O aspecto de uma espiral recessiva

A troika voltou a Atenas e a primeira notícia que saltou para a comunicação foi uma aparente revisão em baixa do cenário macroeconómico, que apanha pelo menos 2012 mas que, presume-se, acabará por abranger também os anos seguintes.

Quem não acompanha o assunto ao pormenor já deve ter perdido a conta ao número de vezes que este cenário foi alterado. Das cinco avaliações publicadas até agora, só uma trouxe poucas novidades a este respeito. Ao mesmo tempo, a dimensão dos défices orçamentais (para o ano corrente e seguintes) tem sido quase sempre revista em alta.

A ideia que neste momento permeia alguns círculos é que Atenas está presa numa espiral recessiva da qual só pode escapar através de uma significativa reestruturação da sua dívida, que permita diminuir o pagamento de juros, ou saindo da Zona Euro. Com algumas salvaguardas, esta ideia tem sido igualmente aplicada a Portugal, sobretudo desde que a execução orçamental começou a revelar resultados cada vez mais débeis ao nível da colecta fiscal.

Esta avaliação pode ter alguma validade no caso da Grécia, tendo em conta que todas, ou praticamente todas, as revisões do cenário macroeconómico se  traduziram numa degradação da situação económica, com a retoma a ser cada vez mais ‘empurrada’ para a frente. Mas não pode ser aplicada a Portugal (pelo menos para já…), onde os últimos números das Contas Nacionais até acabaram por surpreender pela positiva. As próprias avaliações trimestrais da troika, de resto, não têm trazido revisões significativas ao cenário macroeconómico.

Tentei ilustrar isto utilizando as previsões contidas nas avaliações trimestrais dos dois países. Os gráficos seguintes mostram a variação do PIB de cada ano face a um ano base fixo, que é o ano anterior ao da negociação de um programa de ajustamento. Os valores devem ser lidos da seguinte forma: para o ano em análise, o valor do gráfico revela a variação do PIB respectivo face ao PIB do ano base.

A imagem de Portugal mostra uma alteração de pressupostos entre o programa inicial e a terceira revisão. A quarta avaliação até introduz uma ligeira melhoria, muito embora seja demasiado insignificante para que se considere significativa. Em 2012, a economia está a funcionar cerca de 2 a 2,5% abaixo do nível de 2010.

O contraste com a imagem da Grécia é notório, onde a tendência de revisões é clara. Se existem espirais recessivas, a Grécia é certamente um destes casos. Na ausência de uma revisão recente do programa, utilizei as previsões do World Economic Outlook do FMI, complementadas pelo novo dado avançado hoje pelo Governo. Segundo estes pressupostos, o PIB grego de 2014 é 14% mais pequeno do que o de 2009.

E uma parte da história não é contada por estes gráficos. Enquanto as metas orçamentais de Portugal permanecem praticamente inalteradas, na Grécia as metas originais estão completamente desactualizadas, e prevê-se que não sejam atingidas mesmo depois de aplicada a reestruturação da dívida pública (actualmente a decorrer).

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