Para onde foi a produtividade?

A fiabilidade do PIB enquanto medida do vigor económico de uma nação é um tema controverso. A lista de críticas é extensa e recentemente tem havido uma série de tentativas para produzir indicadores que o complementem (por exemplo, as estatísticas de Bem-estar da OCDE – ver também a discussão no Relatório Stiglitz). Mas este post é sobre uma questão bem mais específica:

«You can see the computers everywhere but in the productivity statistics» (Robert Solow, 1987)

O paradoxo de Solow resulta da constatação de que a revolução da tecnologia informática (IT) praticamente não influenciou a produtividade. Mas será mesmo assim?

A imagem de baixo mostra o volume de Investimento (isto é, a taxa de crescimento real da Formação Bruta de Capital Fixo) em França, de 1980 a 2000. As duas linhas representam o volume calculado de acordo com dois métodos distintos. Note-se como a produção efectiva (e, portanto, a produtividade implícita) é praticamente duas vezes maior no caso da metodologia utilizada na linha azul escura.

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A diferença entre ambas é muito simples. A linha azul escura é obtida da seguinte forma: calcula-se a taxa de crescimento real de cada bem de investimento e pondera-se essa taxa de crescimento pelo peso relativo que cada bem tinha no ano base (que, neste caso, é 1980). No caso da linha clara, o peso de cada bem é o preço relativo que vigorava no ano anterior.

A discrepância entre os dois métodos aumenta à medida que os preços relativos dos vários bens diverge. Neste caso concreto, a diferença deve-se largamente aos computadores. O volume de computadores tem crescido a um ritmo impressionante desde 1980 (a Lei de Moore continua a aplicar-se), mas o facto de o seu preço relativo ter vindo a cair também faz com que este crescimento tenha um peso menor do que teria caso vigorasse a estrutura de preços de 1980. Como o peso relativo dos computadores cai à medida que o tempo passa, o método dos ‘preços do ano anterior’ dá origem a uma taxa de crescimento global significativamente inferior.

Faz sentido que o crescimento do PIB seja calculado tendo em conta os preços do período anterior, porque são esses que determinam a importância relativa real que cada item tem de facto para o bem estar. Por outro lado, o sistema de actualização de preços (encadeamento) também introduz um viés nos cálculos de produtividade. Se um determinado sector regista um crescimento explosivo em termos reais, mas esse crescimento vem acompanhado – como faz sentido que venha – de uma descida do seu preço relativo, então o contributo desse mesmo sector para a produtividade total será concomitantemente reduzido.

E este efeito pode ser substancial mesmo em termos agregados. Segundo o NBER, a taxa de crescimento média do PIB americano entre 2001 e 2003 (2,3%) poderia ter sido de 4,3% caso se usasse a estrutura de preços de 1996 para ponderar os vários sectores. Os computadores representavam a maior parte desta discrepância, precisamente devido ao efeito de variação de preços relativos. Por isso, talvez a resposta para o paradoxo de Solow seja simples: a produtividade do sector das IT foi uma vítima estatística do seu próprio sucesso.

Note-se que o problema não é do sistema de encadeamento em si: ponderar o crescimento de cada sector pelo seu peso efectivo faz muito mais sentido do que ponderá-lo pelo peso que assumia num qualquer período remoto. A questão aqui é de verdadeira incomensurabilidade de valores: como é que se comparam quantidades de bens e serviços cuja importância relativa para os consumidores variam ao longo do tempo? A diferença de riqueza entre um consumidor de 1980 e um consumidor de 2000 depende crucialmente do ponto temporal em que se faz a comparação.

P.S.- Sobre um problema similar, ler a inspirada coluna de Paul Krugman Viagra and the wealth of nations.

 

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