O BCE junta-se à guerra dos multiplicadores

O FMI disse que os multiplicadores são mais altos do que se pensa. A Comissão Europeia disse que não é bem assim. E o BCE, o que diz?

O BCE chutou a bola para canto e diz que toda a questão é pouco relevante, porque o que interessa é o longo prazo.

A caracterização é um pouco injusta, mas apenas um pouco. No último boletim mensal (box 6), o BCE faz algumas simulações com o seu novo modelo macroeconómico para avaliar o impacto da consolidação orçamental na Zona Euro – e o que resulta daqui? Em resumo, o organismo de Frankfurt admite que a consolidação retira crescimento no curto prazo, e que cortes de despesa (consumo público e investimento) são substancialmente mais nefastos do que subidas de impostos; contudo, também afirma que a dimensão dos multiplicadores depende de muitos outros factores e da forma como estes interagem com a estratégia de consolidação. Em suma, o importante é que os policymakers se concentrem no longo prazo.

Na prática, porém, todos, ou quase todos, os factores que o BCE afirma que podem minimizar o tamanho dos multiplicadores estão ausentes na periferia da Europa. O primeiro canal de transmissão é a credibilidade da consolidação, que gera nos agentes económicos a expectativa de que, no futuro, contas públicas mais equilibradas permitam baixar impostos e assim conduzir a efeitos supply side positivos. A ideia de que haverá alguma redução de impostos na Grécia ou Portugal, pelo menos ao longo de um horizonte temporal de previsão razoável, é bastante discutível.

O segundo canal de transmissão é a redução nas taxas de juro cobradas aos Governos, novamente um canal inerte para os países que estão ao abrigo de programas de ajuda externa e que têm, por isso, os seus custos de financiamento fixos.

O terceiro canal de transmissão é a composição da consolidação orçamental. Estratégias mais assentes em subidas de impostos  e menos em reduções do investimento e consumo público têm um efeito menor na taxa de crescimento do Produto. De novo, a estratégia de consolidação seguida pelos países periféricos parece ser elaborada na ignorância desta evidência.

O quarto e último canal de transmissão é a percentagem de agentes económicos com restrições de liquidez (ou seja, sem acesso aos mercados financeiros). Quanto menor a percentagem de famílias e empresas com estas restrições, menor é o impacto multiplicador da consolidação orçamental. As taxas de juro e de crédito, bem como os graus de alavancagem dos sectores privados irlandês, grego e português, porém, actuam no sentido de um multiplicador maior, e não menor, do que a simulação do BCE.

Depois de ler as conclusões, é inevitável chegar à conclusão de que o BCE optou simplesmente por ‘desconversar’.

The current debate appears to be too narrowly focused on the size of the short-term fiscal multiplier. Well-designed consolidation leads to a permanent improvement in the structural balance, while the deterioration in growth, if any, is only temporary. Fiscal consolidation has a favourable impact on the path of the debt-to-GDP ratio, which, at present, is more important than ever to restore trust in fiscal sustainability in the euro area and beyond.

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