Anatomia de uma (possível) recuperação

O crescimento do PIB no segundo e terceiro trimestres espantou a maioria dos economistas (Troika incluída, que não esperava que isso acontecesse antes de 2014). Como pode a economia crescer se a política orçamental mantém a orientação contraccionista?

Este espanto justifica-se se os choques orçamentais forem completamente persistentes; ou seja, se a austeridade implicar uma quebra permanente da actividade económica permanente. Neste caso, a economia só voltará a crescer quando desenvolver forças endógenas suficientemente fortes para contrariar a violência do choque orçamental. Mas também pode dar-se o caso de os choques serem meramente transitórios, convergindo a actividade económica para o seu nível natural à medida que o tempo passa – aquilo que se pode chamar de ‘dissipação dos multiplicadores’.

Como é óbvio, esta convergência da actividade para um ponto mais próximo do seu nível natural não surge por geração espontânea. É necessário encontrar alguma fundamentação de natureza mais microeconómica que a justifique.

O mecanismo mais típico é o da desvalorização da taxa de câmbio real. A recessão pode obrigar os produtores nacionais a reduzir os seus preços, o que aumenta a competitividade dos produtos produzidos internamente (seja os que se são exportados, seja os que concorrem com importações). As exportações portuguesas têm de facto vindo a ganhar bastante quota de mercado, mas é difícil relacionar este crescimento com ganhos de competitividade. É preciso procurar noutro lado.

O sector exportador pode de facto contribuir para a recuperação, mas através de mecanismo mais subtil. As exportações representam rendimento das empresas exportadoras, rendimento que pode ser retido internamente ou ser distribuído pelos trabalhadores. Este rendimento, por sua vez, pode ser utilizado para aumentar a procura interna, alavancando uma retoma que inicialmente se alicerça na procura externa mas que pouco a pouco se capilariza para o mercado nacional. Chamemos-lhe o multiplicador das exportações, por ser a aplicação às exportações do multiplicador keynesiano do consumo público e investimento.

Uma terceira hipótese tem que ver com a recomposição dos balanços das famílias. A austeridade reduziu o rendimento disponível das famílias e, pelo meio, forçou uma subida da taxa de poupança. Apesar da quebra de rendimentos, a subida da poupança foi mais do que suficiente para permitir às famílias pagar dívida e assim aumentar a sua riqueza líquida (activos menos passivos). Com a riqueza a atingir níveis recorde, é possível que as famílias estejam novamente disponíveis para consumir mais, o que estimularia a procura interna. Chamemos a este terceiro efeito de efeito Pigou.

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Perceber qual destes efeitos está a operar não é fácil – antes de mais, seria necessário saber se a retoma é de facto sustentada, algo que para já está ainda longe de assegurado. O importante é perceber que a recuperação, a confirmar-se, não seria tão estranha quanto isso. Pelo contrário, há imensos efeitos ‘canónicos’ que podem explicar uma retoma (e, na verdade, até justificariam que esta fosse relativamente robusta).

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2 comments on “Anatomia de uma (possível) recuperação

  1. Tenho dúvidas que o 1º e o 2º efeito sejam coisas diferentes.

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  2. Agora, há primeira vista, penso que não deveria ser muito dificil descobrir qual dos efeitos fosse o motor da recuperação (ou talvez sejam os dois).

    Se forem as exportação a aumentar teremos… as exportações a aumentar.

    Se for o efeito de um aumento de riqueza levar a maior procura interna, teremos o rácio consumo privado/PIB a aumentar.

    Imagino que consultando as estatisticas seja relativamente simples avaliar a evolução dessas rubricas.

    Já agora: “Como pode a economia crescer se a política orçamental mantém a orientação contraccionista?”

    Poderia-se argumentar que, se estamos a falar de comparações entre trimestres (e penso que é com base nessas comparações que se diz que a economia está a crescer), a politica orçamental não está a ser contracionista – o orçamento do 2º e do 3º trimestre não é mais austero que o do 1º trimestre (atenção que não estou a falar do “efeito Tribunal Constitucional”; estou a referir que os cortes do orçamento são aplicados quando o orçamento entra em vigor, logo talvez seja de esperar que os efeitos contracionários de um orçamento austeritário se concentrem no 1º trimestre – ou no primeiro mês? – e que depois a economia até possa ir recuperando – comparativamente ao primeiro mês – até ao fim do ano)

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