O impacto (muito dúbio) da austeridade segundo o Banco de Portugal

Os multiplicadores calculados pelo Banco de Portugal (ver post anterior) permitem fundamentar melhor o exercício feito na série de posts ‘Como seria Portugal sem austeridade’ (1, 2 e 3), utilizando agora parâmetros razoáveis.

O objectivo é ter uma ideia mais sólida de como teriam evoluído as principais variáveis macroeconómicas e financeiras (PIB, défice e dívida) num cenário de ausência de medidas de consolidação. Para isso, assume-se que a política orçamental seria passiva em 2011 e 2012 e calcula-se o impacto que essa postura teria no nível de Produto Interno Bruto (PIB) de cada ano. Utilizam-se os multiplicadores do Banco de Portugal, levando em conta a dimensão e composição dos dois pacotes de austeridade.

O quadro em baixo mostra esta simulação, revelando o perfil do PIB efectivo e o perfil alternativo, , para dois multiplicadores: multiplicador normal (um pouco abaixo de 1) e multiplicador ‘de crise’ (mais perto de 1,5).

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Os resultados parecem ser, no mínimo, implausíveis. Por exemplo: para multiplicadores ‘de crise’, uma política orçamental passiva teria permitido um crescimento do PIB real de quase 7% em 2011.

Há claramente algo de errado nestas contas, e saltam à vista três explicações eventuais (para além de uma quarta, razoavelmente plausível: as contas estarem mal feitas).

Primeira hipótese: é possível que os multiplicadores estejam sobrestimados. Mas os valores a que o Banco de Portugal chega não são particularmente elevados, tendo em conta a evidência empírica recolhida em estudos semelhantes.

Se os multiplicadores não estão sobrestimados, há uma segunda hipótese: talvez sejam os pacotes de austeridade a estar sobredimensionados. Que evidência temos disto? Na verdade, alguma. Por exemplo, o volume do pacote de 2011 foi significativamente revisto em alta (sem grandes explicações) entre as sucessivas avaliações da Troika, o que causa alguma estranheza – e note-se que os resultados da simulação são particularmente problemáticos no caso de 2011. De resto, a dose de austeridade varia bastante consoante a forma como é medida – através de um somatório de medidas (abordagem narrativa) ou através da variação do saldo estrutural, como já foi exemplificado em Problemas em investigação de política orçamental.

Uma terceira possibilidade é os multiplicadores serem crescentes, aumentando à medida que o tempo passa. Note-se que, no modelo do Banco de Portugal, a dimensão dos multiplicadores é dada pelo grau de fricções da economia – rigidez nominal, constrangimentos de acesso ao crédito e problemas no sistema financeiro. É provável que estas fricções aumentem à medida que a recessão se aprofunda, levando a que os multiplicadores cresçam de ano para ano.

Neste caso, o multiplicador de 2011 seria um multiplicador ‘normal’ e o de 2012 seria um multiplicador ‘de crise’. O efeito composto desta alteração é tornar a simulação feita com base nos valores do BdP sensivelmente mais realista. A questão dos multiplicadores crescentes ficará para um post posterior.

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6 comments on “O impacto (muito dúbio) da austeridade segundo o Banco de Portugal

  1. Olá, não li os teus posts com cuidado, pelo que a minha chamada de atenção pode estar errada. Tiveste em atenção que o paper do BP estima multiplicadores bastante mais baixos para os aumentos de impostos. A maioria da consolidação orçamental foi feita via impostos e não corte na despesa, pelo que os efeitos não seriam tão dramáticos. Mesmo o corte de salários dos funcionário públicos, em termos económicos, parecem-me mais semelhantes a aumentos de impostos (sobre uma classe específica) do que a cortes de despesa.
    Forte abraço

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  2. Sim, eu levei em conta os impactos diferenciados (o impacto global é dado por uma média ponderada do peso de cada conjunto de medidas no total do pacote multiplicado pelo valor de cada multiplicador específico). Os resultados não são especialmente estranhos para 2012, em 2011 é que tudo parece muito aberrante. A minha suspeita é que é uma mistura da primeira e terceira hipóteses: o pacote de 2011 é na verdade inferior ao valor que eu assumi* e o multiplicador (ainda) não é um multiplicador de crise. Abraço

    *Usei como referência 9.300M€ que constam de um documento apresentado recentemente pelo MF. Se usasse os documentos da Troika, o valor rondaria os 6.000/6.500M€. Só reparei na discrepância quando, estranhando os resultados, fui procurar informação indendente do tamanho dos pacotes.

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    • Aguiar-Conraria diz:

      Ok, obrigado pelo esclarecimento. Responde-me só a mais esta. Como trataste o corte dos salários dos funcionário públicos? Como redução de despesa, ou como aumento de impostos sobre o rendimento?

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  3. Eu imputei todas as medidas do lado da função pública ao bolo do consumo público. Agora que penso nisso, o mais correcto teria sido fazê-lo apenas para a redução do emprego, considerando que os cortes salariais como impostos sobre o rendimento. Mas acho que o impacto final desta subtileza na anormalidade dos resultados será residual, uma vez que é em 2012 que o corte dos salários tem mais importância.

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  4. Suponho que os cortes salariais tenham um efeito sobre o PIB diferente dos aumentos de impostos por um simples truque contabilístico – como a produção dos funcionários públicos é considerada equivalente ao seu salário, uma redução salarial entra para as estatísticas como uma “redução” da “produção” (enquanto se se mantiver o salário nominal ilíquido e se aumentar os impostos a produção medida fica na mesma).

    A respeito do multiplicador de 2011 – além da questão sobre se em 2011 já se estaria em modo “multiplicador de crise”, há outro ponto: mesmo que ano 2011 que realmente existiu o multiplicador já fosse o da crise, é bastante provável que num ano 2011 “alternativo” em que o PIB fosse 7% mais alto o multiplicador fosse mais baixo (o que por outro lado faria com que o PIB não chegaria a ser 7% mais alto…)

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  5. Não é bem assim, Miguel. Um corte salarial é classificado como uma queda do PIB nominal, e não real: entra como redução do deflator do consumo público. Ou seja, o impacto económico é mesmo semelhante ao de um aumento de impostos.

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