Multiplicadores para uma economia (portuguesa) em crise

Os últimos dois anos foram intensos para quem estuda os efeitos da política orçamental. Pouco depois de o FMI ter espetado um estaca no caixão da teoria da austeridade expansionista, Leigh e Blanchard encontraram evidência de de que os multiplicadores podem ter sido subestimados entre 2010 e 2011, o que gerou uma intensa discussão na comunidade de economistas. Desde então, descobrimos que os multiplicadores dependem da posição no ciclo económico (aqui e aqui), que os valores efectivos podem ser significativamente superiores à unidade e que, com valores desta magnitude, uma política orçamental contraccionista pode na realidade acabar por aumentar o fardo da dívida pública.

Ficava a faltar uma análise específica sobre a realidade portuguesa. Até agora.

Fiscal multipliers in a small euro area economy: how big can they get in crisis times é o mais recente estudo do Banco de Portugal acerca de política orçamental, que investiga a dimensão dos multiplicadores consoante a posição da economia no ciclo económico. O ponto de partida,  inspirado nas conclusões de Fiscal multipliers and the state of the economy é que os efeitos da despesa pública e impostos são diferentes consoante o ‘pano de fundo’ em que actuam – pequenos quando a economia está perto do potencial, mas elevados quando há capacidade desperdiçada.

Os economistas do BdP partem do modelo macroeconómico de equilíbrio geral PESSOA para simularem vários cenários de consolidação orçamental. Num cenário ‘normal’, o modelo é parametrizado de acordo com os parâmetros típicos da economia portuguesa; num cenário de ‘crise’, alguns dos parâmetros são alterados de maneira a reflectirem melhor as circunstâncias concretas e constrangimentos específicos por que passou (e passa) a economia portuguesa durante e Grande Recessão.

Assim, é imposto um aumento da fracção de famílias com constrangimentos de crédito, eleva-se a importância da rigidez nominal e ganham maior dimensão as fricções financeiras. Estas três alterações, por si só, impõem uma alteração substancial no valor efectivo dos multiplicadores, que chegam a ficar quase duas vezes maiores. Isto num país em que, recorde-se, a política orçamental já é especialmente poderosa, em virtude do regime cambial efectivo (câmbios fixos).

O quadro em baixo, retirado do ‘paper’ do BdP, põe as diferenças em evidência. Um corte de consumo público de 1% do PIB significa, no cenário de crise, uma quebra do PIB de 2%, bem mais do que os 1,2% obtidos em cenários mais típicos. O multiplicador dos impostos é mais baixo e muda menos, embora também seja agravado.

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As implicações deste resultado serão exploradas num post subsequente.

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