Paradoxos do equilíbrio externo

Um dos posts anteriores defendeu que o desequilíbrio comercial da economia nacional só se tornou um problema de facto na última década. Ficou porém por esclarecer se o recuorecente  deste défice é estrutural ou apenas um subproduto inevitável da recessão que o país atravessa.

Uma forma de equacionar esta questão é através da imagem seguinte. Se assumirmos que a procura externa e a taxa de câmbio real são mantidas constantes, então a procura interna é a única variável que determina quer o comportamento do Produto (e portanto do emprego), quer o saldo comercial (isto é, a diferença entre exportações e importações).

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A recta sintetiza uma relação simples: se a procura interna aumenta (eixo dos xx), então também aumentam as importações e, com elas, o défice comercial (yy). Há assim um trade-off entre o nível de Produto e o equilíbrio externo. Para que a economia possa funcionar perto do seu potencial, e por essa via eliminar o desemprego, é necessário tolerar um défice em torno dos 6% do PIB; pela mesma razão, a obtenção de excedentes comerciais só pode ser conseguida se for sacrificada a procura interna.

A desvalorização da economia – seja interna, através dos preços, seja externa, através do câmbio – permite alterar os preços relativos da produção, encarecendo as importações e embaratecendo as exportações. Esta mudança de preços empurra a curva para a direita e faz com que a um mesmo nível de procura interna e externa corresponda agora um saldo comercial mais favorável. O trade-off inicial mantém-se: sempre que a procura interna aumenta, o saldo comercial deteriora-se; mas agora o pleno pode ser alcançado com uma balança comercial equilibrada.

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Perguntar se o excedente comercial actual é sustentável corresponde a perguntar se a economia portuguesa tem percorrido a curva azul, acumulando excedentes à custa da produção, ou se ela está a transitar para algum dos pontos da curva verde, através de uma  desvalorização real.

Os dados disponíveis apontam para um grau de desvalorização substancial. Em baixo apresento a desvalorização acumulada face a um benchmark (Alemanha), utilizando duas métricas de comparação de preços: os Custos Unitários do Trabalho (CUT – custos do factor trabalho) e o Deflator do PIB (preços finais). Ambos os indicadores comparam preços finais com a produtividade real.

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A desvalorização varia conforme as métricas, e está longe de ser suficiente para anular a apreciação real desde 2000. Mas está lá, e representa, quase necessariamente, uma alteração na posição de equilíbrio da economia portuguesa. Isto sugere que a curva que sintetiza o trade-off emprego/equilíbrio externo se terá deslocado para a direita.

Ou mais ou menos. Há algumas indicações de sentido contrário a que vale a pena fazer referência.

O primeiro é a dimensão da contracção do Produto e subida do desemprego. Os valores actuais são inaceitavelmente altos. A desvalorização permite mitigar a contracção do Produto ao longo do processo de ajustamento, mas o que temos visto é precisamente uma quebra muito superior ao que se esperava, apesar de o ajustamento competitivo estar em linha com as previsões iniciais. Os side effects que a desvalorização supostamente implicariam não estão a dar sinais de vida.

Quando olhamos para as coisas à lupa, outros problemas começam a aparecer. Por exemplo, a melhoria da posição competitiva dos países periféricos não parece estar a evoluir conforme a melhoria da sua posição competitiva. A Grécia, que já reduziu os seus CUT em quase 15% em apenas três anos, é a economia europeia onde as exportações menos cresceram. A apreciação real da economia alemã, por outro lado, não pôs qualquer travão no seu ímpeto exportador.

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Ao nível das importações, a situação parece melhor. Utilizando a diferença entre o crescimento do PIB e o crescimento das importações como métrica da ‘taxa de penetração’ das primeiras, a variação dos CUT parece de facto ter implicações para este indicador: quanto mais caem os CUT, mais caem as importações face ao que seria sugerido pela contracção do PIB. Mas a verdade é que a contracção do PIB tem uma grande componente de investimento, que depende muito de importações – e este gráfico pode traduzir apenas efeitos composicionais deste género.

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Não é fácil solucionar este puzzle. Talvez os indicadores de competitividade não sejam os melhores, ou estejam contaminados por factores diversos (há alguma evidência no caso da Irlanda, por exemplo). Talvez desvalorização avaliada pelos CUT revele sobretudo cortes salariais no sector público, irrelevantes para a competitividade externa (ver aqui, por exemplo).

Este assunto não passou ao lado do FMI, que no World Economic Outlook (caixa 1.3.3.) passou algum tempo a escrutinar o tema. A imagem de baixo, retirada do documento, mostra como a variação das exportações de cada país periférico pode ser explicada em termos de várias componentes.

Sem Título

O caso grego parece ser claramente um caso à parte, com uma imensa ‘matéria negra (residual) a ofuscar os contributos da procura externa e dos ganhos de competitividade. Para a generalidade da periferia, este resíduo até dá um contributo positivo. Mas os cálculos do FMI apenas são relativos ao período 2008/2012. As mesmas contas para 2010/2013 seriam muito mais úteis para esclarecer este curioso paradoxo.

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One comment on “Paradoxos do equilíbrio externo

  1. Lucas Galuxo diz:

    “Those with brains but no balls often become mathematicians; those with balls but not brains join the mafia; and those with no brains and no balls become economists.
    There are exceptions (for mathematicians).” Nassim Taleb

    Gostar

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