Não, os salários não estão a subir

O Diário Económico noticia hoje que empresas privadas estão a aumentar salários até 3%. Quem tem estado atento às notícias acerca do estado do mercado laboral não pode deixar de torcer o nariz a esta manchete, e levantar pelo menos algumas dúvidas em relação à forma como o jornal chegou a esta conclusão.

A metodologia, de facto, não é das mais felizes, e seguramente não justifica a importância que está implícita a uma primeira página. A jornalista contactou onze empresas/grupos e inquiriu os responsáveis relativamente às actualizações salariais negociadas (ou em negociação). O inquérito permitiu apurar que a Continental Mabor tenciona dar aumentos de 2,2%, a Renova fica-se pelos 1,5%, a Autoeuropa e EDP sobem até 1,6% e a GALP não ultrapassa os 0,5%. Três empresas afirmam que não dão aumentos (embora uma actualize os vencimentos inferiores a 600€) e outras três não avançam valores.

A média (não ponderada) das actualizações reportadas é de cerca de 1%, um valor consideravelmente mais baixo do que o chamariz da primeira página – e que está, de resto, em linha com os números de contratação colectiva que o Banco de Portugal reporta nas suas estatísticas (1,1%, no capítulo H.2.7). Mas há razões para crer que nenhum destes números traduz fielmente o que se passa de facto no mercado laboral.

Os valores da contratação colectiva referem-se apenas a actualizações salariais para contratos pré-existentes. As actualizações apenas podem ser um proxy útil para a totalidade da economia se se presumir que os novos contratos seguem um perfil semelhante aos dos mais antigos. Num mercado laboral como o português, em que a pressão do desemprego tende a acumular-se sobre quem está fora do mercado (outsiders) esta hipótese é pouco plausível.

Outro problema tem que ver com a abrangência do conceito de salário, que muitas vezes deixa de forma prémios, outros bónus ou compensações não pecuniárias (seguros de saúde, refeições, etc.). O quadro global só pode ser capturado se se passar de um conceito restrito de salário para o conceito abrangente de “compensação”, que inclui um conjunto mais vasto de benefícios do que apenas o vencimento mensal.

Tanto o Banco de Portugal (capítulo H.2.8) como o INE fornecem informação relevante para ultrapassar este problema – as remunerações médias declaradas à Segurança Social e as compensações por empregado por conta de outrém. Em ambos os casos se chega a uma variação média salarial bastante diferente de 3% (ou sequer de 1%).

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4 comments on “Não, os salários não estão a subir

  1. […] Troika e Governo ainda sem acordo sobre cortes Não, os salários não estão a subir […]

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  2. Grande Pedro! Parabéns pelo texto e pela excelente análise que vou “roubar”.

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  3. […] Romano esclarece como são enganadoras as notícias de que as empresas estão a subir os […]

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