O Excel de Rogoff

Por esta altura, a generalidade dos leitores já estará a par da polémica dos três erros do paper de Rogoff e Reinhart (R-R). De forma breve: um dos estudos mais citados de sempre no campo do crescimento e finanças públicas, que concluía que uma dívida pública acima dos 90% reduz significativamente o crescimento económico, parece ter sido construído sobre três erros: selecção de elementos arbitrários da amostra, um mecanismo de ponderação dúbio e até… um erro de Excel.

Does High Public Debt Consistently Stie Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff, elaborado por dois estudantes de doutoramento e um dos orientadores (HAP, para simplificar), está disponível na net, mas é possível ler bons resumos no Next New Deal. Paul Krugman já fez duas interessantes entradas e Dean Baker fala acerca das implicações políticas que o estudo teve, um tema bem dissecado no Quartz. Mas a nota de ‘recomendado’ vai mesmo para um post no Next New Deal em que Mike Konczal utiliza uma engenhoso procedimento para mostrar como mesmo os resultados anteriores de R-R já estavam provavelmente contaminados por causalidade invertida.

Menos atenção tem sido dada à reposta de R-R. A reacção a quente foi reconhecidamente débil, mas uma segunda resposta já está disponível no Business Week. E esta vale a pena ler.

O que dizem Rogoff e Reinhart? Os dois economistas reconhecem facilmente o erro de Excel, um aparentemente simples ‘problema de arrastamento’ – e que tem, de resto, um impacto marginal nos resultados. Mas rejeitam as duas outras críticas que lhes são feitas: a suposta ‘selecção enviesada’ da amostra terá resultado simplesmente do facto de os dados em causa não estarem disponíveis à data em que foi publicado o estudo; e o método de ponderação poderá não ser tão estranho quanto parece à primeira vista (ver quarto parágrafo da página 2 da resposta de R-R).

O mais interessante é que a abordagem ‘corrigida’ seguida pelos críticos de R-R não se traduz em resultados muito diferentes dos que aparecem no paper original. O quadro em baixo é retirado da resposta publicada na Business Insider. A taxa de crescimento mediana dos ‘países com dívida pública alta’ (ou seja, superior a 90% do PIB) é apenas ligeiramente inferior à que aparece nos cálculos de HAP. O argumento de R-R é que sempre enfatizaram os valores ‘medianos’ e não os médios. Ora esses não são, de facto, significativamente diferentes (2,2 versus 1,6%).

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P.S.- O Bruegel fez o melhor apanhado de toda a polémica.

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2 comments on “O Excel de Rogoff

  1. Tiago diz:

    Eu não percebi a origem de tanto alarido por causa do erro nos resultados (convém notar que o artigo do AER é apenas um papers and proceedings, isto é foi publicado porque alguém achou interessante nos meetings da AEA). Para mim a mensagem mais importante do artigo, bem como do livro, é que crises de dívida soberana ocorrem muito rapidamente quando os níveis de dívida são elevados. Crises que acontecem mesmo quando pode não haver nenhuma razão aparente, isto é, resultam de expectativas auto-sustentadas. O exemplo típico é o México em 1994 (30% dívida), mas acho que Portugal, a Espanha, ou a Itália também tiveram um pouco disso. A ideia é de que um país entra numa ‘zona de risco’ quando a dívida cresce para valores que não podem ser pagos se, por qualquer motivo, não existir renovação dos empréstimos. Uma ideia que já andava a ser discutida (teoricamente) há mais de 20 anos.

    Os autores do estudo vieram apenas demonstrar que tais teorías podem ter alguma tracção naquilo que os dados históricos demostram. E não apenas nesse artigo mas em todos os outros que o precederam (e especialmente da Carmen que já há muito tempo tem estudado esses fenómenos).

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  2. Tiago,
    recomendo a leitura do post Mike Konczal (referido no artigo), porque mostra bem que não é isso que acontece.
    A resposta de Rogoff não aborda a questão mais importante, que é o sentido da causalidade. No post que refiro, fica claro que a causalidade é a oposta: é quando um país está em recessão que entra numa “zona de risco” em termos de crescimento da dívida.

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