O ‘mea culpa’ do FMI

O policy paper do FMI que conclui que a austeridade tem de ser doseada está a ser lido por muita gente como um mea culpa do Fundo. Há que distinguir, nesta polémica, duas questões diferentes.

A primeira é a questão do impacto efectivo das políticas de austeridade. A este nível, o policy paper não acrescenta muito ao que já se sabia, e funciona muito mais como uma súmula doutrinária do que propriamente como um contributo inovador para a discussão académica. Quem esteve atento à investigação do FMI ao longo dos últimos dois anos sabe que os técnicos do Fundo já concluíram há muito que não há austeridade expansionista (Expansionary Austerity – new international evidence), que a dívida pública pode aumentar na sequência de um choque orçamental (The challenge of debt reduction during fiscal consolidation), que o impacto da austeridade é superior em períodos recessivos (Fiscal multipliers and the state of the economy, Sucessfull austerity in the USA, Europe and Japan) e que os multiplicadores foram severamente subestimados em resultado destas nuances (Growth Forecast Errors and Fiscal multipliers).

Olivier Blanchard, economista-chefe, e Carlo Cottarelli, director do Departamento de Asssuntos Orçamentais, exploraram as implicações destas descobertas em dois textos publicados no Vox: Fiscal consolidation: at what speed?Fiscal consolidation: too much of a good thing. A conclusão é mais ou menos a mesma: dadas as circunstâncias actuais – taxas de juro a 0% e contracção global da procura, qualquer processo de consolidação deve ser lento e moderado. Os pacotes devem sobretudo tornar claro que os défices futuros vão descer, de maneira a evitar disrupções nas expectativas dos mercados financeiros; mas as medidas de consolidação efectivas devem ser reduzidas ao mínimo, dando apenas um sinal credível de que a promessa de menos défices amanhã serÁ de facto cumprida.

Mas é mais complicado perceber o que podem países sem moeda própria fazer perante esta evidência. Estes países dependem do apoio de financiadores externos (Troika e/ou BCE), que têm de ser convencidos de que o dinheiro será devolvido mais tarde. Ora, esta questão decorre em paralelo à questão técnica do impacto efectivo da consolidação orçamental. De nada vale a um país argumentar que a consolidação orçamental está a ser mais nociva do que se pensava, se a alternativa implicar, para o financiador oficial, um aumento de exposição a este mesmo país (veja-se os argumentos de Marco Buti, da Comissão Europeia, em Beyond the austerity myth, e uma simulação numérica aqui). Sem resolver este problema, é normal que as sementes lançadas pelo Departamento de Investigação do Fundo não produzam frutos que se vejam*.

*Note-se que o facto de vários actores políticos se recusarem sequer a admitir este problema não só não ajuda a resolvê-lo como contribui efectivamente para o exacerbar, por transmitir aos credores internacionais a ideia de que Portugal não consegue, sequer, perceber o que está em jogo.

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3 comments on “O ‘mea culpa’ do FMI

  1. Joao diz:

    Excelente texto. Quase ninguem se apercebe que estas conclusoes do FMI sao sobretudo dirigidas ao Norte da Europa, aos paises que podem adiar a austeridade sem porem em causa a sustentabilidade das financas publicas. O FMI ressalva sempre que nos casos em que esta em causa essa sustentabilidade os custos de adiar a austeridade sao muito superiores. Alias os proprios estudos do FMI apontam que os multiplicadores em paises que atravessam uma crise de divida soberana sao muito mais baixos, proximos de 0.
    So acrescento uma coisa. Nos dispomos de um indicador directo da medida da nossa credibilidade, as taxas de juro da divida no mercado secundario. Nao e preciso grandes subtilezas para perceber que perdemos grande parte dessa credibilidade desde Julho, desde a saida de Gaspar e da ascensao de Portas, e que e urgente recuperar o compromisso que existia com o ajustamento orcamental acordado com a troika.

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  2. BFL diz:

    Corrige-me se estou errado, mas parece-me que as conclusões do FMI, ao reconhecerem que há limites ao ritmo do ajustamento, apontam o dedo indirectamente ao problema político Norte/Sul do euro (desconfiança sobre solidez do compromisso dos governos do Sul, etc.) – um problema que tem uma má influência na razoabilidade económica dos programas de ajustamento. O paper sobre a Grécia é um exemplo desse apontar de responsabilidades – assim como estes. Concordas? Abraço, B

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  3. Não sei se o FMI diz isso directamente (o paper que citei da Comissão, “Beyond the austerity myth”, é muito mais claro e assertivo nesse ponto), mas esse é um corolário inescapável do que eles expõem nos vários estudos. Este é um verdadeiro dilema do prisioneiro: mutuários e mutuantes têm ambos muito a ganhar de um ajustamento ‘prolongado’ em vez de um ‘ajustamento brusco’. Mas o ajustamento prolongado exige um tipo de compromisso que uns não podem, ou não conseguem, dar aos outros. E, não havendo forma de garantir o enforcement dessa promessa impossível (“ajustamos menos hoje para ajustarmos mais amanhã”), o ajustamento brusco surge como um second best.

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