Os CUT vistos de perto

No post anterior, argumentei que os Custos Unitários do Trabalho são um indicador de valor analítico limitado. Em primeiro lugar, os CUT não são úteis para comparar salários com produtividade, porque deflacionam a produção sem aplicar o mesmo tratamento aos rendimentos do trabalho; em segundo lugar, os CUT não são um proxy perfeito para medir a evolução da competitividade externa, porque agregam a informação ao nível da economia completa, sem separar o sector transaccionável do sector não transaccionável.

Este post acrescenta mais alguns dados a esta discussão, concluindo com uma curiosidade que ainda não vi referida em nenhuma análise.

A narrativa oficial, recorde-se, estabelece uma relação entre a evolução dos CUT, competitividade externa e crescimento das exportações. Veja-se em baixo como Portugal tem sido um dos países a apresentar um crescimento das vendas ao exterior mais expressivo ao longo dos últimos dois anos.

A Troika afirma que esta evolução resulta do comporamento dos CUT, que apresento em baixo numa base trimestral (clicar para aumentar).

Os CUT não reflectem um grande crescimento da produtividade. O Eurostat revela que a produtividade tem crescido em linha com a média da Zona Euro. A descida dos CUT reflecte, por isso, redução das remunerações. De onde vem esta redução?

Ao contrário do que porventura se esperaria, esta redução vem do sector público. Para chegar a esta conclusão, fiz o seguinte exercício: a) comparar as remunerações das Administrações Públicas das Contas Nacionais com as remunerações das famílias, sector financeiro e empresas não financeiras da mesma fonte; b) dividir o agregado pelo número total de trabalhadores de cada subsector; c) utilizar o boletim do emprego público para extrair os números do emprego nas Administrações Públicas no primeiro trimestre de 2012; d) calcular taxas de variação homólogas.

A variação negativa das remunerações vem sobretudo do sector público, devido ao corte salarial médio de 5% em 2011. Estes números não reflectem a retenção dos subsídios a fazer em 2012. A divergência deverá, por isso, agravar-se. Daqui extraem-se três conclusões.

A primeira conclusão é a impressionante rigidez nominal da economia portuguesa. A subida da taxa de desemprego para valores acima dos 13% não parece estar a ter efeito nas negociações salariais do sector privado.

A segunda conclusão é que a descida dos CUT deverá ter muito pouco a ver com a melhoria das exportações, tendo em conta que ela reflecte sobretudo desenvolvimentos salariais num sector (Administrações Públicas) que nem sequer concorre no mercado internacional.

Uma terceira conclusão tem que ver com a protecção relativa de sectores. Ao contrário do que seria de esperar, é no sector público que as remunerações têm caído mais. É verdade que o funcionário público médio tem maior estabilidade laboral, o que, poderá argumentar-se, compensa este efeito; porém, mesmo a este nível parece que as coisas mudaram muito nos últimos dois anos.

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