Curiosidades da dívida externa

A correcção impressionante do saldo externo da economia portuguesa não é novidade. Em menos de dois anos (entre o início de 2010 e o final de 2012) as necessidades líquidas de financiamento anuais passaram de cerca de 17 mil milhões de euros para pouco mais de mil milhões. Na verdade, a utilização de valores acumulados de quatro trimestres esconde um facto ainda mais relevante: entre Julho e Setembro de 2012, o saldo externo foi mesmo positivo.

Este facto, amplamente referido na comunicação social, contrasta com outro dado, mencionado com menos frequência, que é o crescimento acelerado da dívida externa (ou, tecnicamente falando, da posição externa líquida de activos financeiros) nos últimos trimestres.

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Sendo o primeiro uma variável fluxo e o segundo uma variável stock, não há necessariamente incompatibilidade entre a redução das necessidades de financiamento e o aumento das responsabilidades perante o exterior. Note-se, contudo, que a dívida externa (aqui avaliada pela Posição de Investimento Internacional) estava a diminuir bastante ao longo de 2011, e que voltou a aumentar – e a aumentar cada vez mais – nos últimos três trimestres.

Discrepância estatística pela utilização de fontes diferentes? Provavelmente, não.

O Banco de Portugal publica regularmente um detalhe conciso a decompor a variação da PII. Ainda não há dados para 2012, mas o boletim de 2011 mostra que a queda da dívida externa registada nesse ano deveu-se em grande medida ao factor ‘variações de preço’ – em particular, preço dos passivos nacionais em mãos estrangeiras, sob a forma de títulos de longo prazo das Administrações Públicas. Em suma, a dívida externa diminuiu porque o valor das obrigações do Tesouro em mãos estrangeiras – que na PII são avaliadas ao preço de mercado – caiu a pique.

Não é difícil imaginar qual será o factor por detrás do aparentemente estranho crescimento da dívida externa. A procura acrescida por obrigações do Tesouro em mercado secundário – que se reflecte na descida das ‘yields’ e culminou com a emissão de OT’s a 5 anos na semana passada – está a reflectir-se como uma valorização da dívida nacional em mãos externas. O corolário desta valorização é aumento do passivo nacional face ao exterior, que agrava o stock negativo da PII. Contabilisticamente interessante, mas economicamente pouco excitante.

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