A Grécia já quase não tem défice primário. Razões para nervosismo?

A troika tem hoje dois casos de consolidação orçamental para apresentar como exemplo à Europa: Grécia, o caso mau, e Portugal, o caso bom.

A distinção entre os dois casos é menos óbvia do que parece à primeira vista. Olhando para os saldos orçamentais e saldos primários (défice sem pagamento de juros), a diferença entre os dois países não parece relevante. De facto, a Grécia aparenta até ter levado a cabo um esforço de consolidação mais agressivo – o saldo primário recuou mais de 8 pontos percentuais entre 2009 e 2010.

Não é difícil perceber a razão por que a troika enaltece Portugal como um exemplo a seguir. É porém mais complicado perceber por que é que a troika aponta o dedo à Grécia e revela cada vez menos paciência para tolerar os “desvios” helénicos. Será tudo má imprensa?

Um explicação pode ser o “paradoxo” da saída euro.

A troika empresta dinheiro à Grécia. Como moeda de troca, espera que a Grécia diminua o seu défice e ponha as contas públicas em ordem. Isto permite duas coisas: serve de garantia a quem concedeu dinheiro que o empréstimo será ressarcido; e garante, a prazo, que a Grécia pode permanecer no euro; consequentemente, os receios em torno do resto da periferia diminuem e a crise da dívida soberana acalma.

Mas e se a Grécia quiser sair do euro? Para a Grécia, as restrições impostas pela presença na união monetária aumentaram significativamente no último ano, sobretudo com a imposição de novas normas europeias de controlo de desequilíbrios (desde o Macroeconomic Imbalances Procedure até ao Fiscal Compact) muito mais exigentes nas suas metas e rigorosas no seu controlo. Um Governo grego pode chegar à conclusão de que a saída do euro, seguida do inevitável ‘default’ na sua dívida externa, é a melhor opção.

Há um senão. Mesmo que a Grécia saia do euro e faça ‘default’ na sua dívida externa, o défice continua presente, já que apenas uma pequena parte deste é destinado ao pagamento da dívida (via juros). Na prática, a saída do euro e o fim de fontes de financiamento para o défice orçamental obrigariam o Governo grego a um ajustamento orçamental ainda mais brusco do que o que está a ser actualmente levado a cabo.

A estratégia ideal de um Governo interessado em sair do euro seria, assim, simular o interesse em cumprir o plano de ajustamento até que o défice primário esteja perto do zero; ir fazendo ‘jogo duplo’ com a troika lá fora e com os eleitores lá dentro; e fazer ‘default’ nessa altura, colhendo os benefícios de não cumprir as suas responsabilidades sem ficar refém dos seus financiadores, que a partir daí deixariam de ser necessários.

O défice primário de apenas 2% em 2011 (e praticamente nulo em 2012), pode parecer um ponto a favor da troika. Mas, conjugado com os sinais enviados pelos partidos políticos à população de que a austeridade será apenas transitória, pode eventualmente explicar o porquê do nervosismo dos organismos europeus (e do próprio FMI, que já ensaiou uma retirada estratégica).

Sugestão de leitura: um comentário no Marginal Revolution acerca do “moral hazard” criado pela situação de saldo primário positivo.

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