Avaliando a Troika

O Bruegel publicou um excelente dossier de avaliação dos programas de austeridade – e, em particular, do papel da Troika no ajustamento da Irlanda, Grécia e Portugal. EU-IMF assistance to euro area countries: an early assessment está disponível para download no site do think-tank de Bruxelas.

O documento está cheio de comparações interessantes e análises reveladoras. Os autores dão particular destaque ao contraste entre os programas do FMI para a Zona Euro e os programas anteriores, implementados no Leste Asiático (década de 90) e na América Latina (anos 80). Ficamos a saber, por exemplo, que o programa para a Zona Euro está a registar erros de previsão excepcionais, fugindo claramente ao que seria de esperar olhando para o registo histórico. Por outro lado, estas são águas desconhecidas: o nível de desequilíbrios acumulados (dívida pública e externa) atingiu níveis nunca antes vistos, o que obrigou também os financiadores oficiais a atingirem novos máximos no grau de exposição aos países em crise.

Há muito mais coisas interessantes, como a constatação de que a desvalorização interna parece estar a ser parcialmente limitada pelo facto de as reduções salariais não se transmitirem aos preços (onde é que já vimos isso?); ou que o recurso excessivo a empréstimos ‘especiais’ do BCE (o ELA – que na verdade nem é, tecnicamente falando, do próprio BCE) condicionou imensamente a margem negocial de países como a Grécia e Irlanda.

Mas, no geral, o documento dá uma visão muito mais equilibrada da acção da Troika do que a avaliação popular que é vulgarmente feita nalguma comunicação social. Em particular, os autores mostram como era quase impossível saber, à partida, que o impacto efectivo da consolidação orçamental seria tão grande; que uma boa parte das reformas estruturais acabaria por ser mal implementada devido à falta de capacidade técnica; e até que a confiança dos mercados acabaria por ser prejudicada, e não aumentada, pelo front-loading de algumas das medidas.

Mesmo nalguns dos casos mais polémicos – como a decisão de evitar o bail-in dos obrigacionistas externos da banca irlandesa ou a recusa em reestruturar logo ao início a dívida grega – os economistas do Brueguel assumem que era extremamente complicado pesar os prós e os contras na altura em que as escolhas tinham de ser feitas. Havia benefícios e riscos em todas as opções e apenas com o benefício do olhar retrospectivo é possível dizer, hoje, que teria sido melhor fazer diferente. Um bom ponto de partida para que se possa começar a discutir, com algum fundamento sólido, aquilo que a Troika fez mal e aquilo em que poderá melhorar daqui para a frente.

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