O falso problema da competitividade (1)

A questão da competitividade tem sido com frequência colocada na origem do problema das contas externas portuguesas, que emergiu no final da década de 90 e se cristalizou com a criação da Zona Euro. Este post chama a atenção para alguns factos que chocam com esta ideia e sugerem que esta explicação é, no mínimo, muito incompleta.

O termo competitividade é abrangente e frequentemente utilizado em sentidos diversos. Neste contexto, significa apenas o inverso dos Custos Unitários do Trabalho (CUT) – que são, por sua vez, um barómetro da evolução da relação entre os salários nominais e a produtividade (uma discussão interessante acerca deste conceito pode ser encontrada em Wage-productivity gap: where is it?, no Portuguese Economy).

A hipótese segue mais ou menos a seguinte linha de raciocínio: 1) as economias periférias têm práticas sociais que favorecem a fixação de salários acima da produtividade; 2) estas práticas conduzem a um aumento do poder de compra artificial, que estimula o crescimento das importações, e a uma degradação da rentabilidade do sector transaccionável, o que corrói as exportações; 3) é o mecanismo cambial que restaura a competitividade da economia, reduzindo os salários reais e embaratecendo as exportações; 4) numa união monetária, não há válvula de escape para a persistente subida dos salários acima da produtividade; 5) o que gera uma situação de desequilíbrio externo prolongado que só será resolvido através das ‘pressões de mercado’: fim do financiamento e um colapso da procura interna.

Em Portugal, Vítor Bento tem sido o maior defensor desta proposta (ver, por exemplo, O nó cego da economiaEuro forte, euro fraco), inicialmente formulada pelo actual economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard (Adjustment within the euro: the difficult case of Portugal). Esta tese tem amplo apoio dentro da Troika, sobretudo na Comissão Europeia – o FMI tem vindo, pouco a pouco, a distanciar-se desta perspectiva (ver Portugal’s competitiveness, na página 33 dos Selected Issues feitos ao abrigo do Artigo IV).

A peça mais incómoda deste puzzle é o comportamento da balança comercial (exportações – importações), que não parece seguir o guião implícito a esta hipótese. O quadro em baixo mostra uma média móvel da balança comercial e do saldo externo total (balança corrente + balança de capital).

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O facto mais notório a salientar é a ausência de qualquer relação entre ambos os saldos. A balança comercial manteve-se praticamente inalterada entre o período 1996/2000 e 2006/2009, ao passo que as balanças corrente e de capital agravaram-se significativamente.

Um elemento curioso a notar é que esta parece ser uma excepcionalidade portuguesa. De facto, a tese da competitividade explica razoavelmente bem a emergência de desequilíbrios externos no resto da periferia, ‘colapsando’ apenas no caso português.

Os dois quadros seguintes ilustram esta ideia através de duas comparações. Primeiro, a evolução comparada do saldo comercial ao longo de quatro períodos; depois, a percentagem da evolução do saldo externo que pode ser directamente explicada pela evolução do saldo comercial (ou, de forma mais rigorosa: Δ Balança comercial [1996-2000] / Δ Saldo externo [2006-2009]).

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O primeiro gráfico mostra como a estabilidade do saldo comercial português ao longo de cerca de 20 anos contrasta com a degradação do saldo comercial dos restantes países da periferia. O corolário desta situação aparece no segundo gráfico: entre 1996/2000 e 2006/2009, o saldo comercial explica cerca de metade do aumento dos défices externos espanhol e grego, mas dá um contributo líquido positivo (embora marginal) para minimizar o crescimento do défice português.

Estes números mostram que a tese da competitividade dá um uma ajuda escassa (se é que dá alguma de todo) para explicar os desequilíbrios acumulados durante a última década. E, seja qual for o factor explicativo por detrás deste fenómeno, ele parece ser único a Portugal, num contraste claro com os restantes países periféricos. Uma questão que ficará para um post posterior.

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One comment on “O falso problema da competitividade (1)

  1. Manuel Campos diz:

    Este blogue é fascinante. Cada entrada é uma pérola. Parabéns

    Gostar

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