Sexo (e economia)

Mais de dois séculos depois da fundação da economia como disciplina autónoma, a pergunta original que levou Adam Smith a escrever The Wealth of Nations continua por responder: o que é que causa o crescimento económico de longo prazo? O campo é fértil em conjecturas – liberdade económica (Smith), hábitos (Landes), estabilidade macroeconómica (FMI), factores geográficos (Diamond), os genes (Clark) – mas os consensos são poucos.

Em Sexual selection, conspicuous consumption and economic growth, três investigadores da Universidade de Austrália concluem que os homens já sabiam. É tudo uma questão de sexo.

O paper é puramente teórico, na linha de alguns modelos da biologia evolutiva. Os autores partem da observação de Robert Trivers de que machos e fêmeas têm estratégias reprodutivas diferenciadas, de maneira a maximizar o sucesso reprodutivo. Os homens, para quem os filhos são um investimento barato (apenas o tempo de copular), procuram sexo indiscriminado; as mulheres, para quem os filhos consomem recursos (nove meses de gestação no mínimo), perdem tempo a garantir a escolha de um parceiro que garanta apoio na criação da criança (fidelidade) e capacidade para o fazer adequadamente (poder económico).

Nos modelos habituais da biologia evolutiva, os machos reagem a esta selectividade através da sinalização destes traços: oferecem presentes (muito comum em alguns insectos – e em determinados primatas superiores…), fazem demonstrações de força (combates), etc. Na economia, como na biologia, a sinalização só funciona se o sinal tiver custos associados, de maneira a que nem todos os possam emitir.

O paper mostra como o consumo conspícuo (consumo ‘de luxo’, para ostentar poder e riqueza) pode funcionar como um destes sinais, incentivando so homens a consumirem sempre mais e a incorrerem nos comportamentos necessários à manutenção deste consumo – muitas horas trabalhadas, inovação, produtividade, etc. Este estudo é congruente, aliás, com investigação recente que dá conta de que o aumento da desigualdade leva a um aumento na concessão de crédito junto das faixas sociais mais baixas.

Cito, em baixo, um trecho retirado do excelente Stumbling and Mubling, acerca do mesmo estudo:

Perhaps, therefore, men work longer than necessary in part simply because they want to shag around.

This suggests that economic growth will be n-shaped with respect to sex. Where there are strong taboos against non-marital sex, the motive for conspicuous consumption will be weak – because it’ll not get you sex anyway – and so labour supply and innovation and growth will be weak. But where women give it up for anyone, there’ll be no need for men to spend to impress, so growth will also be weak. It’s middling degrees of sexual promiscuity that are best for growth.

History is consistent with this. Max Weber relates how, in traditionalist societies, it was very hard to get men to work more than the bare minimum – though he had very different ideas as to how this habit was overcome! And economic growth in such societies tends to be negligible.

By contrast, growth in the west was fastest in the 1950s and 60s when traditional sexual morality weakened, and  – as Mad Men shows us – economically successful men could shag around.

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One comment on “Sexo (e economia)

  1. É interessante que o próprio termo consumo conspícuo tenha nascido de uma reflexão idêntica feita por um economista, Thorstein Veblen. Pena que o termo apenas tenha sobrevivido na biologia. Felizmente, a biologia volta para o relembrar aos economistas. A evolução da Economia pode estar por aí…

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