeiro ficam mais caros – é isso que faz a procura ‘reorientar-se’ para a produção nacional -, e isso implica uma redução do salário real dos consumidores. O facto de Portugal já não ter moeda própria para desvalorizar aumenta o impacto de qualquer choque de procura na actividade, mas permite sustentar melhor o poder de compra.

Este princípio é muito simples, mas é frequentemente esquecido quando se fazem comparações internacionais – o que me dá uma boa oportunidade para voltar a um assunto que deixei passar há uns meses.

Por exemplo, a certa altura tornou-se bastante comum comparar a trajectória do PIB da Islândia – um aclamado pária da comunidade internacional, que desvalorizou a moeda e deixou falir os bancos – com a trajectória do PIB dos países da periferia europeia.

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A conclusão óbvia que muita gente retirou é que a ‘via islandesa’ era claramente mais virtuosa.

E talvez fosse mesmo. Mas essa conclusão não podia ser retirada da análise simples e ingénua do perfil do PIB, porque essa imagem não contava a história toda. A evolução do PIB estava positivamente influenciada pelo regime cambial – regime cambial que permitia aumentar a actividade e o emprego às custas do poder de compra. Por essa razão, uma avaliação justa teria também de levar em conta ambas as partes deste trade-off – por exemplo, olhando para os salários reais:

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As duas imagens conduzem, como seria de esperar, a conclusões bastante diferentes em relação a qual é a melhor escolha em termos de política económica. É possível argumentar, de forma convincente, que o poder de compra é menos importante que o PIB, e que portanto a Islândia foi, de facto, mais bem sucedida do que Portugal. Isto porque enquanto no caso islandês a perda de bem estar é distribuída por toda a sociedade, através de salários mais baixos, no caso português ela é concentrada nas franjas, através do desemprego.

O que não se pode fazer é olhar apenas para um dos indicadores, ignorando o outro como se não houvesse um trade-off entre ambos.

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One comment on “Salários reais, o ajustamento de 77/83 e o caso islandês

  1. Carlos Duarte diz:

    Caro Pedro Romano,

    O seu penúltimo parágrafo está na mouche: é muito diferente um ajustamento transversal da riqueza em que (tirando as camadas mais ricas, que têm reservas noutras divisas ou em investimento estrangeiros) do que um que se foca numa camada mais restrita. É que no primeiro caso, o perfil relativo de riqueza mantém-se – no segundo há um desfasamento. E nestas coisas, a percepção conta mais que a realide. É exactamente pela mesma razão que conceitos com os do “trickle-down economics” não são realistas: por mais que aumentem a riqueza média absoluta das pessoas, fazem-no à custa do aumento das desigualdade entre elas. E este segundo efeito – que tem reflexos puramente éticos, no campo da justiça inter-pares – é mais forte que o ganho.

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