Multiplicadores e política orçamental – história de uma polémica

Os últimos anos foram tempos de ouro para a investigação no domínio da política orçamental. Por e-mail, um leitor sugeriu que partilhasse algumas das leituras mais interessantes. Seguem em baixo, organizadas por tema e por data.

A questão do impacto de uma expansão (ou contracção) orçamental ganha destaque a partir de 2009, quando o FMI sugere um estímulo orçamental coordenado. Christiano, Eichenbaum e Rebelo argumentam, utilizando um modelo teórico, que a variação da despesa pública pode ter um impacto muito grande num contexto de taxas de juro a 0%. Utilizando métodos empíricos, Alesina e Ardagna (A-A) defendem que a redução da despesa pública pode estimular a actividade privada através de efeitos na confiança dos consumidores. Nasce a tese da ‘Austeridade Expansionista’ (apresentada numa reunião do Eurogrupo, segundo consta).

Os resultados de A-A são sujeitos a crítica num estudo de Guajardo, Leigh e Pescatori. Segundo estes autores, A-A identificaram incorrectamente os episódios de consolidação orçamental (começa a crítica ao uso dos cyclically-adjusted-budget-balances) e não levaram em conta o regime monetário e cambial. Vários estudos seguintes confirmam esta ideia e mostram que os multiplicadores tendem a ser maiores em períodos recessivos. E que podem atingir valores consideráveis sempre que a política monetária está constrangida. A tese da austeridade expansionista é ferida de morte.

Ainda em 2012, De Long e Summers mostram como um impulso orçamental pode ‘pagar-se a si mesmo’ (afinal há almoços grátis), bastando para tal uma combinação pouco exótica de taxas de juro baixas e hysteresis effects (um efeito que acabará por dar muito que falar). Cottarelli e Jaramillo sugerem que o canal da confiança – através do qual a consolidação melhora a perspectiva orçamental de um país, baixando as respectivas taxas de juro e contrariando o efeito negativo na procura – pode entrar em curto circuito, bastando para isso que os mercados financeiros actuem de forma míope.

No final de 2012, a acumulação de evidência empírica em torno dos efeitos da consolidação orçamental leva o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard a sugerir que estes efeitos podem ter sido subestimados pelos organismos responsáveis por fazer previsões macroeconómicas. Começa a guerra dos multiplicadores. A Comissão Europeia e o BCE respondem; Blanchard volta ao tema com um paper a rebater as críticas.

O impacto da consolidação orçamental na evolução da dívida pública já estava a ser estudado em 2011. Mas a partir de 2012 os estudos começam a integrar os inputs entretanto trazidos pelo resto da investigação: multiplicadores elevados, hysteresis effects e mercados financeiros míopes. Conclui-se que a consolidação orçamental pode aumentar a dívida pública nos primeiros anos, e que este é um solo fértil para equilíbrios múltiplos. Começam a retirar-se implicações mais finas para o perfil ideal de consolidação orçamental.

Entretanto, o FMI estudou também os efeitos distributivos da consolidação orçamental:

A Comissão Europeia utilizou o seu modelo QUEST III para avaliar o impacto negativo da consolidação orçamental no PIB da Zona Euro:

E o FMI integrou as lições da crise num policy paper que deu muito que falar:

Boas leituras.

P.S.- Ler também An empircal characterization of the dynamic effects of changes in government spending and taxes on output (Blanchard, Perrotti – 2002), The macroeconomic effects of tax changes (Romer, Romer – 2010), Identifying government spending shocks: it’s all in the timing (Ramey – 2011) e a revisão bibliográfica extensa feita em Fiscal multipliers and public debt dynamics in consolidations (Boussard, Francisco de Castro, Salto – Julho 2012).

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